21 junho, 2007

Fins


2007




Um mês depois surge a mínima capacidade de comentar este grande marco. O silêncio nunca quis dizer indiferença. Apenas exige paz de espírito, um bem precioso nesta fase.


O sonho de ser jornalista foi semeado naquela viagem de carro com o meu Pai no trânsito de Lisboa. O prazer pela escrita, esse nasceu comigo, manifestava-se com raiva quando tinha quadros com giz e só podia desenhar, porque ainda não sabia escrever.


O esforço foi grande nos anos que se seguiram, Português A, e História, e Filosofia, e o que é afinal a Faculdade. Até que naquele dia de fim de Verão em 2004 soube que tinha "entrado da Nova", a tal que assustava com médias tão altas.


O encanto foi-se transformando em hábito e novamente em esforço. Linhas de maturidade acompanhavam as fases de exames, as aulas para cumprir horário, a arrogância dos senhores doutores. De encanto passou a realidade fria e triste, a boatos sobre quem já conseguiu dar um passo em frente, e como, com que cunha, com que factor "C".


Estávamos todos loucos quando escolhemos ser jornalistas, foi a linha de cada superior que por nós passou nos corredores brancos da Faculdade. A esperança em encontrar aulas práticas e mais interessantes foi crescendo e com ela a motivação para enfrentar as dificuldades daquela (ou desta?) rotina suja...


Não foram os melhores anos da minha vida, tenho de dizê-lo. Não senti o espírito, nem as paredes, e sobretudo não senti o conteúdo. "Só" os "amigos de curso". É no entanto compreensível. De uma Casa de ensino caí num mundo de hierarquias, de escassez pedagógica e caminhos fáceis.


Até que surgiu a possibilidade, o desafio, o medo (pavor!), a vontade talvez, a fuga com certeza: esse tal de Erasmus, que sempre subestimei, cruzou-se comigo e quando dei por mim tinha um bilhete de avião para Leipzig.


Inevitavelmente a Alemanha pintou de outras cores a imagem académica que eu tinha. Não há lugar para críticas ou para a arrogância típica dos ex-Erasmus no cliché "lá é que era bom". Mas parece-me quase ridículo dizer que tirei o curso em Portugal e vim à Alemanha conhecer outro sistema de ensino, porque não restam dúvidas que aprendi muito mais nestes nove meses do que em três anos na Avenida de Berna.


A competitividade entre jornalistas é universal. E acrescidas as particularidades deste povo, não posso negar que não se fazem amigos alemães em aulas de jornalismo aqui.


Mas aqui dão-nos voz (se sou alta, loira e de olhos azuis ou uma morena que vem dum tal programa Erasmus, não interessa), pedem-nos ideias, aqui os professores aprendem com as aulas que somos nós a dar. Aqui não se segue o caminho mais fácil, cada tarefa é tomada a sério. Não há lugar para vergonhas ao dizer que passámos o dia na biblioteca. Os Erasmus cruzam-se também naqueles corredores, apinhados de livros, depois da noite anterior em que todos saltavam e gritavam com as cervejas de meio litro. (Nestes momentos sente-se a intensidade de uma experiência como esta.)


Não há lugar para vozes tremidas na hora das apresentações. Mas houve lugar sim para a minha voz tremida, na primeira apresentação, sozinha. Os alemães não se oferecem para trabalhar connosco. Fazem com quem calhar, desde que seja o tema que lhes interessa. São independentes, não têm vergonhas. E então ali estava eu, numa sala de computadores, em frente a 20 alemães - daqueles que tomam atenção à aula toda -, com o meu Powerpoint corrigido por uma das poucas (mas grandes) amigas alemães, a dissertar nesta língua matemática as teorias do Jornalismo Online.


O tempo passou e as apresentações, obrigatórias, ganharam outro à-vontade. Muitos dos alemães com quem me cruzo nos seminários não precisam de nota, estão ali para aprender. E no entanto cumprem as avaliações com a mesma dedicação de quem precisa de um papel no final. É natural que canse, que não dê espaço para relaxar, que haja dias (há, de facto) em que este povo irrita pela sua seriedade. Mas aprende-se - e ganha-se já uma comichão levezinha de intolerância ao pensar no que estará para vir. Se ainda tiver de frequentar aulas no futuro, será difícil contrariar a tendência de aparecer 20 minutos antes de a aula começar.


Tantas diferenças podiam ser mencionadas. Tantas coisas diferentes aprendi. Projectos de Pedagogia dos Media a acompanhar crianças nas horas que passam nos Chats perigosos da Internet, simulações de conferências de imprensa, análise de filmes animados da Disney contra a propaganda nazi - frente a estudantes descendentes dessa geração.


Uma aprendizagem diária e intensiva.


Estava na Alemanha quando teve lugar a Benção dos Finalistas de 2007, o ano da minha Licenciatura. Nunca reconheci a tradição, mas longe pesam-se ainda mais as simbologias. E assim pude estar lá presente de alguma forma, na minha pasta com fitas em cor verde, azul, preta, branca e encarnada, escritas em português, inglês e alemão, elevada pelos meus queridos Pais - aqueles que sempre me incentivaram a fazer o que eu realmente queria.


Como sempre digo, o importante é ter a consciência das coisas. O caminho que escolhi pode não ter sido o mais sensato nos dias de hoje, mas há que procurar alternativas ao arrependimento. Sem tal desilusão talvez nunca tivesse partido naquele avião. E assim, inevitavelmente nunca teria a ambição que tenho hoje de atravessar mais fronteiras, aprender mais, agora que percebi que sou minimamente capaz.


Partir, lutar, aprender, idealizar o Portugal que nos consome na dicotomia entre desilusão e amor profundo.


Hoje é fase de fins, de balanços, de imaginações e muitos, muitos, inúmeros medos. Mas hoje também é dia de poucas exigências. Não me devo permitir pensar que os meus dias são rotina, porque são conquistas desde o dia em que aqui cheguei.


Hoje é dia de Obrigada. A todos os que acreditaram que eu conseguiria.


01 junho, 2007

LUZ de Lisboa



Coisas para fazer são inúmeras. Mas escrever justifica sempre...

"Levo a espada e a armadura de ferro (...), levo-te a ti".

Levei-me a mim mesma para as minhas raízes. Não foi hora de questionar. À medida que o tempo passava a certeza era cada vez maior. Tinha sido a decisão certa. Queria tanto estar em casa e não podia, até àquele dia.

Chega de espernear, gritar, dar gargalhadas e ligar banalmente para casa. Uma experiência destas não seria a mesma sem um momento-de-fundo-de-poço, mesmo que nem sempre haja uma causa especial. E aí sim. Sentimos o quarto vaziozinho, a cama fria, a almofada e o edredão insuficientes para aquecer cá dentro. Por outro lado, a amizade demonstrada em alemão e inglês comprovou o seu valor.

Nada substitui as rotinas desta cidade pacata. A certeza é já mais que garantida das saudades que dela vou sentir. Há porém momentos em que é preciso parar e lembrar melhor de onde viemos e de quem lá está a aceitar o nosso egoísmo. Há um dia em que olhamos de forma diferente para "Casa".

Muita coisa ficou para trás nestes tempos. Houve conformismos e medos, mudanças, descobertas e desafios. Histórias para contar em noites de convívio. Talvez rir, mesmo do que na altura fez chorar. Pois a Vida é assim. Cada momento para cada sensação. Gefühle, Gefühle... wahrscheinlich das beste "Erasmuswort".

Vim a Casa, à minha querida Lisboa. A vista do avião teve um sabor diferente de Fevereiro. Mais atenuado, mais assustado. Estou quase a voltar de vez. E agora que fui de visita, até já regressei, como o tempo voa!, volta esta sensação de incerteza quanto ao espaço a que pertenço. Até lá vou-me refugiando neste parêntesis que a cada dia melhor descubro ter sido uma necessidade para esta alma de tantas incertezas. E um dia aterrarei no chamado mundo dos abutres e tudo isto serão só memórias.

Mas estarei em Casa, entre muitas coisas ao lado das minhas fitas de finalista, a lembrar que tudo foi sugado quanto baste.

Ter essa consciência só foi possível com o conforto da cama de sempre, numa casa cheia do meu sangue e de rotinas que há tantos anos fazem parte de mim. O incentivo a mudar é porém insistente, vindo das vozes de quem sempre me quis dentro da rotina. Tem razão de ser, que há que ir em frente e, mais do que em frente, ir além.

Só por aquele sol, mesmo que anormalmente escondido, só pelo som das ondas do mar, só pela mesa posta para a Família, só por arranjar o peixe e conversar como só nós conversamos, só pelas surpresas e pelas demonstrações de carinho, só pelas Pessoas à minha volta, só por vídeos e visitas, "só" por "tudo" valeu mais do que a pena ter decidido vir. Ou ir, que agora já aqui estou, depois de mais um pequeno grande salto. Toca a aproveitar a bicicleta e a varanda, as conversas noutras línguas, que num ápice tudo se esvai.

Nova etapa?

Obrigada, Mãe.

06 maio, 2007

"À minha querida Mamã"


Ó terras de Portugal
Ó terras onde eu nasci
Por muito que goste delas
Inda gosto mais de ti.


Fernando Pessoa

02 maio, 2007

Incerto



A mala preta, grande, que agora só guarda um cadeado, enche o cantinho do meu quarto de paredes cor-de-laranja. Vai esperando por uma data, sem pressas, praticamente presa ao chão a ganhar pó. Já quase não reparo nela, como se fizesse parte da mobília. Atiro para cima dela os casacos que o meu armário sem cabides não deixa pendurar.

Agora começa a fazer sentido pensar mais na grande mala preta. Com ela parti para onde hoje estou. Entre tantas coisas palpáveis e que julguei importantes (quão difícil se revela seleccionar o que precisamos de ter por perto...) vieram, dentro daquela mala, sobretudo incertezas. Muitas, pequeninas, embrulhadas em inseguranças que não consegui desfazer sem a ajuda do tempo. Boa parte delas desfez-se, sim; outra parte ainda permanece dentro da mala, porque colada ao corpo, às células. É incrível - mudar tanto e deixar a essência intacta.

Incertezas quando às pessoas, quer as que deixava, quer as que ia encontrar, que não conhecia e que hoje são pilares para mim nesta casa longínqua. Incertezas quanto ao espaço que me iria acolher, e tão inesperadas incertezas quanto à falta que a graciosa, ausente e insubstituível luz de Lisboa ia fazer. Incertezas quanto aos sorrisos que imaginaria em mim, e com que frequência, e com que intensidade. Incertezas quanto a mim mesma.

Vim, voei, corri, encontrei, estremeci, superei, traduzi (tanto, tanto, tanto!), gastei, festejei, aprendi, conheci. Principalmente, comuniquei. Comigo, com os outros e com o mundo. E então, natürlich, sorri. Por reconhecer que tinha conseguido - para decidir continuar.

Ao contrário do que esperava, porém, não foi um mero continuar. Foi um começar de novo. Novos desafios, novas estranhezas, novas dúvidas, novas incertezas. Em cada manhã desta nova fase apercebi-me que prolongar uma experiência como esta não significa apenas um esticar do que houve de bom, mas ainda uma nova oportunidade para levantar os braços a novos desafios. A cada fim de tarde regressa a sensação de que consegui dar outro passo.

Mas cada fim de tarde, agora, já dá sabor de Saudade. O Sol de Primavera neste norte chega pelas cinco da manhã e só pelas nove da noite se despede até ao dia seguinte. Dá ainda mais vontade de saborear cada pedaço de luz lá fora. E saborear esse percurso do tempo lembra que o percurso do meu tempo já está numa contagem subtilmente decrescente.

Pior. Agora que estar aqui é ainda melhor, por poder estar "lá fora" e viciar-me ainda mais na observação deste povo complexo quando o sol raia, os sorrisos se rasgam e as vozes se ouvem mais altas; agora que pessoas à minha volta consolidam os laços e passam da amizade necessária para a Amizade comprovada; agora que o vento bate na cara com sabor fresco e não gelado e dá vontade de passar no parque com a bicicleta antes de vir para casa; agora que se descobre que a Universidade pode trazer, simplesmente, motivação...

Agora, como dizia, é um pouco pior. Porque agora, como no início, há que pensar no depois, no danach, no que me espera. Agora sou obrigada a lembrar-me que este tempo se perde perante as preocupações que estão em modo stand by sobre mim. Sem jamais traduzi-lo por "tempo perdido", pois que este foi já sem dúvida o tempo mais ganho de sempre.

E assim re-arranca a insegurança. Há que ter muita força na recta final, ainda tão longa mas tão cruelmente veloz. Há que rematar no estudo obrigado, mas interessado, e preparar para um julgamento a substituir a mera avaliação. Mas entretanto há que escrever, brindar, correr de olhos fechados, acordar sem horas e sem perder tempo, há que sugar cada momento.

Para então, mais lá à frente,
sorrir,
pegar na grande mala preta,
repleta de novas coisas importantes,
respirar fundo e
partir para o irónico ponto de partida:
um novo Mundo do Incerto.

01 maio, 2007

03 abril, 2007

Ao acordar.

Ao acordar foi ouvindo o barulho dos carros na rua. Julgava-se habituada àquela sinfonia, ainda que civilizada. Mas depois de algum tempo a viver longe da metrópole, acostumou-se ao barulho dos pássaros.

Então, ao acordar, recordou: "Somos animais de hábitos". Arrepiou-se. Sentiu-se como que sem lugar. Não estava na casa de sempre, nem na casa de antes, nem mesmo na casa de agora. Dava gargalhadas com uma amiga numa cama elevada, daquelas com que sempre sonhou, com a secretária por baixo. O sol batia na janela, ameaçando alguma força, mas naquele momento não queria saber de horas.

"És adulta", disseram-lhe, noutra língua. Mas ela não sabia bem como lidar com isso. Ainda ontem uma amiga lhe tinha dito que era original fazer compras de supermercado juntas, quando na verdade o hábito de "antes" não era de todo o de fazê-las sozinha, e sim com um carrinho de hipermercado que levava sempre com guloseimas em cima às escondidas da Mãe.

Ao acordar quis saber para onde devia ir, e apesar da excelente sensação de poder simplesmente ficar, dar uma volta ou aparecer, sentia-se presa a qualquer coisa. Estava com vontade de agradar, sem por isso deixar de fazer as pequenas loucuras que os últimos tempos lhe proporcionaram. E de repente, contra todas as expectativas, parecia que já não sabia gerir-"se".

Tem sido assim. Ultimamente, ao acordar, sente-se a mesma de... antes.

30 março, 2007

Cheiro a Setembro



Desde que regressou que tudo tem um toque diferente e simultaneamente familiar. Desta vez não partiu sozinha nem a falar inglês, mas já com uma amiga e conversando em alemão. Tão-pouco foi visita à chegada, porque antes de partir de férias para a sua própria Heimatland deixou as suas coisas na nova casa, aquela onde irá passar os 4 meses que fizeram parte daquela difícil decisão de prolongamento.

Também deixou de confirmar sempre se tinha o Semesterticket na carteira, porque agora é mais a bicicleta que a leva onde quer. Ainda hoje comprou um cestinho novo para trazer as compras, agora que o sol já não obriga a que tudo esteja protegido da chuva e da neve.

As compras deixaram de ter o toque da novidade; já não traz o dicionário na mala porque habituou-se aos palavrões que tanto procurava decifrar. Wasser sempre ohne Kohlensäure, que água com gás não é água; ou as Mandarinen que não são tão doces como as Clementinen e cabem sempre na mala para matar a fome-de-bolas-de-berlim. O saco dentro da mala já não esquece, e já enfia tudo lá para dentro com uma eficácia muito mais alemã do que no início. Também já não precisa de procurar o visor que mostra o preço, porque os dois-e-trinta-euros-e-cinco-e-quarenta-centimos-bitte em vez de trinta-e-dois-euros-e-quarenta-e-cinco-centimos-bitte já começaram a entranhar. Se há dúvidas desta vez já sabe perguntar, em vez de arriscar comprar um produto que ajuda a engomar em vez do tira-nódoas que procurava.

Mas sobretudo o caminhar - ou o pedalar - pelas ruas de Leipzig deixou de ser tão explorador para dar lugar às rotinas. Se escolhe o Strassenbahn já aproveita o silêncio do povo alemão para ler um livro - que a língua portuguesa dá muita Saudade. E agora já vai tocar à campainha de alguém se não tem nada de urgente para fazer, porque os Termine às tantas horas no Sprechzeit da Frau-qualquer-coisa já não são tão importantes ou regularmente necessários.

Das palavras essenciais passa agora a ter interesse pela Umgangssprache e põe a Franziska a rir-se quando, para o "é indiferente", lhe sai a expressão "es ist mir Wurst" (que traduzida à letra significa "é-me salsicha").

Rotinas tão alteradas, tão entranhadas e novamente tão saboreadas por aquilo que têm de diferente - em relação a tudo o que em duas décadas de vida foi habituada a experienciar. Repara-o agora. Porque agora volta o Sol a brilhar, exactamente como no dia seguinte à noite tremida em que chegou, da qual parece que só tem flashes de memória, nesse dia em que andou de canoa no rio sem se aperceber que aquele sol era uma raridade e que as pessoas usavam excepcionalmente óculos escuros ao passear com a família no parque. Agora os cheiros voltam a ser mais perceptíveis, porque o calor ameaça. Aqueles rasgos de gás que a todos intrigam, entram agora por aquelas narinas que há 6 meses achavam tudo tão... fremd, tão estrangeiro.

Caminha pela Peterstrasse, já não procura uma esfregona (esse instrumento doméstico tão essencial que os alemães substituem por qualquer outra coisa) e sim um presente de aniversário - para os amigos de Portugal, para os amigos Erasmus, para a Franziska que vive com ela, para os seus Tandems, enfim. E no fim passa no supermercado mais próximo, apanha um Apfelsaft e vai bebendo no caminho - que agora já vai conseguindo conduzir a bicicleta só com uma mão. Quando chegar a casa logo pensa no que lhe apetece jantar hoje e espera que os "Freunde" se "meldem" para ver o que se faz hoje à noite.

E em breve, a areia chegará também a casa, regressará o medo do fim do verão e com ele o medo de um Setembro que novamente se adivinha uma incógnita.

23 março, 2007

Assustadoramente mais que dois meros “mitras”


Nem era fim-de-semana, mas à quinta-feira à noite há movimento nas ruas, apesar da paranóia “Arbeit”. Entrei no eléctrico 7 – uma linha ainda desconhecida mas que me passará a ser familiar – e sentei-me.

Percebi então que o cenário era mesmo de fim-de-semana. O silêncio e as caras carrancudas foram substituídos por rádios portáteis e garrafas de cerveja na mão. Dois rapazes de boné sentavam-se pouco à minha frente e falavam alto. Gritaram “Brost!” para um outro grupo que mais à frente se sentava também com cervejas. Ninguém respondeu e na paragem seguinte o grupo saiu.

Poucos instantes depois, um dos rapazes levantou-se e dirigiu-se ao fim da carruagem, passando por mim, para ir falar com um casal que estava sentado. Estando de costas, só consegui ouvir, não ver. Percebi que o rapaz falava sozinho e os dois, numa atitude universal de não responder a acusações em transportes públicos, ficaram calados. Logo de seguida o outro rapaz de boné levanta-se para ir buscar o amigo de volta para o banco, irritado: “Komm mal hier, Mensch!”…

O instinto foi o de pensar “não precisas ter medo, tu sabes bem que os alemães não se metem com as pessoas assim, e mesmo este bêbedo rapidamente deixou o casal em paz”. Desviei o olhar para a janela a fingir descontracção e tentei perceber o texto do heavy metal que eles ouviam. Em vão, só consegui perceber a palavra “Deutschland”. Mas de repente fez-se luz e tudo ficou assustadoramente claro. Um dos rapazes não fez mais do que gritar “Rechtsvolk!” (povo de direita) e esticar o braço direito para cima. Só então olhei com atenção e reparei que por debaixo dos bonés as cabeças dos dois estavam rapadas.

Estremeci, empalideci, o estômago veio-me à boca. Estava sozinha na carruagem com dois neonazis.

Felizmente não faltou muito até entrarem mais pessoas. Desta vez mais atenta, tentei ver as reacções aos dois rapazes que continuavam a falar alto, a beber e a arrotar e pareceu-me estranhamente que todos sabiam do que se tratava. Ou estão habituados e não há razão para ter medo, ou a famosa frieza deste povo esconde o medo de manifestar emoções.

Ainda assim o ritmo cardíaco continuava acelerado demais para eu relaxar como a senhora ao meu lado, que descascava uma tangerina. A minha paragem nunca mais chegava e o silêncio da noite tornava tudo ainda mais pesado. Imaginei como seria se aqueles dois monstros me abordassem. Em Portugal costumo pensar que se fingir que não falo português, desistem. Mas ali, certamente não seria boa ideia escolher outra língua que não o alemão – e mesmo assim eles perceberiam de imediato que eu era estrangeira. Enfim, melhor seria não imaginar. Eles continuavam a destabilizar, rebentando bombas de mau cheiro dentro da carruagem, atirando pequena pirotecnia pela janela assustando os poucos que pela rua passavam… e lançando gargalhadas a seguir. Tal como nos filmes.

Gerichtsweg. Ainda faltava uma paragem para minha casa mas decidi sair e fazer o resto do caminho a pé. Esperei que as portas estivessem quase a fechar para sair de repente, não fosse apetecer-lhes virem atrás de mim. E saí também pela porta que ficava atrás, não a que ficava à frente, bem perto deles.

Erro meu. Tive de passar, por fora, por essa porta. E antes que tivesse medo da proximidade, dei um salto repentino com outra coisa qualquer que eles tinham voltado a atirar para a rua e que explodiu um metro ao meu lado. Quis insultá-los, mas o pânico calou-me e nem levantei os olhos do chão.

Finalmente o eléctrico seguiu e eu corri para casa. Pela primeira vez tive medo de andar por aqui.

20 março, 2007

Irgendwie, hoje


O dia em que, com grande coragem, pediu uma Bratwurst num quiosque da Henriettenplatz e, ao responder “ja” a uma pergunta que não entendeu direito, ouviu presumíveis menções a sua parca inteligência, seguidas de risadinhas e risadonas dos outros clientes do estabelecimento.

O dia em que, não conhecendo (e não a tendo achado no dicionariozinho) a palavra para designar “sacola”, limitou-se a apontá-la para a caixa do supermercado, a qual ficou imensamente transtornada e começou a discursar… - das ist kein dah-dah-dah-dah! Das ist kein buh-buh-buh-buh! Das iste eine Tüte! Das ist eine Tüüüüte, ja?

Sim, tudo isso é muito natural, não será isso que o desencorajará, um dia ele finalmente aprenderá a diferença entre welches, welche e welchem, um dia saberá pôr um verbo aqui e outro a duas milhas de distância, para isso vem estudando com afinco.

No Brasil, muitas vezes me queixo de que as pessoas falam alto demais,, se olham, se pegam, esfregam, abraçam e beijam demais. Já aqui, sinto uma espécie de privação sensorial. Penso em Montaigne que, se não me engano, escreveu que o casamento é como uma gaiola: o passarinho que está dentro quer sair, o que está fora quer entrar. Acho que isso pode estender-se a tudo na vida, porque hoje, particularmente, eu gostaria de ter voltado para casa com a sensação de que alguém na rua me viu, e fiquei com saudades de casa.

João Ubaldo Ribeiro, Um Brasileiro em Berlim


06 março, 2007

Pendulando


Não sabe exactamente se veio ou se simplesmente chegou. Está de passagem, é como uma turista que não pára de movimentar a cabeça à procura de todos os pormenores. Reflecte mais agora, sem dúvida.

Acorda no seu quarto novo, casa de sempre, os olhos semicerram-se com a demasiada luz que vem de fora. Mesmo com estores e cortinas. Um azul que ilumina a faz sorrir, para o qual poucos olham. É, sem dúvida que agora reflecte mais sobre essas coisas.

A pele está tão branquinha que nem lhe apetece usar óculos de sol. Os raios da Primavera que se anuncia batem devagarinho nas faces que ela tem esperança de ver ficar rosadinhas, como acontece com os loiros de dois metros lá do norte.

Sente-se longe desse “lá” mas em parte ainda lá está.

Eles, coitadinhos, têm pena de não saborear este “em casa” como nós. Estar em casa significa render, trabalhar, para nas férias apanhar o avião para um Portugal-destino-de-sonho. Dizem que sorrimos muito, não somos sérios e carrancudos como eles. Ela, no entanto, acha que muitos deles são mais interessantes do que muitos dos que vê por cá. Só depois de regressar reparou.

Num café, esperou 10 minutos até que uma senhora viesse em passos lentos perguntar-lhe “o que é que quer”. Nem sabe se ela chegou a dizer isso, porque antes disso desistiu e dirigiu-se a outro café. Esperou outros 10 minutos, tentando ser mais paciente, foi atendida mas claro que lhe perguntaram se arranjava os 2 cêntimos. Noutra proporção, é o lema deste país de “faça-me um jeitinho”. Não é como “lá”, não, em que a grupos de 50 pessoas fazem a conta separada para cada uma individualmente, com troco certo.

Lá, como chegou a comentar antes, o estudo leva-se a sério e as pausas para o café são curtas e rentáveis. Pois cá, mal se sentou num café, viu dois jovens sentados a conversar alegremente na companhia de livros de Literatura Contemporânea, ao lado de canetas às cores, do último Nokia, de um Marlboro e de óculos Vogue (a Vogue ainda está na moda?).

Exacto, ela já não se lembrava que era assim.

Também não se lembrava que não é possível ser peão em Lisboa. Encharcou-se nas poças do caminho, desviou-se dos carros estacionados em segunda e terceira fila, em cima do passeio, sem ordem nem hora de regresso.

As buzinas nem são o que mais a incomoda. O que realmente incomoda é o zumbido nos transportes públicos, diga-se, as vozes zangadas e críticas de todas as bocas em seu redor. Sentiu saudades dos alemães caladinhos nos transportes, cuja vida pessoal não precisa de conhecer através das conversas aos telemóveis. (Também recordou a importância extrema do telemóvel neste país cheio de dinheiro para os topos de gama de todas as gamas.) Talvez seja porque lá eles não têm do que se queixar. Um jovem que vive os seus primeiros 27 anos de vida a receber 150 € mensais do Estado simplesmente pelo facto de ser jovem, que paga 50 € semestrais de passe de transporte, que não se desdobra nas despesas de sobrevivência, um jovem que tem café, capuccino, chocolate quente e bolos totalmente de graça só para fazer o favor de se sentar a ler um livro numa livraria – um jovem assim não tem razões para se queixar.

Nem em todo o lado assim, é verdade, há pequenas crises em qualquer país, nós temos sol e eles não. Mas quando ela chega “a casa” e sente este arrastamento de quem só quer uns trocos ao fim do mês ou ambiciona ser despedido para receber um subsídio de desemprego ainda mais em conta; quando ela chega “a casa” e volta a ver a discrepância entre as mãos estendidas no Chiado e os óculos da moda mesmo ao lado; quando ela chega “a casa” em desespero para procurar a cunha que a deixe estagiar de graça num qualquer meio de comunicação podre…

…quando ela chega “a casa” tem vontade de voltar para aquela cidade fofinha e pequenina de onde veio, cinzenta mas com uma chuva menos chata, caladinha mas sem queixas, histérica apenas aos fins-de-semana mas com força de vontade de segunda a sexta…
…é assim mesmo que ela se sente, uma confusão na cabeça, uma perna em Lisboa e outra na Alemanha Oriental, fria, com frio, fachadas lisas, silêncio, ordem, reciclagem.

Está contente por saber que ainda volta, por saber que mais portas serão abertas lá do que cá, por saber que faz parte dos portugueses que querem trabalho e não emprego, que querem produzir e não cumprir horários. Está contente por ter percebido tudo isto em tão pouco tempo, o mesmo tempo em que tudo cá ficou na mesma, as mesmas OPAs, os mesmos sacos azuis, apitos dourados, os mesmos arguidos, as mesmas parasitas a preencher folhas de revistas 90% fotos 10% texto, as mesmas cunhas e os mesmos aumentos dos transportes públicos.

Está contente mas profundamente triste por não poder ficar cá. Cá, numa das cidades mais lindas que já viu, a cidade onde orgulhosamente vive desde que nasceu, a cidade da luz, da calçada portuguesa, das ruas estreitas, das colinas, dos eléctricos, dos estendais, a cidade do Tejo e do Fado.

Sei que vou torturar-me de saudades tuas. Mas desde já me desculpo, Lisboa, por saber que vou ter de viver muito tempo afastada de ti.


17 fevereiro, 2007

Weiß ich nicht...




Preto no branco?
Branco no azul?
Branco no cinzento?
Castanho no branco?
Ir? Voltar? Ver ir e esperar por partir?
Pinheiro meu, diz-me quem está mais confuso do que eu...



(Ou porque estamos todos - todos esses neste estatuto - a sentir uma coisa parecida. E, apesar de tudo, eu volto...)

07 fevereiro, 2007

19 Dias

Não estou a aguentar.

Agora sim, Saudade




27 janeiro, 2007

Um frio delicioso



Como se o frio não atacasse os músculos da cara, já a chorar do vento contra os olhos, a verdade é que sorrio, sozinha no meio da rua, caminhando para casa. Rondam os dez graus negativos mas não quero apanhar o Straβenbahn, quero pisar a almofada branquinha de neve sob os meus pés, esses onde fixo o olhar, de cabeça agachada para impedir que os floquinhos me acertem nos olhos. Mas qual criança que tenta ir contra as recomendações, não resisto a levantar o olhar para ver os casacos salpicados de pintas brancas, as pegadas anónimas marcadas no chão branco, as bicicletas a deslizar sob condutores corajosos – cujos olhos não se vêem –, o sentido protector das já familiares Neues Rathaus e MDR, como que controlando o que se passa lá em baixo.

De repente o espaço parece fechar-se e uma espécie de estúdio de som apodera-se das ruas. Nem o uivar do vento, forte, cortantemente forte, tem a força de antes. De ouvir o vento passo a vê-lo, no reboliço que provoca na neve do chão, feita remoinho a esvoaçar para o incerto. Os sons são abafados. Os carros são silenciosos e parece até que as pessoas ficam fisicamente mais próximas.

Vejo tudo com absorvência, sorrio, fotografo, tenho vontade de telefonar a alguém só para dizer que estou encantada ou que quero companhia para fazer um boneco de neve. Mas na realidade estou apenas a ver; a capacidade de descrever com exactidão parece ter de facto congelado. Não consigo abstrair-me porém da ideia de que não fugi à minha rotina, não procurei aquele cenário, ele é que se cruzou comigo num mero dia de aulas.

A cidade tornou-se outra. Para os nórdicos, tristes com a chegada efectiva do Inverno, o manto branco é um incómodo. Para mim – de “pele castanha”, como eles dizem – o Inverno ganhou outro encanto. Teria sido já suficientemente saboroso passar mais uma tarde naquela wunderschöne Bibliothek, onde não há lugar para todos os estudantes que se encontram para estudar e fazer pausas para um café – e não os que se “encontram no café e aproveitam para estudar um pouco”. Já é – desde há muito – suficientemente saboroso estar ali sentada e não ver ninguém à minha volta que fale a minha língua, nem tão-pouco os senhores que me deram os textos que vou para ali ler. Já é suficientemente gratificante, enquanto estudante, falar com orgulho deste livro, daquela pesquisa, daquele trabalho, sem sequer pensar na hipótese de nos sentarmos numa mesa onde um aviso indica que “aqui não é permitido estudar”.

Teria sido tudo tão suficientemente alucinante só por perceber que estou num espaço deliciosamente não-familiar. E ainda pude desfrutar da sensação, quente, de desviar o olhar para a janela e ver a neve cair com força. Só aí esqueci os deveres de estudante, voltei a ser criança, arrumei tudo e corri lá para fora, sorrindo sozinha por aqui estar.

Esse tal de Erasmus é tão mais do que um estatuto.

23 janeiro, 2007

Congela tudo, menos o tempo


Cachecol até aos olhos, mãos nos bolsos, saída do aeroporto, sozinha na carruagem de regresso, céu limpo e verde-relva lá fora, bem estendido. Mais uma despedida.
De regresso à rotina, à cantina, aos cadernos já cansados, amarrotados, cheios de conteúdos para decorar e traduzir.
Não sobra tempo para tudo, ou talvez não sobre tempo para nada do que Janeiro, im Allgemeinen, exige. O cheiro a despedida sente-se, cumprimentam-se as temperaturas negativas, anseia-se pela visita da neve.
Faz-se uma contagem decrescente, não para "o" dia, mas para vivências diárias. Aqui não escasseiam as oportunidades para saborear algo novo. Próprias de quem já sente saudades de muitas coisinhas. E entretanto planeiam-se novos passos, nova casa, novo semestre, novas férias, novas cidades.
Estimo a minha rotina. Afinal não interessa nada o vento cortante; cá dentro está sempre quentinho.
Lisboa, querida, está quase-quase.
Mas não tenho pressa nenhuma.

10 janeiro, 2007

Do pedido de prolongamento.




"Cara Débora,

(...)
Neste momento o seu processo está concluído".


Tanne bleibt ein ganzes Jahr.
A Tana fica um ano.

02 janeiro, 2007

Tentando balançar.

Estava tão quente que teve vontade de oferecer às pessoas que via passar do lado de lá do vidro, os queixos enfiados nas golas, o olhar preso ao chão, molhado pela chuva fria. Saboreava-o entre as mãos, deliciada, sem se lembrar de quando passou a preferir aquele café-chá em relação ao café-creme-e-curto.

Depressa percebeu que não é preciso encontrar razões para tudo. Sabia-se ali, uma pessoa apenas no meio de milhares delas, num café no centro de uma metrópole da Europa Central. Há muito tempo que não ouvia a sua língua em redor. Entretinha-se a tentar decifrar a nacionalidade dos que com ela se cruzavam.

Pousou a chávena e voltou a pegar na caneta. Tem nela gravado o mesmo nome da Universidade que escreveu no dia das candidaturas. Nessa altura nunca se teria imaginado ali, no último dia desse mesmo ano, naquele ponto tão longínquo de tudo o que receou deixar.

Virou a página do caderno – por orgulho de ter ultrapassado essa fase ou por medo de relembrar essa época, não sabe ao certo. Mas também tinha aprendido a desligar-se das reflexões em rede, essas que vão dar aleatoriamente a apenas uma de várias conclusões possíveis. Precisava de férias do passado. Agora só lhe apetecia apanhar aviões para o futuro, esse futuro que já vivia ali sem saber, depois de, caneta pendulando entre os dedos, o ter imaginado nos cafés tradicionais daquele país que tanto criticava - e cuja luz hoje lhe trazia lágrimas de saudade frequentes. Então aproximou a caneta da folha, lembrou-se da mágica festa que teria lugar nessa noite em Times Square e, imaginando, escreveu: “Nova Iorque”.

Lá fora os gorros e cachecóis, sob as iluminações de Natal nos postes e nas árvores nuas da cidade, transportavam-na mentalmente para a Big Apple, ou groβer Apfel – não sabia agora qual o nome indicado. Sentia-se uma gotícula no meio de uma série de ruas perpendiculares – e sorriu. Talvez a cidade que nunca dorme tivesse adoptado uma filha chamada Berlin.

Já não tinha a mesma perícia para preparar o futuro e criar expectativas. Aos poucos via-se a pensar apenas em cada dia, sem por isso esquecer tudo o que ficou para trás que a trouxe até ali. Àquele café.

Sabia que não tinham sido tempos fáceis. Ao listar mentalmente tudo o que a tinha preocupado nesse ano, sacudiu a cabeça e voltou a concentrar-se no sabor do café. Ainda não conseguia recordar tudo aquilo, esquecer, acreditar sequer. Tinha simplesmente continuado, com a certeza de que tudo tinha dependido dela. Estava cada vez mais convicta de que só se apercebeu de qualquer coisa – mas nunca tudo – quando aterrou naquela noite, naquele aeroporto loiro, alcatifado, mudo e totalmente baço.

Fechou o caderno. Desta vez não queria relembrar nem planear. Engoliu o último resto de café, levantou-se, vestiu o casaco, enrolou o cachecol ao pescoço, calçou as luvas e saiu para a rua. Depois de tentar identificar as ruas para saber que percurso tomaria para a chegada do novo ano, enfiou o chapéu na cabeça, aconchegou o queixo no cachecol e, olhos postos no chão, seguiu em frente.


29 dezembro, 2006

Berlin, den 28. Dezember 2006


embora atrasada,


Tem de ficar marcado o dia em que nevou pela primeira vez.

16 dezembro, 2006

11 dezembro, 2006

07 dezembro, 2006

«Erasmus» é símbolo do que a Europa faz de melhor

O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, apontou hoje em Bruxelas o «Programa Erasmus» como «um símbolo do que a Europa faz de melhor», no arranque das celebrações do 20º aniversário deste programa educativo.

Numa conferência de imprensa em Bruxelas que assinalou o «pontapé de saída» das celebrações - que terão o seu momento alto durante a presidência portuguesa da União Europeia, no segundo semestre de 2007 -, José Manuel Durão Barroso afirmou que o «Erasmus não é um programa qualquer», mas sim «um sucesso europeu único».

Adoptado em Junho de 1987, o Erasmus contou nesse primeiro ano com a pa rticipação de 3.244 estudantes, número que em 2005 se elevou a 144.032 estudantes (3.845 dos quais portugueses), aproximadamente 1% da população estudantil europeia.

Desde 1987, o programa beneficiou com bolsas mais de 1,5 milhões de estudantes, esperando a Comissão Europeia que até 2012 o número atinja os 3 milhões de estudantes.

«Pode-se falar de uma »geração Erasmus«», comentou Barroso, que recordou a propósito o filme «L'Auberge Espagnol» (A Residência Espanhola, 2003), do realizador Cédric Klapisch, que retrata a experiência de um jovem estudante parisiense que vai estudar para Barcelona, e que tornou popular este programa de intercâmbio estudantil «nos quatro cantos do Mundo».

Na conferência de imprensa participou também o comissário europeu com a pasta da Educação, Jan Figel, que indicou que o 20º aniversário do Programa Erasmus - que se assinala em Junho de 2007 - será celebrado particularmente em Setembro e Outubro, durante a presidência portuguesa da UE, com uma série de eventos em Lisboa.

Tanto Barroso como Figel sublinharam a importância do papel do Programa Erasmus como motor de modernização dos sistemas europeus de ensino superior, na promoção da mobilidade dos estudantes e professores, e a nível do acesso ao mercado de trabalho.

Além de estudantes, o Programa Erasmus beneficia também professores universitários, tendo em 2005 participado no programa 20.877 docentes.

Entre os «top-20» das instituições de ensino na União Europeia que mais acolhem e de onde partem estudantes e docentes no âmbito do programa, surge a Universidade de Coimbra como a oitava que mais recebe professores de outros países, tendo em 2004/2005 acolhido 101 docentes estrangeiros.