“Sou um membro do partido nazi. Sou um industrial que promove a escravidão. Sou um criminoso. Agora vocês serão libertados, e eu serei perseguido.”
Oskar Schindler
De longe para perto, na partilha de olhares solitários, compulsivos.

Toda a magia partia de uma carta de um papel amarelado selada a lacre. Do pombo à criada assim se fazia unir o amor de dois jovens, ou adultos, ou amantes comprometidos. O respeito era a ameaça constante e assim o amor parecia ter mais força e razão de ser. Um “amo-te” manuscrito numa caligrafia antiquada, rebocada e completa fazia os sonhos dos apaixonados. Sem tréguas, levava a loucuras irreversíveis. Especulava-se, imaginava-se, a ansiedade pela carta entregue em mãos alimentava a paixão.
É o último dia deste ano em que ela está acesa. E a primeira vez que a vejo acesa aqui, no meu refúgio. Já é novo ano, um igual ao anterior, que pouco me faz reflectir. Porque o fim do ano que agora acabou ainda me está na memória. Nada mudou. Está tudo presente demais, até.
Um presépio em frente a uma árvore iluminada e a luz de ver o que ela transmite. Ou pode transmitir. Ou poderia ter transmitido.
Para mim, o Natal que passou e que ainda não esqueci não era mais do que a celebração de uma união muito particular. Uma união que nunca existiria senão entre duas pessoas que se conhecem, se amam tal qual como são, que se compreendem e se defendem. Para lá de todos os insultos. Aquela entre aqueles que mais amo, a quem mais devo e agradeço, a quem desejava uma celebração mais merecida. Fiz o que pude, mas fui atirada para um poço de egoísmos e intrigas sem fundamento a que quase ninguém escapa hoje em dia. Família. Não consegui ter forças para tirá-los dali e fazerem abraçar-se com a força com que o fizeram depois de os convencionalismos o terem permitido. Depois de tudo tentarem para inverter o cenário. Não consegui, porque nunca mo deixaram, porque a tudo, sempre e com revolta minha me pouparam.
As luzes cintilantes da minha árvore, no meu refúgio silencioso e transparente, contam-me que a família é assim. Brilha forçada e automaticamente nas datas que assim o exigem. Hoje sei que ela teve esta data mais escura, qual árvore que abandonámos durante todo o Dezembro que já terminou.
Egoísmo não é pensar que só este refúgio me faz sentir em casa, mas sim ver como não me fazem, a mim e aos meus, sentir em casa noutro lugar. Talvez porque não saibam o que é sofrer a demora pelo erguer de um lar como este, que é o nosso tesouro e que vemos imitado até ao mais ínfimo pormenor, como o fruto de uma inveja orgulhosa. Egoísmo é tudo o que encontro fora deste refúgio, o único sítio onde tudo me é naturalmente claro. É tudo aquilo que as pessoas pensam não ver, iludidas com o que as tradições as obrigam a fazer. Egoísmo é acharmo-nos só "nós os quatro", mas também, mais gravemente, só "nós os três". Sentir-me-ia melhor, mesmo que longe dos quatro, se tivesse estado junto daqueles que não têm nada - nada que lhes permitisse ser egoístas. Pelo menos sei que não haveria lugares vazios na mesa, pois só lá estaria quem o pretendesse de livre vontade. Não, não estou melhor sem os meus, pelo contrário. Só quis estar ali para protegê-los de quem não queria que eles ali estivessem. Pois pelo que vi não quiseram.
Não reflicto. Apenas lembro, com esta clareza cruel, aquilo que fui obrigada a viver. Mas como todos os maus momentos, também com este eu aprendi que não adianta forçar a lágrima a não cair, não adianta evitar o curto-circuito já tão adiado, nem adianta vendar os olhos (ou deixar que mos vendem) para fingir que não sei o que sempre existiu.
Senti os meus princípios à flor da pele. A defesa daqueles que mais estimo, a revolta interior contra a injustiça e a ingratidão! e, ainda assim, a esperança num clima mais luminoso, que uma noite e uma mesa convenientemente decorada fizeram esvair-se. Contive-me, acreditei que não era verdade, que não era desilusão, sorri, procurei a calma, em mim e nos outros, chorei feridamente por dentro e assim o quis, forçando-me a viver aqueles minutos intermináveis como se pudessem ter o final feliz que não tiveram.
Senti o princípio da Família, presente nos injustiçados (e mais bem intencionados) e ausente dos anfitriões acusadores. Senti que não adianta incutir o espírito em quem não nasceu com ele, ou não o apreendeu devidamente.
Olhei para uma criança da mesma forma que vi os que já sabia que (não) iam sorrir para o quarto de século de união que, a partir deste Natal, se tornou o meu orgulho eterno.
Desenganem-se. As mais novas e mais poupadas são as mais esclarecidas, que agora sabem já ver e ouvir aquilo que os "mais grandes" sussurram e ditam entre linhas.
Para mim, tal como as luzes da minha árvore brilharam sem eu ver, também o meu Natal brilhou menos do que queria, do que esperava, do que merecia, do que fazia sentido ter brilhado. Havia tantas razões para isso. Apenas não conseguimos juntá-las. Assim só brilhou, e brilhará para sempre na memória, o ouro branco de duas peças que, tão escondidas, sabem exactamente o que sentem uma pela outra. Para lá de qualquer data ou (in)conveniência.
O meu Natal foi tão turvo quanto este texto.

Depois de catorze horas de sono, esforço-me por lembrar todos os momentos que marcaram os últimos quatro dias. E tal como revelei no artigo de opinião de ontem, na qualidade de “jornalista do MUN Daily News”, a verdade é que me sinto bloqueada quando tento falar na experiência que adquiri a vários níveis.
Quando me foi sugerida a reunião de meia dúzia de pessoas que quisessem colaborar na cobertura jornalística de uma simulação do funcionamento das Nações Unidas, nunca pensei que pudesse vir a viver momentos tão... vivos.
Não é exagero, sinto-me realmente BEM. Pela experiência prática da procura de notícias, estórias, conversas de corredor ou meros acontecimentos de agenda. Pela fuga à FSCH, que ali, na FCT, tanto criticámos. Pela fuga às salas de aula com aulas, pela fuga às folhas de ponto, aos enunciados, aos horários.
Nestes dias, nem me lembro se tive horários. Sei que acordava automaticamente, com vontade para me levantar depois de tão poucas horas de sono, sem aquela desmotivação que, apesar do balanço positivo das experiências apreendidas, caracterizou a generalidade dos dias do semestre académico que agora se prepara para terminar. Ali eu tinha coisas para fazer, tinha produções que dependiam do meu gesto, da minha corrida àquela sala ou àquele auditório, do meu trabalho, da minha escrita, das fotografias da minha máquina.

Tive a oportunidade de ver os meus textozinhos, mesmo que tão literalmente simulados, publicados no jornal “de amanhã”. Os textos que produzi numa também simulada redacção, com os colegas que creio terem sonhado ali tanto quanto eu. O produto não foi real, mas a produção do pequeno sonho decerto tê-lo-á sido, não acham, caros jornalistas do MUN Daily News?
Os alunos engenheiros (no caso, matemáticos) não deram conta do evento, a avaliar pelas vezes em que entraram de rompante na pequena redacção bem como, ao que se sabe, nos formais comités. Tentou-se de tudo: trancar a sala à chave, colocar um aviso na porta, vandalizar o dito aviso com fórmulas matemáticas... e ainda assim eles não compreenderam que ali se reservava um local de trabalho muito peculiar e aparentemente sério.
No primeiro dia, o receio era total, mas o entusiasmo estava lá, camuflado. Ainda ninguém se conhecia bem, nem entre a pequena redacção, nem entre a organização, muito menos entre os diplomatas que discutiam protocolos e resoluções nos diversos comités. Assim o confirmaram as muitas entrevistas, realizadas tão ainda de pé-atrás entre os pequenos “breaks” dos “coffee-breaks”, à procura das primeiras reacções. A primeira edição do recém-formado MUN Daily News saiu consoante o previsto, mas talvez ainda um pouco sem sal. Queríamos mais, mais páginas, mais produção, mais entusiasmo. E assim lutámos por isso, até à uma da manhã na Associação de Estudantes da FCT, depois de expulsos da nossa já acarinhada redacção, que estava apenas reservada para o Portugal MUN até às 19 horas, “só até às 19 horas, só até às 19 horas, só até às 19 horas”. O cansaço acumulado dos trabalhos académicos a entregar até ao final da semana resultou num decréscimo do rendimento que, aliado à inexperiência dos pequenos jornalistas entusiasmados, permitiu a conclusão do jornal apenas à hora que todos sonhávamos já estar a dormir. A colega Sara Biscaia foi a grande resistente ao sono, firmemente agarrada ao seu gravador a escrever entrevistas feitas aos delegados dos vários países.

No dia seguinte, demos conta da importância de cada elemento da pequena redacção, que assim conseguiu reduzir o tempo para a conclusão do jornal, pronto a entregar. Produção em série, um insere, outro fotocopia, outro preenche a requisição de um dos mil aspectos que não precisámos de pagar, outro transporta, outro dobra, outro vinca, outro encaixa, outro empilha... para todos distribuírem. Calhou-me distribuir a edição do MUN Daily News na sala da Cimeira Euromediterrânica, onde o entusiasmo pela recepção do jornal não foi a mais calorosa de todos os comités mas onde senti, em todo o caso, uma enorme sensação de conforto e plenitude. “Aqui está o nosso trabalho ao vosso dispor”. Aliás, não poderíamos provar mais o nosso entusiasmo por este trabalho do que manifestando o enorme agrado pelas reclamações feitas por alguns delegados que se queixavam da deturpação da informação por parte dos jornalistas...
A eclosão de uma crise, no mesmo dia, apurou ainda mais o bichinho do stress que a todos afectou. Uma sugestão para o título, outra para a foto, outra para o pormenor “última hora” e outra pela abordagem (pelos vistos errónea) dos acontecimentos no Sudão e no Uganda fizeram daquela edição especial do MUN Daily News outra grande experiência. “Cada um de nós vai entrar no seu comité de rompante e assim todos os comités receberão a notícia ao mesmo tempo”, propôs a Ana Filipa, também já conquistada pelo stress jornalístico daquele mundo aparte em que vivemos por uns dias. (Sim, porque ontem no Bairro Alto eu e a jornalista Sara Barata julgámos ter visto por uma dezena de vezes o colega fotógrafo, o sr. Delegado da Arábia Saudita e outros por todo o lado...)
Nessa noite, porém, o trabalho acrescido manifestou-se no cansaço de todos os elementos. Apesar do convívio esperado (e até certo ponto concretizado) no jantar-cujo-encontro-do-restaurante-exigiu-tempo-extra-porque-todos-caíram-no-erro-de-acreditar-no-meu-sentido-de-orientação, concluímos que o melhor seria voltarmos para casa e trabalharmos individualmente.

Tomo partido deste momento para partilhar o meu orgulho quando dei por mim, à uma da manhã, no carro, depois de deixar os colegas nas respectivas casas (ou não), descontraidíssima numa visita extra-MUN. Sabia que teria de acordar seis horas depois e, no entanto, aproveitei aquele encontro pessoal ao máximo, acordadíssima, sem olhar para o relógio! Estou a evoluir!
Mas retomando, o dia de sexta-feira começou cedo, pela hora que referi, num movimento já bastante automático de “vou trabalhar, não tenho sono nenhum, toca a levantar esse rabo da cama que experiências estimulantes aguardam por ti”. Nelson Traquina esperava-me para me dar duas boas notícias (literalmente) e para receber de mim mais três trabalhos de produção jornalística: uma reportagem geral cujo balanço é, a meu ver, positivo, dada a boa organização de tarefas; uma reportagem individual que terminei num pequeno intervalo da hora do fecho da edição do jornal-real-de-sonho na tal noite na associação de estudantes (estou definitivamente a evoluir); e uma notícia de agência sobre ataques terroristas de norte a sul de Portugal, enunciada para ter sete parágrafos. Este terceiro trabalho foi sem dúvida o mais interessante. Assim o confirme Mariana Barbosa, a jornalista que se encontrava aproximadamente na mesma situação-de-sono que a minha pessoa. Falámos meia hora antes de olhar para o enunciado, soltando “como se sente?”, “quantos artigos escreveste para hoje?” e “mandaste o mail ao grafitti-man Guilherme?” que denunciavam a exclusividade do nosso interesse para o Portugal MUN a decorrer já do outro lado do rio. E mesmo quando pegámos no dito enunciado, começámos por esboçar na folha de rascunho expressões parecidas com “Federação Russa animada em jantar-convívio” ou “Crise no Sudão prevista para ser solucionada hoje na Assembleia Geral das Nações Unidas”. Mesmo assim, lá nos esforçámos por terminar o trabalho académico, qual responsabilidade que passou a fazer parte de nós, colegas de redacção, para cumprir todos os trabalhos solicitados. Da minha parte, escrevi a notícia tão ansiosamente à pressa que só no momento de passagem para a folha de ponto é que dei conta de ter escrito um parágrafo a mais... mas não há tempo, estamos perante a pirâmide invertida, corta o último e entrega.
Minutos depois já estavamos de partida para a nossa casa daqueles dias, FCT de nome... O cansaço era de facto evidente, a chegada à redacção foi tardia mas mesmo assim não sobrara já energia para ter o jornal pronto à mesma hora do dia anterior. Um café, dois cafés, lá saiu, lá foi lido e criticado pelos vários comités, um almoço às pressas, a inversão dos papéis quando os delegados rodearam os jornalistas a comentar o seu trabalho, mais um café e toca a instalar a cobertura jornalística na Assembleia Geral decorrida no Grande Auditório.

Muitas formalidades, muito trabalho de pesquisa, muitas conversas de corredor, muitas decisões e muitos discursos marcaram aquela interessante tarde em que o vento frio e cortante lá de fora foi abafado pelas acusações diplomáticas dissertadas à mesa em tom irónico e caloroso. Mesmo no coffee-break o trabalho foi activo, da minha parte atirei pela goela mais um café cheio e retomámos a sessão, cuja resolução concluía pouco mais do que o que todos sabiam à partida. Em suma, todos os presentes confirmaram que as formalidades de acontecimentos deste tipo atrasam em muito a aprovação de resoluções, mas nem por isso o empenho de parte a parte deixou de se fazer sentir.
Quando todos os diplomatas foram para casa vestir-se a rigor, os jornalistas permaneceram na redacção-reservada-apenas-até-às-19-horas até mais tarde, qual jornalismo que nunca tem horas. Um motivo de força maior se elevou, no entanto, arrastando todos os redactores para suas casas, vestir-se e pintar-se para estar à hora marcada na discoteca Kapital. Os cafés começavam a fazer efeito e a ânsia pela noite era visível, à procura de grandes acontecimentos para publicar na manhã seguinte.



Apesar de não ter sido esse o caso, porque o esgotamento aproximava-se, a noite foi aproveitada ao máximo. A imparcialidade da qualidade de jornalística terá de ser aqui abandonada, pois só posso revelar a minha opinião pessoal sobre o que ali se passou. No terceiro piso, lembro-me (...) de ter ouvido, finalmente em pista de dança, o excitante new hit da Madonna estilo anos 70 em que os mais tímidos delegados se revelaram. A partir daí, as vodKas Ke Karacterizam o grupo K, Kom vodKa igualmente no gelo, degradaram a minha imagem, impedindo que agora saiba relatar cronologicamente os acontecimentos . Hoje já sei que encontrei amigos extra-MUN, sei que roubei uns cornos de rena a alguém igualmente extra-MUN, , sei que o delegado da Argentina atirou a minha máquina fotográfica ao chão, sei que acusei a maioria dos diplomatas presentes de homossexualidade, sem que manifestei actos lesbianos no meio da pista de dança, sei que não sei de muita coisa, sei que às seis da manhã era a única que não queria saber do horário de trabalho para a manhã seguinte (o que prova novamente a mudança radical que operei nas células organziadas do meu organismo) e sei que nesse momento final aproveitei para retribuir o papel de pendura na boleia do delegado da França que terei conduzido perigosamente à faculdade nessa manhã. Pouco me lembrando do caminho até ao carro, estou agora consciente que arrastei quatro pessoas até uma padaria por minha causa, onde adquiri um pão-com-chouriço que levei meia-hora para acabar de comer. Aos ziguezagues procurei fazer uma expressão calma perante a minha Mãe, que se cruzou comigo, acordada, em casa, e caí redonda na cama depois de marcar o despertador para três horas depois.
O acordar foi o menos automático daqueles dias. Agoniada, a desesperar de sede e tontíssima tomei um banho que não me acordou e dei por mim a dar gargalhadas no carro, antes de apanhar as restantes jornalistas que se riram igualmente quando a troca dos nossos olhares denunciou o mesmo pensamento. Com receio de uma operação STOP que confirmasse a ainda presença de álcool no meu sangue, conduzi cuidadosamente até à FCT pela última vez.
Definitivamente o rendimento era quase nulo. A minha sorte foi ter escrito cinco artigos na noite anterior, com a energia que tinha guardado para a gala. Na manhã de ontem não fiz nada senão ler blogs, falar no MSN e beber água.
Depois de um almoço-buffet que não pôs de lado a qualidade da cantina da faculdade, com a qual a Avenida de Berna deveria aprender, o jornal saiu depois das cinco da tarde, o que só provou o nosso estado. Mesmo assim, a qualidade manteve-se, se esquecermos pormenores como a data da edição anterior que nem sequer foi alterada. O Suplemento “Making Of” captou a maioria das atenções e então percebemos que o trabalho tinha terminado. Na hora do reconhecimento, na sessão de encerramento, cada jornalista foi chamado ao palco para receber um diploma de organização que começou a alimentar o bichinho da nostalgia.
O útlimo coffee-break, mais digno de coffee-end, foi utilizado para as despedidas. Membros da organização despediam-se com abraços, fazendo votos para a realização de um World MUN em Portugal (eu vou!!!). Com os diplomatas parecia haver ainda alguma distanciação, provada com meros votos de Bom Natal.
No carro, a viagem para casa fez-se novamente em piloto automático (posso agora revelar aos meus colegas que foi um risco terem sido conduzidos por mim em tal patamar na escala de cansaço) e, ao chegar a casa, sozinha, senti-me vazia. Deixei de ser jornalista, despi a roupa (já não muito) formal, tirei o crachat que dizia "Press" e, ao contar às pessoas extra-MUN a experiência, percebi que “só quem lá está poderá perceber”. Foi um autêntico reality-show, com direito a regras, hierarquias, algum aprisionamento, muito trabalho, muita diversão e até algumas paixões.
Obrigada pelo fim tão solario que proporcionaram ao meu semestre. Senti-me realmente motivada. Sinto-me realmente feliz.

Todos nós sentimos falta de um. Nem que seja por um momento na vida. Esses momentos que os spots e as folhas de imprensa a anunciar telecomunicações mencionam. O fracasso amoroso, a consciência da efemeridade da vida, as indecisões, as grandes decisões, as grandes desilusões. As experiências, os estados de espírito, a alegria, a apatia, a angústia.
A reflexão. Precisamos de refúgios para reflectir. Precisamos de um espaço de isolamento, no seio desta massa de espaços onde ninguém se une. Apesar de tudo ainda resiste a consciência de que temos uma interioridade e uma exterioridade. A interioridade que revela com uma transparência cruel as nossas fraquezas, os nossos pecados, os nossos erros conscientes. Mas só expressamos os orgulhos feridos, as cobranças, os podres de uma essência cada vez mais egoísta.
É permanentemente urgente esse espaço de refúgio onde escondamos todo o nosso cinzento. Mas nem nesse grito interior somos iguais, para sempre criadores e vítimas da discrepância de direitos. Feliz de mim que tenho uma cama onde me deito, acolhida, protegida e quente, onde sussuro ou soluço à minha almofada todas as nuvens carregadas do meu dia. Os que não têm essa almofada - como aqueles que regelam neste preciso instante debaixo da chuva, cujo som hipocritamente me delicia, quente sob o edredão - não dormem quentes, antes adormecem a sonhar com esse momento.
Eu saboreio cada vez mais este prazer pela reflexão, por este egocentrismo que não precisam de me denunciar, porque o descrevo gritantemente para dentro de mim sem pedir a ninguém que o oiça.
Eu agradeço hoje ao Céu por saber que posso correr para este espaço, que é meu, quando eu quiser, durante o tempo que eu quiser, e pedir-lhe que oiça a minha alma.
Hoje, quando me angustio, é aqui que renovo a vontade de sorrir e é aqui que ganho a plenitude que em tão pouco me caracteriza. Quando posso, refugio-me em mim neste refúgio. Ando, caminho, pedalo ou simplesmente páro a sentir o aroma da lenha queimada que sai das chaminés, qual aconchego de um lar que se esvai no ar pesado de Inverno. Nesses momentos, em que o espírito das famílias se mistura com o respirar dos pinheiros e o silêncio da fauna, relembramos a unidade da Natureza, tão mal tratada, mas que ainda assim acolhe os frutos de todas essas casas.
Todos esses fios de fumo têm origem em lares diferentes, em rotinas e pessoas diferentes, mas todos eles sabem que se aliviam justamente na viabilidade da sua união. "Diversidade não é dispersão". Não nos refugiamos por termos um problema grave, mas por termos uma maneira específica de lidar com um problema que é partilhado por tantas outras pessoas, outros indivíduos, transeuntes, vultos que se nos atravessem ou não.
Conheço o alcatrão que piso e acho-o feio. Frio. Sei porém que ele marca o tempo em que existo, este tempo tão estrutural que ninguém domina. É sobre ele que caminho e dele que admiro e devoro a pouco e pouco o luar que se completa ou o sol que se põe, tão longe de onde me posiciono, no meu refúgio, a reparar a sua distância através das ramagens dos pinheiros.
É noite e o céu emite luz. Do meu refúgio vejo as estrelas que a Lisboa que amo não me mostra.
É assim que funciona. Da Lisboa que me constrói, que me apresenta aos outros, que me faz feliz e infeliz, refugio-me para fora dela, para onde possa falar dela para mim, sobre mim e sobre o meu mundo, porque o meu refúgio é só meu. Para ele sou eu quem interessa e ele não interessa a mais ninguém.
Levo para Lisboa o que dele trouxer. Claro.
Ouvem-se gritos entre os membros da família que dirige o bar, a discutir sobre as mesas que falta servir. Rapazes com boné na cabeça atravessam a esplanada a correr, sem nada fazerem para repor no lugar as cadeiras que desarrumam. “É isto que me atrai”, diz esta estudante de Ciências da Comunicação. “Estes pequenos grandes quadros que espelham a sociedade. A pobreza, a ausência de oportunidades educativas que estas pessoas tão bem transparecem. Mas também gosto de me pôr a analisar o Mundo na generalidade, obviamente de forma modesta”.
Débora é uma jovem de vinte anos que tem como objectivo lutar para alcançar um lugar no jornalismo. Acredita que o curso seja um bom passaporte para esta profissão. Daquela espalanada, o horizonte que visualiza fá-la relembrar esse esforço, que persiste desde a infância. “Na altura em que ainda não tinha sequer entrado para a escola primária, dava por mim a riscar com imensa raiva um quadro a giz que os meus pais me tinham dado para desenhar”, conta, remexendo uma caneta entre os dedos. “Queria fervorosamente saber escrever, porque me fascinava a imagem que tinha daquelas linhas com palavras de letras arredondadas”. O gosto pelo prática jornalística não tardou quando, num dia dessa infância, numa viagem de carro por Lisboa em hora de ponta, Débora ouviu o seu pai falar sobre a azáfama que lhe está associada.
O tempo e a experiência rapidamente fizeram com que esta estudante se apercebesse dessa dinâmica de trabalho que a sua aspiração exige. A confrontação permanente com o pai, que hoje a aconselha a procurar oportunidades além-fronteiras, é o seu grande quebra-cabeças: “Com a crise que tem desgastado o nosso país sou obrigada a pensar que mais facilmente tenho sucesso lá fora, mas não me imagino longe das raízes que aqui criei a todos os níveis”, lamenta.
A família que tem e aquela que gostaria de construir um dia, assente numa rotina saudável choca com a sua vontade de contar histórias de vida de pessoas que vivam noutras culturas. Pesa também o facto de ter estudado em colégios católicos durante doze anos, o que incutiu nela um espírito de entrega e de sensibilidade que admite ser um entrave ao espírito aventureiro. “Costumo autodesignar-me de diletante, porque a minha vontade de executar coisas concretas fica apenas pelo papel, na maioria das vezes. Parece que não levo a sério os meus próprios desejos, ou então estou precisamente à espera que o tempo me ensine a «sair da minha concha», como costuma dizer o meu pai”.
É esta luta contra a sua própria resistência que move Débora hoje a tentar efectivar alguns anseios. A blogosfera e a aprendizagem de novas línguas fazem-na sentir-se mais perto do sonho de um dia ver a sua crónica publicada, por exemplo, na revista Única do jornal Expresso. Adorou as duas viagens que fez aos Estados Unidos, uma à Florida, outra a Nova Iorque, pela impressão de imponência que o poder americano provocava no espírito de uma criança em crescimento. Adoraria repeti-las hoje, para então ver tudo com um sentido crítico mais apurado.
Não há nada mais aliciante na vida desta jovem do que olhar para um quadro do seu quotidiano e imaginar como poderia escrever sobre ele. Diz mesmo que é sua frustração não conseguir manter uma conversa com alguém ou meramente passear na rua sem tomar atenção ao modo específico como as coisas e as pessoas se movem. “Adoro ir no metro e descrever mentalmente o passageiro que segue à minha frente, ou apreciar o silêncio de uma carruagem apinhada de gente”, relata, com um brilho entusiástico nos olhos castanhos. “Mas também gostava muito de conseguir quebrar esse silêncio e encher aquelas pessoas de perguntas, de ouvi-las falar das suas vidas, especialmente aqueles que parecem mais sozinhos, como os pedintes. Sei que nunca terei muita coragem para isso. Então habituei-me à ideia de escrever sobre aquilo que observo em silêncio”. Fica a esperança de, um dia, chegando sozinha à América, ter coragem para investigar tudo o que observou na idade da inocência.
Débora vive os seus anos académicos a sonhar com alguma estabilidade na vida incerta que se lhe avizinha. Acorre muitas vezes àquela esplanada para saborear um bom peixe grelhado com a família. Horas depois escreve sobre aquilo que vê: a nacionalidade dos empregados, o grupo de jovens que por ela passa a dizer palavrões em voz alta, o surfista que não olha senão para o mar, as gaivotas que afluem à beira-mar quando os pescadores recolhem as redes cheias de peixe. Sente inveja dessas gaivotas quando olha o horizonte e alimenta aquela vontade de atravessar o Atlântico, para um destino onde possa amadurecer as suas observações. “Queria ser como elas”, suspira a jovem. “Voam por este mar fora à procura de peixe, mas fazem do seu ganha-pão um conhecimento aventureiro do mundo, sem por isso precisarem de se afastar dos seus companheiros...”
Para contrariar esta quimera, é na racionalidade que procura soluções viáveis. Embora ninguém da sua família trabalhe na área da comunicação, Débora considera que a partilha de experiências profissionais não pode deixar de ser uma mais-valia. A irmã arquitecta, o pai engenheiro civil e sobretudo a mãe médica inspiram todos os dias a sua escrita com novas histórias para contar. É com o desejo de escrevê-las fervorosamente antes do fecho da edição do jornal que cresce a cada dia nesta estudante a vontade de dinamizar as suas ideias, para além do simples olhar e do canudo no final do curso – que tantos consideram suficiente para o sucesso profissional.
Assim como observa o mar que se estende diante dela, Débora fica atenta às oportunidades, na esperança de que uma gaivota a acompanhe até um destino onde possa viver do que escreve e então construir uma família feliz.



