21 junho, 2009

Um olhar holandês sobre a costa alentejana

"Deborah, por que te preocupas com a tua vida profissional?"


Reacção a esta fotografia:




Na Holanda é assim:

trabalho trabalho trabalho trabalho trabalho
carreira carreira carreira carreira carreira
dinheiro dinheiro dinheiro dinheiro

- Comprar uma casa na Holanda

continuar a trabalhar trabalhar trabalhar trabalhar
fazer carreira carreira carreira carreira carreira
mais dinheiro mais dinheiro mais dinheiro mais dinheiro

- Comprar uma casa em Portugal

O que é que estás a fazer aqui???


Arjen van Kampen, colega na CE

02 junho, 2009

Sempre entre o cá e o lá

As rotinas de outros mundos, como uma tarde de feriado no parque. Oiço árabe, francês, inglês. Também ponho a pele à mostra a cada raio de sol que surge.

Por minha conta. Perigosamente me habituei a passar tempo comigo mesma e a baralhar ideias sobre o que me rodeia.

O Berlaymont fez parte da minha rotina durante estes 5 meses que, de tão rápido que passam, parecem já ter acabado. Tanta gente, tantas línguas, tantas folhas de informação, tantos programas diferentes. É tão simples fazer amigos aqui. E tão genuíno.

Dizia eu no início que Bruxelas tem vidas que inspiram. O meu sangue outrora caseiro tem tanta, tanta sede de conhecer mais agora. E nunca o paradoxo foi tão grande. Quero voltar a conhecer cidades desde o início, começar vidas novas em sítios novos. Quero infiltrar-me na rotina de Dublin, quero passear na Escandinávia, explorar o Canadá, deixar-me convencer pela Austrália e quero cumprir o meu sonho em Nova Iorque.

Onde está o paradoxo?

Quero ir para Casa.

20 maio, 2009

19 maio, 2009

O negativo do centro

Berlaymont fire out
By Simon Taylor
18.05.2009 / 13:35 CET
Officials hope to re-open the building on Tuesday.


A fire that broke out today in the European Commission's headquarters building, causing the evacuation of thousands of staff, is now extinguished, the Brussels fire brigade declared this evening. The fire broke out shortly before 1pm and was put out shortly before 5pm.

Francis Boileau, spokesman for the Brussels fire brigade, said the fire started in the basement of the Berlaymont and spread up an internal shaft. It triggered an automatic alarm on the 13th floor of the building where European Commission President José Manuel Barroso has his office.

Boileau said that the fire had ignited roofing materials on the top of the building and caused the smoke which could be seen emerging from the Berlaymont.


Johannes Laitenberger, European Commission spokesman, said that Barroso had been evacuated down the emergency stairs.

The surrounding roads were closed to traffic, while 40 firefighters tackled the fire. The firefighters are still examining the building with thermal cameras to check that there are no remaining hotspots that might cause a fire to break out again.



Stephen Hutchins, director for security at the Berlaymont, said that the fire alarm had been triggered at 12.50pm. Security personnel checked to make sure that the alarm was genuine and an order to evacuate the building was given at 13.05pm.

Laitenberger said that the evacuation had gone smoothly. There were no injuries, he said. He added that the cause of the fire was still unknown.

Staff will not be allowed back into the building until at least Tuesday (19 May) afternoon.

There are usually around 2,000 people working in the Berlaymont but the number was estimated to be smaller today as this is a holiday week with the Commission closed on Thursday and Friday.

Laitenberger said that commissioners who were in Brussels this week would be able to continue working in other buildings. Hutchins said that the Commission had a business continuity plan which identified key staff to be accommodated in other officers in the case of emergencies.

Commission staff were not being allowed to re-enter the building until the fire brigade declared it safe. There is no electricity in the building because the chief fire officer ordered the current and gas supply to be cut off when tackling the blaze. The lifts do not work and there is no lighting in the stairs.

The section of Boulevard Charlemagne in front of the Berlaymont, which was closed when the building was evacuated, has now been re-opened.



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15 abril, 2009

O que foi tão bom quanto cansou em menos de três anos.

Tarostrasse, 5 meses

Frommannstrasse, 4 meses

Julio Dinis, uma vida, 4 meses

Weberstrasse, 6 meses

Römerstrasse, 5 meses

Konviktstrasse, 1 mês

Georges Henri, 1 mês

Oltermont, 1 semana

Vandenbroeck, contrato de 4 meses

03 abril, 2009

O vai-vem com escala em Bruxelas


Bruxelas tem vida.
Bruxelas tem vidas, e que vidas!
Ele foi o primeiro choque. Nasceu na Croácia, cresceu em Itália, tirou Economia no Canadá, mestrado em Maastricht, está a fazer este estágio na Comissão Europeia e… tem a minha idade.
Mas as histórias assemelham-se. Ela é romena, mas aos 7 anos mudou-se para a França e estudou direito em Inglaterra. Quem a ouve falar não percebe qual é a sua língua materna.
Já a holandesa com quem vou viver é apaixonada por países sub-desenvolvidos. Tem 25 anos e nunca trabalhou ("student jobs" todos eles têm, estou a falar de trabalho a sério), porque quer investigar, saber, estudar. Formou-se em Amesterdão, fez Erasmus em Inglaterra e já perdi a conta dos países em que fez pesquisa ou trabalhou como embaixatriz de estudantes holandeses: Espanha, México, Gana.
Companheira lusófona! Carioca genuína com samba e jornalismo no sangue. Formada nos Estados Unidos, trabalhou em Nova Iorque e Miami. Fez mestrado em Espanha e trabalhou como jornalista por uns anos na Colômbia.
Querem que continue?
A minha bailarina de Salsa é natural das Canárias. Quando a conheci, falando em inglês, nunca imaginei que fosse espanhola: era a primeira que encontrei sem sotaque. Determinada nos seus argumentos, foi para Inglaterra especializar-se em conflitos e depois esteve uns meses em França – a falar francês também não tem sotaque. Conheceu a carioca na Colômbia e são grandes amigas. A primeira coisa que fez quando chegou a Bruxelas foi inscrever-se num ginásio, onde vai três vezes por semana. Está revoltada porque a cantina da Comissão não faz desconto para vegetarianos.
A belga loirinha de olhos azuis que me acolheu em sua casa por uns dias (até o meu novo lar estar livre) não é especialista em ciência política nem direito ou estudos europeus. É uma bióloga amiga do ambiente, necessária na Comissão, que me ensinou a separar o lixo convenientemente. Comentou comigo ter pena de não ter feito Erasmus. Por melhor que seja Erasmus, será que uma jovem que fez pesquisa nas Maurícias, no Congo, nas Seychelles e em França pode dizer que tem pena de alguma coisa? Também ela corre pelo parque sempre que pode, come fruta e bebe chá ao pequeno-almoço. E é paciente a corrigir os meus erros de francês.
Aquele rapaz que soa a English native-speaker? Nunca teria adivinhado que fosse austríaco, com estudos feitos no Canadá e noivo de uma mexicana. E a minha companheira alemã estudou na Holanda primeiro, fez Erasmus na Suécia, e fez um mestrado - metade na Polónia e outra metade nos Estados Unidos. Não me perguntem quantas línguas fala.
Mesmo que ouse perguntar-me o que estou a fazer aqui, a verdade é que estou, por mérito próprio. Não me vou esquecer do momento em que, na minha pátria, partilhei feliz a minha conquista e ouvi um "mas quem é que tu conheces na Comissão?" como resposta.
São apenas algumas das 600 histórias dos stagiaires arrived in Brussels. E todos nós estamos ainda incrédulos por possuir um "badge" que nos permite entrar nos edifícios das Instituições Europeias e filtrar a polícia mesmo em dias de Cimeira.
Bruxelas tem vidas que inspiram!

27 fevereiro, 2009

Change, move, go






De volta à mudança, ao movimento, ao modo de estar "em andamento". Frenético e desgastante, foi esse o ritmo que a levou de novo para um novo além-fronteiras. Nova cidade, novo país, nova língua, novo mundo. Ironicamente, o "cá longe" pareceu agora mais perto, mas nem por isso mais fácil...

Well, let's go!

26 fevereiro, 2009

Karneval in Köln, 2009



AS DUAS, UM ANO DEPOIS... DE FOLGA


O QUE FAZEM AS DROGAS


O "ZUG" (COMBOIO DO DESFILE) QUE DISTRIBUÍA DOCES... E EU, A APANHÁ-LOS TODOS


UM MENINO VAI À ESCOLA... ÀS 3 DA MANHÃ


UM CROCODILO...


UM SAPO-PRÍNCIPE


COLEGAS DE MEDICINA DA REPÚBLICA CHECA


UM BRANCO DE NEVE


O CHEFE... MASCARADO DE CRISE FINANCEIRA - É FAVOR REPARAR NA CASINHA NO TOPO DO CHAPÉU, O SECTOR IMOBILIÁRIO

EU QUERIA TER SERVIDO AS CANECAS DE UM LITRO, MAS ESTAMOS EM COLÓNIA, NÃO NA BAVIERA...



UM BRINDE AO CARNAVAL DE COLÓNIA!

03 fevereiro, 2009

Menschen

Nem sempre é fácil lidar com elas.

29 janeiro, 2009

Home

Essa tal mobilidade dos jovens.
No seu sentido literal, pensando em malas que vão aumentando e sendo transportadas a cada "xis" meses, pode cansar. Cansa, de facto.
Mas compensa, mesmo que por um único mês nos sintamos bem em CASA.




(Logo esta, que até fica na "Rua convicta, n.º 7")

18 janeiro, 2009

Aquele medo


O espaço entre as palavras, de tanto se alastrar, condensou-se. De repente fazem-se balanços entre palavras escritas e ditas. Olham-se os meses de relance para os dividir em partes. Partes de aventura, de nostalgia, de hesitação, de sol, de frio, de regresso, de tensão, de medo. Cada uma delas floreia as letras com que se escrevem as palavras. As palavras descritivas dos desafios que vão passando.



Começou por um começo floreado, um arranque merecido, um medo abafado pelo desejo de voltar a sentir a conquista do desconhecido numa terra, já de si, feliz. E a sensação de dever cumprido e de aprendizagem fez crescer a vontade de permanecer nesse desconhecido. A vontade arrasta a força. E só essa força conseguiu aguentar as duas estações do ano com luz em ritmo decorado, repetitivo, cansativo até dizer fim. Quando a força esgotou, disse-se fim para recuperar a força de começar algo de novo.



Voltou a compensar a decisão, mas não o peso de toda a hesitação e cansaço para tomá-la, sozinha. E aprende-se a confiar no nosso interior, por meio desse isolamento, por vezes em forma de solidão. Dizem que é assim... para o bom ou para o mau, com tudo se aprende.



E se cresce.



Cresce-se para ambicionar, para tentar, conquistar por vezes, cresce-se para dar de caras com verdades difícieis de acreditar, para acinzentar as cores, para ficar perto e longe, aos saltos, aos poucos, para ganhar consciência de algumas coisas e ganhar pressão sobre outras. Entra-se no ciclo do mais e mais e mais longe, para se ver quem não olha a limites, quem não olha a meios, quem não olha a princípios.



E dentro do ciclo reduz-se e aumenta-se o espaço entre palavras, as palavras que descrevem ínícios, recomeços, novas decisões, novos desafios, novos medos.



Que, no ano que entrou, "se for para perder, que seja o medo."


30 novembro, 2008

Depois de ir para o ar


Os músculos relaxam,
a garrafa de água está quase vazia,
desejo continuação de bom dia ao técnico,
só depois reparo que ainda seria "boa noite".
São 07:07 da manhã, Domingo na redacção portuguesa da Deutsche Welle,
essa "voz da Alemanha" que eu levei ao ar com um sorriso de sono.
Chove miudinho,
ou diria chuva-molha-parvinhos lá fora,
um ploc-ploc que dissipa as dúvidas: por enquanto não neva.
Tiro da máquina o meu leite com chocolate de sempre,
atravesso a parte ao ar livre do edifício,
arrepio-me da cabeça aos pés,
molho os óculos com a humidade e tento caminhar depressa.
Corro para o quentinho da redacção e vejo www.wetter.de,
para então entender:
Três negativos.

Ou positivos, consoante a perspectiva.

29 novembro, 2008

Winter

O Inverno tem esse sabor de gelo na boca, que arde nas gengivas, esse vento cortante que faz os olhos chorar. Mulheres elegantes, altas e loiras, enfiam gorros na cabeça, pompons nas orelhas, cachecóis bem aconchegados ao regaço. Vê-se que conhecem bem o frio do Norte.
Nos mesmos dias em que chove essa alegria de poder desfrutar de um Inverno onde ele pertence, com os capuccinos em copos descartáveis que levamos para aquecer a curta espera do tram, nesses mesmos dias corta-me o vento com saudade: das várias camisolas vestidas dentro de casa, pantufas bem quentes, cheiro a lenha queimada na lareira... alentejana.

Saudade que se esquece - ou que se adia;
patins nos pés a deslizar sobre uma pista de gelo, "algures na Europa central". Dêem-me a mão, façam-me rir, gritar, estatelar-me no chão, com pequenos flocos a saltar do pavimento para o gorro e a ponta do nariz. Tirar fotografias para revê-las em filmes românticos de Natal. Quero esticar a mão para ser levantada e abraçada. Sentir os músculos da cara bloqueados pelo frio, um beijinho na ponta do nariz para recuperar a sensibilidade.
Quero patinar em frente à árvore de Natal de Rockefeller ou no Central Park, da minha cidade.

Um frio que gela, quando tão bem poderia aquecer.


28 novembro, 2008

Weihnachtsmarkt in Bonn

Ele é muito bonito, este mercado de Natal. Como todos os que enfeitam a Alemanha ao longo do Advento.



Mas cheira a Leipzig...

20 outubro, 2008

Um dia na capital económica, em tempos de crise




Münsterplatz, fim de dia de Outono com sol


Na esplanada que me acolhe em momentos de introspecção, bebo o meu sumo de cereja-banana (KiBa) e recordo esse domingo.

Resolvi ir até Frankfurt. Ou melhor, no que diz respeito ao "ir", fui com quatro pessoas que não conhecia. Já aqui escrevi que me tornei fã do site www.mitfahrgelegenheit.de. Do site e da mentalidade. Indicar local de partida, destino e data. Surgem os contactos dos condutores dos carros, com horas e indicações. Desta vez no entanto, para o horário que eu queria, surgiu-me um contacto de uma senhora que comprou um Wochenendeticket. Um WE-Ticket é um bilhete de comboio de fim-de-semana, que custa cerca de 30 € e com ele podem viajar até 5 pessoas pela Alemanha fora, dentro desse fim-de-semana. Para a dimensão de Portugal seria (ainda mais) paradisíaco, mas a Alemanha é grande; não dá para ver tudo num fim-de-semana à velocidade dos comboios regionais.



Liguei à senhora, perguntei se havia lugar para mim e anotei mentalmente: "sou pequenina, magrinha e tenho um grande nariz". Anotei o sorriso telefónico também.

Lá fui para Colónia às 10 da manhã. Bona foi a capital, mas a verdade é que tudo se concentra em Köln. Não me importo com isso, mas senti-me burra porque acabámos por passar por Bonn na mesma. Nada há-de solucionar o meu inexistente sentido de orientação.

Estava à hora certa em Köln Hauptbahnhof, na linha 9 B-D. Mas não via a senhora pequenina e magrinha. Vi um rapaz muito estilo beto clássico, cabelo loiro puxado para trás com brilhantina, camisa e sapatos a brilhar também. Parecia desorientado. Tirei a música do ouvido para ouvir o que dizia ao telefone: "Já aqui estou na linha 9, mas não a vejo...".

Ah, bom! É dos meus, então. Segui-o e encontrei o grupo dos cinco. Cada um com o seu "coffee to go" na mão, um frio de gelar o nariz e as pontas dos dedos e assim entrámos no comboio. Fizemos logo as contas para evitar chatices (que a Alemanha é um país civilizado, mas aldrabões há em todo o lado). Paguei 7 €, ao contrário dos 40 € que o comboio "convencional" (embora mais rápido) pedia.

Portanto lá estava o beto clássico, estudante de economia (sentia-se-lhe o crash nos olhos!), a senhora magrinha e pequenina que ia visitar a filha a Bayreuth (que eu não faço ideia onde fica) e mais duas raparigas: uma com ar de russa, cabelo no ar, livro em inglês, telefonemas numa língua claramente de leste; e uma outra, loirinha, relaxada e sorridente, que tinha um aparelho para endireitar a perna.

Conversámos o essencial no início. O alemão não faz "small-talk" por fazer. Não há cá conversas sobre o tempo, até porque ele raramente muda. Então, pouco depois, três liam, outra ouvia música e aqui o piolho... dormia.

Mudámos de comboio em Koblenz. Aí já me senti a viajar. Não conhecia o estado, as paisagens. E até as carruagens eram diferentes. De maneira que aí deu para cada um de nós ficar à larga num conjunto de quatro cadeiras. Menos eu, que preferi ficar com a loirinha do aparelho na perna. Parecia muito simpática. O discurso foi o mesmo de sempre:

Sobre mim: "E és de onde mesmo, em Portugal?", "Só cá estás há dois anos e já falas alemão?", "Gostas da Alemanha?" (como se não fosse suposto) - e a parte que eu mais gosto: "Na Deutsche Welle? Nada mau."

Sobre ela, também o discurso típico da alemã-não-alemã: viveu uns meses na Nova Zelândia, foi visitar uma amiga a Colónia, agora ia visitar uma outra a Frankfurt e depois voltava para a sua formação de fisioterapia. Mais tarde? "Nova Iorque, para já. Quero conhecer o mundo."

Acabámos por adormecer as duas com o silêncio das carruagens alemãs sobre os carris. A pouco mais de meia hora de Frankfurt, achei que já chegava de dormir. Até que de repente entra um senhor na carruagem e senta-se ao pé da senhora magrinha e pequenina. Tinha daqueles carrinhos que muitas pessoas mais velhas usam por aqui, cheio de papéis. Não percebi de imediato se era um mendigo ou uma pessoa vulgar, tinha barriga e barba grandes. Logo confirmei que era meio formado, meio maluco (para os padrões alemães, entenda-se), quando se virou de repente para a senhora pequenina e magrinha e perguntou, do nada:

- Desculpe, posso fazer-lhe uma pergunta? O que pensa desta crise financeira?

Aqui o piolho, a russa e a típica alemã-não-alemã ficámos logo com pena da senhora pequenina e magrinha, que percebemos ter ficado atrapalhada. "Não penso nada, porque não percebo".

Resposta errada. O senhor estava a escrever um livro sobre o assunto e via-se que estava muito irritado por a crise (que ele já teria previsto) ter rebentado antes de o livro ser publicado. A partir daí, assistimos a um seminário de crise financeira até Frankfurt, com críticas severas ao governo alemão. Lá pensava o piolho: critique, meu senhor, até conhecer quem governa aquele país para onde você gosta de ir no Verão. É que se o seu país se afundar, não pense que pode ir para lá trabalhar.

Isto, repito, porque estou convicta que eu e a Frau Angela Merkel vamos salvar o mundo.



Chegámos a Frankfurt. A alemã-não-alemã tinha a amiga à espera na Hauptbahnhof, que por sua vez tinha bilhetes de metro de grupo e me levou à estação da Feira do Livro para eu não pagar. Prático, não? Segundo a teoria da minha Mãe, "quem é que não quer ajudar essa carinha redondinha?"

Quanto à Buchmesse em si, a tal "maior feira do livro do mundo", devo dizer que fiquei tonta com a dimensão. E recorde-se: por 12 Euros. Torres e mapas e postos de informação e pessoas - muitas pessoas. O país convidado era a Turquia, o que no fundo deu à feira uma imagem da Alemanha tal qual ela é: loiros e altos misturados (ou não) com peles mais escuras e véus islâmicos.



Como se na redacção não me sentisse já suficientemente "na terra", decidi ir ao pavilhão da literatura portuguesa. Numa das editoras do país da saudade reconheci a cara do proprietário, provavelmente de um dos stands da calorosa feira do livro de Lisboa, onde outrora distribuí panfletos até mais não poder, para juntar dinheiro para o meu Erasmus em Leipzig. Logo aí, achei irónica a situação.

Mas mais irónica foi a abordagem que fiz ao tal senhor. Depois de pegar num livro que seleccionava os melhores poemas de Fernando Pessoa, perguntei o preço, que o senhor teve de consultar. Logo se dirige à sua colega, bem portuguesa, e ri-se como quem esfrega as mãos, dizendo "já fiz um negócio". (Recorde-se que a Feira do Livro de Frankfurt começa a ser conhecida pelas presenças, muito mais do que pelas vendas). Resolvo perguntar se "está tudo a correr bem". A senhora apoia o queixo na mão, cotovelo sobre a mesa, e desabafa "Já estamos fartos disto, queremos ir para Lisboa".

Bom, preferi não comentar. Logo se aproximou uma senhora alemã, com um livro na mão, e perguntou em alemão "quanto custa?". O senhor olha para mim com um autêntico ar de sem-pachorra e pergunta-me, A MIM, "o que é que ela 'tá prali a dizer???".
Não quis acreditar, mas resolvi sorrir e responder à senhora, não fosse ela pensar que todos os portugueses são assim.

Ainda perguntei ao senhor se estavam a trabalhar em conjunto com as editoras brasileiras, que tinham os seus stands mesmo ali ao lado. Mas ele bem (mal) me respondeu que "não temos nada a ver com eles". Eu disse que achava estranho, porque a cobertura jornalística dava uma ideia de união entre as editoras. "Não, não..."

Quem vê uma pessoa assim e generaliza, pensa que o português está de mal com a vida.

Bom, o senhor lá põe o meu livro num saco e diz todo gabarolas "que até leva aqui uns presentes". Lápis, caneta, régua. Começa a ferir-me a susceptibilidade. Nem com óculos me levam a sério? Como uma adultinha - ou vá, uma adolescente grande?

E à sua última pergunta, sobre o que eu estava a fazer aqui na Alemanha, não resisti a tentar pela última vez:
- Eu trabalho cá como jornalista. E por isso lhe perguntei sobre a cobertura da feira, porque a Deutsche Welle esteve cá e provavelmente falou consigo.



Arregalou os olhos. Que bem que me soube vê-lo aflito.

- Sim, esteve cá um rapaz... - disse ele, já cheio de convicção.
- Pois foi, o meu colega Márcio.

Como, de repente, senti que falava sozinha perante a perplexidade dele (provavelmente por achar estranho um piolho português já trabalhar), desejei-lhe continuação de boa feira e fugi para os pavilhões de literatura... dos Países Baixos. Diga-se, dos lá de cima.



E a propósito: voltei para Bonn numa outra Mitfahrgelegenheit, desta vez de carro: um BMW a percorrer as estradas alemãs sem limite de velocidade. Ida por 3 horas e meia a 7 euros, volta por 1 hora e meia e 14 euros. Em tempos de crise, não me posso queixar. E foi um dia sui generis, para relembrar ao sabor de cerejas e banana.


24 setembro, 2008

"A Saudade não deixa o tempo passar".

Uma compra de valores


Já cheira a folhas caídas no chão. Os casacos e as botas saíram do armário. Os dias estão curtíssimos, para o Setembro que conhece. E ocorre-lhe: ainda não tinha passado um Setembro inteiro aqui.

Quanto mais tempo passa, maior se torna a relação com as raízes. E mais raízes começa a conseguir criar neste novo solo. Se pudesse, transportaria metade do que há aqui para lá, e metade de lá para aqui. As diferenças são assustadoramente grandes. E não passa tanto pela quantidade de precipitação, como todos rotulam. Mais pela História, pela forma como a educação se forma e pela relação que se tem, forçosa ou instintivamente, com as pessoas.

E por isso traria o sorriso do sul, mas a sinceridade do norte. Com a franqueza do norte, mas a delicadeza do sul.
Traria as mesas cheias, de casa, para os horários que aqui fazem render o tempo.
Traria as cores, as roupas, as malas no lugar das mochilas. Mas vestiria tudo isso com discrição e uma auto-confiança que aqui se encontra por dentro e não por fora.
Levaria a pontualidade, o rendimento, a organização extrema, a vontade de ser capaz e a importância do trabalho - para colocar tudo numa caixa de flexibilidade, bem lá no sul. Para poder dizer "não me apetece" sem ser etiquetada de preguiçosa.

Trá-los-ia todos, de lá para aqui, para verem como é simples viver e ser eficaz ao mesmo tempo. Mas também os levaria nem que fosse por uma hora lá para baixo, para reverem as suas prioridades.

Traria sem dúvida a espontaneidade, o momento vivido quando ele ocorre e não quando foi planeado.

Levaria a qualidade de vida e o reconhecimento. Sem dúvida, levaria o civismo e o respeito - pelas outras cores de pele, pelo trabalho dos outros, pelas idades inferiores, pelos recém-licenciados.

Traria a saudade, a nostalgia e a melancolia para junto deste enorme interesse por outras culturas, como lição de um país que sofreu na pele as consequências da discriminação.
Procuraria, algures, a solução para o balanço extremo em que aterrou e de onde não sabe sair, pois todos os dias se sente mais parte dos dois sítios e de nenhum.

E levaria a família sempre consigo. Com animais, almofada, ruídos, cheiros, refeições e banhos incluídos. Em qualquer estação do ano, para qualquer canto do mundo.


16 setembro, 2008

Há Dois Anos


o passarinho voou pela primeira vez cá para cima!


10 setembro, 2008

Pesa

Desperta com aquele som agudo e repentino, desliga e descansa mais uns minutos. Os passos são pesados, os olhos semi-abertos, ouve-se o ruído dos carros numa rua cinzenta a combinar com o céu. Mexe-se em piloto automático nestas viagens pendulares que, tão afortunada, experimentou tão tarde. Saudosa do seu lar no centro da sua cidade.
As pernas pesam, os ombros endurecem, as datas marcam-se para mais um compromisso. Desafios, ideias, pendências. Não sobra tempo para beber ou comer sem olhar para o relógio, pensar no que tem de ser feito. Pelo meio, no que se quer fazer.
São assim as cidades, o trabalho, tudo aquilo que não conhecia desta forma. As pernas pesam, o ar aperta, o tempo não resta, a voz não comunica. Anseia por liberdade.
Mas há força para encarar essa velocidade, essa agressividade. Porque se vive.
Ainda que com despertador, existe um acordar diário. E aí reside o valor da vida.

Portanto não faz mal.