27 março, 2008

A Pátria que tanto me confunde


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Nunca há dinheiro para o essencial, mas arranjam-se sempre uns trocos para o acessório - é esse o segredo da miséria de Portugal, um país onde ainda há milhares de crianças que acordam e adormecem com fome, e onde, para regatear o leite escolar em falta, os pais têm que ir bater à porta do centro da irresponsabilidade, vulgo "sede do agrupamento". Se os pais pudessem escolher a escola pública que querem para os seus filhos, não seria necessário sequer gastar-se dinheiro com a avaliação dos professores. Mas Portugal é anti-escolha: todas as leis são feitas de modo a que a única escolha possível seja entre a resignação e a sua irmã afoita, que dá pelo nome de cunha ou esperteza saloia. Quem tem "conhecimentos", consegue mexer os papéis, quem não os tem, é melhor ficar sentado e pensar noutra coisa. Os "papéis", em Portugal, são uma entidade mágica e autónoma - como os automóveis, que em caso de acidente, se diz que "matam", pelos vistos sozinhos.
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Inês Pedrosa, in EXPRESSO

Bis, bis, bis, e por aí fora...

09 março, 2008

Homesick


"As saudades de casa não dependem do tempo que estamos longe".

Há dias em que a intensidade dos projectos no estrangeiro é tão grande, que a saudade vale a pena. Há outros, seja na primeira ou na trigésima semana, em que a saudade é tão tão forte que nos parte aos bocadinhos. Aí desejamos ter um quarto e uma cama bem pequeninos, para aconchegar a angústia. E fechamos os olhos, para não ver o cinzento do céu lá de fora.
Custa mais quando sentimos a decisão sobre nós. Ninguém me obrigou a vir para aqui, me pediu sequer. Vim porque quis - e porque pude...
Agora o lema não pode ser a lamentação ou o medo. Tento a cada manhã repetir a mim mesma: "Vamos começar por baixo, trabalhar muito e sonhar demais". Afinal, o meu grande dilema está em boa parte solucionado. Descobri uma direcção: a direcção do internacional, da Europa, do Mundo. Não sei se quero as notícias acima de tudo, mas pelo menos já sei que não quero as notícias locais ou mesmo nacionais. Também não sei se quero a comunicação para a venda a substituir a comunicação como dever público de informar. Mas é a comunicação para a venda que me compra o trabalho com maior valorização.
O que eu queria mesmo era levar a minha mente de volta para a escola, pois aí não pensava em dinheiro. Nunca pensei que se tornasse nesta obsessão - e ao mesmo tempo uma obsessão obrigatória. Além disso, nos tempos da escola nem eu nem ninguém pensava nesta crise desta forma. E já não é uma crise económica: é uma crise social, uma crise existencial elevada à escala de um País com uma linda História.
É uma frustração dificílima de descrever. Porque o que eu mais queria era caminhar para o meu trabalho sobre a calçada portuguesa, subindo e descendo as colinas da minha cidade. O que eu mais queria era ter a minha Família por perto e um céu azul por cima. Queria rever os sorrisos do meu povo, as melodias do meu Fado, a maresia do meu Tejo, os sons da minha Língua. A língua mais bonita do mundo (não preciso de conhecer as outras).
O que eu mais queria era ser valorizada no meu País, por ter feito o politicamente correcto: terminar a escola com sucesso, ter o curso que queria na Universidade e tornar-me numa licenciada com vontade de trabalhar e de evoluir.
Mas parece que muito poucos estão a reconhecer o nosso valor. Não é justo. Um país já degradado está a mal-tratar os jovens que são o seu futuro. Está a deixá-los escapar e um dia pode ser tarde para querê-los de volta. Mas não é só nisso que os Portugueses não sabem pensar a longo prazo, não é?
Somos tantos, que devíamos juntar-nos em nome do que valemos.
Equanto o comodismo nos vai vencendo, eu vou-me integrando na sistematicidade germânica. Hoje é engraçado, amanhã é cansativo, volta a ser um exemplo a seguir, de repente farta e regressa ao estatuto de orgulho.
Vou balançando constantemente aqui na Europa Central, qual emigrante que sonha voltar à terra por uns dias. Só para estar junto das raízes, olhar para o mar e comer umas sardinhas.
Saudades que têm de valer a pena.


29 janeiro, 2008

Nada de especial

É perfeitamente nítida na memória a admiração que sentia por aquelas histórias contadas. Desde a amiga da irmã que estudava na Escócia, e que eu ouvia sempre com olhar de criança a falar ao telefone em inglês, "que máximo"! Outros amigos, colegas, conhecidos foram fazendo passar a mensagem de terem ido "para fora" trabalhar ou estudar, tinham arranjado namorados e namoradas, vinham "cá" no Natal.
Lá fora é tudo tão longe, tão difícil, pensava eu. Isso é coisa para gente grande.
Até hoje ainda não sei definir como é que eu também fui "lá" parar, mas acho que já desisti de procurar resposta. Foi e ainda é mágico por isso mesmo.
E agora que estou cá, "lá fora", tão longe, parece que não é nada de especial. Quando algo se conquista e se repetem conquistazinhas pequenas a cada dia, tornando a aventura numa nova rotina, parece que uma força idiota nos vai dizendo "vês?, não foi assim tão difícil" e por isso aquilo que eu via como inalcançável afinal já foi conquistado. Venha outra coisa.

NÃO, não é assim que deve ser. E ainda bem que me resta a lucidez para não deixar de valorizar cada dia que tenho deste lado. Seja na West ou na Ostdeutschland. Porque a verdade é que às vezes ainda bloqueio quando, nas arrumações do quarto, oiço vozes da cozinha que me lembram que na minha casa não há mais ninguém que fale a minha língua. A televisão que me ajuda a adormecer fala em alemão, as pessoas na rua falam alemão, tudo é estrangeiro à minha volta.
E é tão boa a sensação. Não só a de estar cá, mas sobretudo a de ter tido a oportunidade de voltar. Voltar a delirar com os escassos metros que separam a minha casa da paragem do autocarro, em que caminho com as mãos nos bolsos, a cabeça agachada, o vapor que sai pela boca a chocar com o frio. "Talvez neve este Carnaval, dão um grau para sábado, QUE BOM."
É proibido subestimar as conquistas diárias que aqui se têm. Mesmo que à minha volta as vivências de outros estrangeiros sejam semelhantes, porque na verdade elas cometem a mesma falha e sabem-no.
Estar aqui é um privilégio, e não me vou permitir nunca deixar de ser grata por isso.

14 janeiro, 2008

Guten morgen!!

9:18 horas da manhã, há ruído em casa.

Eram 7:30 quando o despertador tocou. É dia de aniversário e colei papéis pela parede com votos de felicidades. Ainda estava bem escuro lá fora, mas havia mais pessoas na rua do que vejo agora. Crianças, bicicletas, carros. Ao fundo, a torre da Deutsche Post que me orienta para o estágio rodeia-se de luz azul, cinzenta e cor-de-rosa, adivinhando o nascer do sol por entre as habituais nuvens…

Banho tomado a ouvir uma qualquer rádio alemã, o dia nasce finalmente e às 8:30 tocam à campainha. O senhor para a instalação da Internet disse que viria entre as 8 e o meio-dia. Pois em Portugal teria vindo provavelmente ao meio-dia e qualquer coisa, pelo que por breves instantes ainda me interroguei “quem será a esta hora?”. E ali vinha ele todo lançado a subir os três andares, já a dizer bem alto e com um sorriso “schönen guten morgen!!” como quem se sente realizado quando chega o expediente numa segunda-feira de manhã, bem cedinho.

Entretanto estão dois pãezinhos de sementes, typisch deutsch, no forno. Põe-se roupa da máquina a secar, abrem-se presentes, seca-se o cabelo.

E às 9 horas em ponto, como combinado, chega a Gianna, alemã bem loirinha, para estudar com a Julia no dia do seu aniversário. Quão interessante seria imaginar isso na minha terra – estudar às nove horas em ponto, enquanto se toma o pequeno-almoço e se recebem mensagens de parabéns.

E na volta, nem há compromissos profissionais para hoje. Apenas aqui é assim. A luz é pouca, o ritmo é acelerado, o dia está planeado. Engraçado como entramos nos hábitos de um país assim, tão depressa.

Bom dia!


11 janeiro, 2008

Leipzig X Bonn


Começou a minha nova aventura. Não passei por Mallorca para aterrar em Leipzig; fui direitinha a Köln-Bonn. Três horas de transição, algures no ar, já entre loirões e moreninhos, que vi dissiparem-se depois de recolherem a bagagem. Mais uma vez lá estava eu, com 37 Kg de roupa quente e tudo o que é imprescindível para viver mais uma vez sozinha durante uns meses.

Não fosse a Internet e nada disto teria sido possível. Desde a candidatura ao estágio até à procura de casa. E a Julia das fotografias que vira já estava ali, à minha espera no aeroporto. Pareceu surreal, ao fim de tão pouco tempo, voltar a ouvir esta língua-de-tostas-trincadas em todo o lado, na rua, na rádio, na minha colega de casa com quem desde logo discuti as diferenças óbvias entre West- e Ost- Deutschland.

Só faço questão de descrever a primeira impressão pois a experiência já me ensinou que a entrega à rotina acaba por fazer esquecer aquilo que chamou a atenção em primeiro lugar.

Falta ainda tempo para que a Alemanha pareça mais homogénea – mas bem depressa já ela anda. BMW’s, Mercedes e Volkswagen são a constante que Leipzig não tinha. Até as bicicletas são mais arranjadinhas, bem como quem as pedala. Cabelos apanhados, jovens altas e bonitas, preços consideravelmente mais altos. Nada de críticas, apenas diferenças. Um centro muito simpático, andar a pé para todo o lado, pessoas que de certa forma ainda me são familiares. Entrar num restaurante como quem sai do Inverno e entra no Verão, mesinhas ordenadas com velas acesas em cada uma. Chegam amigos, voltam os apertos de mão de quem me apresenta, novamente, como a “Dê-bô-rrá”. Venham cervejas!!

Preparo-me para trabalhar à séria dentro de dias, ali pertinho do Reno, o amigo do Tejo que vou conhecer ainda hoje e que certamente abafará a saudade de água que Leipzig tão ferozmente alimentava.

No meu quartinho, as minhas coisinhas, as minhas fotografias, aquelas que em Lisboa não são necessárias.

Frio? Quanto baste, para quem acaba de aterrar num novo lar.

E, claro, acordar antes das nove da manhã para aproveitar as poucas horas de sol.

Tschüss!


05 janeiro, 2008

Lá voltar

Resoluções do novo ano? Não há forma de as fazer. Inflação, proibido fumar, saldos, dietas pós época festiva. Se é sempre a mesma coisa, não especulo, afinal, os anos fazem-se de meses próprios, com semanas fugazes mas distintas, dias de sol e de chuva, horas agradáveis e melancólicas.
O grande mês de outrora foi o meu Setembro, Julho revelou-se revelador, Abril detesto-o, Maio nem sempre tem a luz do Tejo, Dezembro está cada vez mais cansativo e cínico.
Janeiro? Não gostava dele. Era frio, escuro e chuvoso. E na volta, quem poderia dizer que me apaixonaria pelo mês do Beyerhaus às segundas-feiras, da fuga da biblioteca em hora de nevão, da bicicleta gelada, do corpo tapado por todo o lado deixando apena a retina estrategicamente de fora. Janeiro, o mês dos aniversários de meio mundo, aqueles aos quais infelizmente faltei (mesmo estando presente), compensando comemorações na festa de anos de um holandês, numa festa de pátria, noutra de fim de semestre.
O Janeiro de 2008? Esse estava escrito numa tal ficha de candidatura, como quem pede um lugar num estágio concorrido seja em que mês for, mas "por favor, o mais depressa possível". E assim voltou a resposta, recordando a rigidez loirinha com aquele "início a 15 de Janeiro, fim a 14 de Março", até com hora marcada...
E assim se planeou a resolução do arranque do novo ano, muito antes das passas, das badaladas, sequer do Natal.
Porque levando os dias com calminha, caseirinhos como tanto gosto, memorizando a rotina, os petiscos e as conversas lisboetas que tanta saudade me trarão, assim me preparei para o 9.º dia, em que um novo avião me levará para uma nova aventura, outra vez por minha conta. Desta vez por vontade própria e, talvez por isso, mais assustadora numa certa perspectiva.
Os medos são os mesmos do herói Setembro, mas agora mais ténues. Uma responsabilidade acrescida pelo factor segunda-a-sexta, horário laboral e rigidez germânica.
Uma nova cidade que só conheço de mapa, com um Tejo emprestado, uma família substituída por uma jovem alemã, estudante de Direito, que conheci pela Internet. Uma equipa de trabalho que visualizei por fotografia, eléctricos quentinhos que me levarão onde preciso, neve (esperemos) a cair no dia-a-dia, derreter em casa, num quarto novo.
Desafios e medos, esses sim, vamos ter de (re)solucionar.
Boa sorte!

01 janeiro, 2008

Para 2008

"venha por favor SAÚDE,

porque o resto depende de nós".

23 dezembro, 2007

Nosso

O encanto do nosso Inverno não é a neve a contrastar com as casas quentinhas, mas sim o sol longínquo que se vê pintado num céu quase sempre azul. No nosso Inverno vamos a correr tirar as roupas quentes, muitas das quais só se compram nos sítios realmente frios, e enfiamos luvas e cachecóis, chapelinhos bonitos e botas de pêlo sobre as calças. É bom andar assim aconchegadinho, poder dizer "hoje está mesmo frio", fugir aos desalinhos da calçada portuguesa e parar na esquina para comprar uma dúzia de castanhas quentes.

No nosso Inverno sentamo-nos no sofá cobertos de robes, a árvore de Natal cintila ao nosso lado e só apetece ficar em casa. O nosso Natal, esse, é quase igual em todo o lado. O mesmo contraste entre os que têm e os que não têm, os mesmos clichés de Dezembro, os mesmos sacos resultado de encontrões, à pressa, sem pachorra e de última hora. Os mesmos conflitos dentro das famílias, a noite aqui e o dia ali, todos se cruzam entre casas, pelo país e pelo mundo fora. O porquê do Natal, poucos continuam a saber.

Brinde-se no Natal, nos outros dias festivos ou não, neste ou noutro mundo. No nosso País os brindes têm o sabor de um dia de cada vez. E na verdade nós é que sabemos. Pois brinda-se:
- Saúde!
E com ela, esperamos todos cá estar para saborear este céu azul com sol de Inverno, a deixar brilhar a nossa Lisboa melancólica. Com saúde ficam na nossa memória as imagens da nossa Terra, do nosso Natal e do nosso Inverno, aquelas que tanto ajudam a ir e voltar para longe...

14 dezembro, 2007

A caminho

Agora ela gosta de ir, porque habituou-se a ir de repente, a ir andando, a ir embora.

A mesma que não gostava de estar por sua conta, a não ser andando a pé pelas ruas inclinadas de Lisboa, de repente passou a gostar de ir, sem grande aparato.

Não que se tenha habituado a fazer as malas. Continua a não saber como levar tudo o que lhe é importante. Até porque o que é mais importante não conhece aquele “ir”. Apenas embarca psicologicamente com ela...

Descobriu que gosta de ir para o norte, onde o vento e a chuva a obrigam, como sempre diz, a "aconchegar-se no cachecol" para pensar nas suas conquistas. Lembra-se de como foi feliz com temperaturas negativas a baterem-lhe nas faces branquinhas, sem sol.

Já lhe disseram que é próprio dos caranguejos. São caseiros, familiares, e a dada altura resolvem ir andando. Ou voando, se ela for mesmo um passarinho... Talvez ela tenha alcançado essa "altura", no tempo e em si mesma, de ter a vontade grande de ir para descobrir, partir e depois regressar, ver para depois contar. Mas essa é a mesma altura em que os receios se multiplicam. Porque à medida que se habitua a ir, mais normal se torna fazer as malas, e mais difícil passa a ser deixar cá tanta bagagem...

27 novembro, 2007

"Sou um Homem rico"

Tudo, tudo, tudo interiorizado. Uma marca a não esquecer.
O semblante carregado não impediu o manifesto bonito da união, a vontade de estar presente. As lágrimas, adiei-as para tentar prestar o apoio que se presta em alturas como esta, que nunca tinha vivido. São tão bonitos, os laços de sangue verdadeiros.
E a Amizade ali entregue, em abraços apertados e palavras de força, fazia esquecer a escuridão fria e as cores negras dos casacos.
Fala-se de tudo, mas não há conversa de ocasião. Apenas ajudamos a descarregar o peso que se abate sobre nós.
A amizade encontra ali contornos que não se vêem tão nítidos em Natais, nem em aniversários, nem em telefonemas e encontros esporádicos. Triste ironia, mas ao mesmo tempo curiosa e gratificante. É sentir que a idade fortifica tudo aquilo que vi com agrado.
As lágrimas acabaram por não resistir a saltar. Bem-vindas.

O mais bonito foi ver a união de três Irmãos, sobrevivente a todas as adversidades que não conheci, cujas histórias me chegaram turvas. Como se sentisse que não lhes pertencia; que aquela juventude, fora uma Guerra que todos os dias conheço um pouco mais por me mostrar de Quem vem a minha educação, aquela juventude não pertenceu ao meu mundo, e por isso fica para eles os três.
Mesmo da tua História ficou tanto por contar, que anseio ler as linhas que tão dedicadamente escreveste para um dia conhecermos.

Não contávamos com isto, mas talvez tu o tivesses sentido. Desculpa se não o percebemos. Mas creio que não faz mal, pois vai estar sempre presente em nós o teu sorriso, as tuas duras críticas em tom de graça, os teus grandes olhos azuis, a tua memória, a teu cumprimento "minhas queridinhas" com a pronúncia do norte que tanto orgulho te dava.


Deste conta da beleza? As raízes do Porto, o "filho mais velho" de Torres Vedras, "o do meio" de Lisboa e "meu mais novo" do Brasil, ali juntos para ti. Temos de ver a beleza dos momentos tristes. Se não deste conta, eu digo-te: foi bonito, bonito, bonito, vê-los caminhar abraçados ao som dos passarinhos, num dia lindo de sol de Inverno. Foi lindo senti-los relembrarem-te, com tanto no seu interior que desconhecemos, a manifestarem tão livremente o orgulho do Pai que foste.
Agora... agora, o teu "Anjo da Guarda" não te perdeu. Nós é que ganhámos outro Anjo.
Saudades de todos aqueles que te fizeram sentir rico.


[Este é um texto só meu e dos que lá estavam. Está aqui porque precisava de gritá-lo.]

20 novembro, 2007

A sociedade vista pela praia

Escrito há dois anos, na altura do fim-do ano... hoje reli-o no antigo blog. Achei graça re-publicar o que escrevi na altura:

O silêncio que caracteriza o cair da madrugada na minha casa urbana, a um domingo, torna-me muito vulnerável a pensamentos nostálgicos. Desta vez tive um empurrão do pequeno ecrã, sintonizado no canal GNT.Tenho saudades do Rio de Janeiro.

Recordo as particularidades da minha visita e constato hoje que uma turista de 15 anos nunca poderia absorver a filosofia de vida de quem vive numa "cidade com uma floresta dentro dela e a água banhando ela".

Nesta noite de domingo consegui amadurecer o meu olhar. A procura obsessiva pela "estória" e certamente o conhecimento mais do que geográfico do terreno desta cidade tão peculiar permitiram ao jornalista responsável criar uma reportagem que eu arriscaria caracterizar como totalmente verosímil, e conquistadora por isso mesmo.

É perfeitamente legítima a sinédoque de tomar a praia como um espelho fidelíssimo do espírito carioca e em parte até brasileiro. O recorte da costa do Rio de Janeiro traduz de imediato a discrepância entre o muito pobre e o muito rico, mas simultaneamente a defesa pela igualdade entre todo o ser humano. Quer da favela que escorrega pelo morro, quer da mansão que nele encaixa com perfeição e segurança, é possível avistar a praia, admitindo com esse olhar que ela pertence a todos na mesma proporção.

Em todo o caso, e tal como na vida, a diferença de facto existe. A comunidade gay dirige-se para uma praia específica, onde os sorrisos parecem ser os mais sinceros. Um rapaz conta energicamente a sua história de vida. Ainda um "teen", tem já hoje o familiar peito de silicone, o cabelo comprido, o jeito feminino... mas a tristeza conformada de quem não tem dinheiro para mudar de sexo. Ao seu lado, a mãe declara com veemência: "Se não for eu a apoiar ele, ninguém mais vai apoiar". Ambos sorriem.

Também existem praias pequenas, escondidas, elitistas e sossegadas. Numa delas medita aquela jovem senhora que procura o seu interior enquanto contempla o mar com um olhar lacrimejado. A euforia do brasileiro não impede de todo a existência de momentos de solidão e de perda de identidade. E no entanto, mesmo na praia ao lado, onde a concentração humana quase provoca a asfixia e a surdez, uma mulher elege a praia como o único tesouro que vale por si mesmo, já que a sua vida está resignada ao infortúnio dos seus limites: "Para quem sabe que não vai conseguir ter nada nunca, vale mais deixar de sonhar, né?", lamenta. [Mas lamenta com um sorriso, como que dizendo em silêncio "ter vida vale mais que tudo isso". Além disso, "a gente já 'tá sendo filmado aqui, já tem alguma coisa de diferente p'ra alegrar nosso dia". Sim, o pobre brasileiro sabe ao que dar valor, e consegue, apesar de todos os contratempos desta contemporaneidade, ser optimista.]

Assim vai o Homem decalcando as suas diferenças sobre as baías que a erosão foi moldando. Mesmo onde o areal parece ser partilhado por todos é possível que a consciência de cada um determine que num "posto" estejam as "patricinhas" e os "mauricinhos" e que num outro fique "a galera que fuma maconha". Graças ao encontro de classes no sítio certo, a verdade é que um casal, visivelmente feliz, contava que o seu casamento teria começado num pedaço daquela areia. Casados há 20 anos, podem dizê-lo: "Estamos na praia até hoje".

Na praia do Rio de Janeiro a democracia é omnipresente. Ainda que a cidade mantenha uma íntima relação com a criminalidade, diz o democrata que naquelas praias "a única violência é a pequenez do biquini". Turistas francesas são mal vistas pela prática do "topless", porque naquela parte do hemisfério terrestre só o "bum-bum" é que se mostra.

A opinião é unânime entre a multidão que se veste de branco na última noite do ano. "A areia é a democracia. Aqui o ser humano está reduzido a um calção e a um chinelo". Boas entradas, cidade maravilhosa. Saudades.

18 novembro, 2007

E eis que...

...vou mesmo!
Que medo!

14 novembro, 2007

Não penso mais negativo

Porque desde que voltei quero ir e experimentar, quero fugir e re-provar, quero ir para voltar.
O respirar absorve-me na vontade constante de procurar, ponderar, enviar. Fazer (de) novo sem me assustar. É ilusão, em grande parte. Mas tem outro sabor, de tão tarde que aprendi a valorizá-la...
Uma coisa se manteve: o futuro pesa-me mais que o presente. Talvez não vá fazendo o que devia ou poderia, não fosse isso quiçá reanimar-me o gosto pelo sonho perdido. Mas deixei de o querer e, mais importante que isso, passei a valorizar o que sinto. Se não quero, não faço. Desde que haja querer para fazer qualquer outra coisa. E. Se. Há!
Não deixa de ser angustiante. Eu não quero deixar nada nem ninguém, nem deixar margem para que o questionem. Seria bom encará-lo pela positiva. Deixei-me vaguear e sonhar à vontade, depois de tantos anos presa à terra.
Até julgo, ingénua, ter sabido lidar com as saudades, não sei ainda bem como.
E é por isso que quero saltar lá para cima, vestir cachecóis outra vez, pedalar, não entender, passar vergonhas. Ai, o prazer de passar aquelas horas sozinha...
Tive tempo para me analisar, para tapar os medos, perceber que nada é o fim do mundo. O que importa é ter saúde e vontade de viver, ambicionar e acreditar!
Quem diria?
Di-lo-ei eu, quando me deixarem ultrapassar, ultrapassar, ultrapassar, até lá chegar outra vez, mas dessa vez sem pânico (!) nem passos-atrás.
Quero, quero, quero muito. E espero não me cansar de procurar e de tentar até conseguir. E bem depressa, que não há tempo a perder.

31 outubro, 2007

Na calçada

O atendimento raramente simpático numa tasca ao cimo do Chiado, perto do Adamastor. Ruas lindas. Vejo o César, rapaz da mercearia que encantou a minha querida Julia. Que saudades que tenho dela. Como uma dourada escalada com batata cozida e grelos. Conversa familiar, que delícia...
Depois resolvo ir a pé. Não resisto à Häagen-Dazs da esquina, peço um copo de baunilha com caramelo e cookies, cobertura de chocolate de leite. Para levar. Hoje tenho direito, é a minha folga atirada para o meio da semana, o feriado antecipado. Jornalistas nunca vivem no presente, andam sempre adiantados.
Ponho os phones nos ouvidos e saboreio o meu gelado sob a luz de Lisboa num Outono ainda quente. Vou descendo até aos armazéns do Chiado, cruzo-me com mendigos, gente pseudo-fashion, muitos turistas. Que pena, os alemães não terem aquela cara feliz quando estão na terra deles. Desço, pondo colheradas à boca, alheia e tão presente no que me rodeia. Tiro os phones ao passar na carrinha do Fado, onde toca o álbum "Lisboa, cidade do Fado". Quando as cordas da guitarra portuguesa se dissipam, volto a pôr os phones.
Chego ao Rossio, volta a ser tudo plano. Gostava tanto de poder andar de bicicleta. Num quiosque que vende postais vejo o presidente da Câmara, António Costa. Sorrio, esqueço que não gosto dele e penso apenas na inveja inevitável que se tem de um homem que manda numa das cidades mais bonitas do mundo. Uns metros à frente um rapaz aproxima-se de mim com um bloco que adivinha inquéritos de rua. Estou bem-disposta, tenho tempo, páro e tiro os phones. "Trabalha?", perguntou-me. "Não...", respondi eu, sem perceber bem se estava a dizer a verdade ou a mentira. "Então não serve. Mas tem um sorriso muito bonito".
"Obrigada", disse, sorrindo. Segui o meu caminho, voltei a pôr os phones. Na esquina que dá para a nova estação do Rossio sinto o aroma das castanhas. Há-de chegar o seu tempo, agora ainda estou na fase dos gelados. Deitei o copinho no lixo e entrei no metro.
A música continua a acompanhar-me, tornando mesmo leve o ar subterrâneo.
As pessoas andam apressadas, o barulhinho dos sapatos na calçada da Baixa já não se ouve.
Na calma da minha folga, vejo tudo a correr à minha volta, nesta Lisboa luminosa que tanto me faz sorrir.

24 outubro, 2007

O país do "Ah menina, isso não é comigo"

Não consigo mais deixar de partilhar. Parece uma anedota.

O curso que tive a infeliz ideia de escolher obriga-me não só à realização de um determinado número de cadeiras, como também de um estágio - que estou quase (bom, quase...) a acabar - e à demonstração de "conhecimentos vivos" de uma língua estrangeira. Ora, a Faculdade realiza exames anunais, em Abril, para este efeito.

Dado que, em Abril, eu estava na Alemanha e não aqui, não pude realizar o exame. Tal não me preocupou por aí além, porque sabia que certificados de fora poderiam surtir o mesmo efeito - o que a Faculdade até agradece, porque não tem de gastar mais papel em mais um exame.

Vim da Alemanha com todos os comprovativos possíveis e imaginários de que tenho "conhecimentos vivos" da língua alemã, quanto mais não seja porque fui obrigada a fazer todas as cadeiras em alemão. Ora, com dois certificados oficialíssimos disponíveis para o efeito, contactei um Professor da Comissão Pedagógica ou Científica ou raio que o parta mais às hierarquias académicas, que simpaticamente (sem ironias) se disponibilizou a receber-me para analisar os certificados.


"Isto é perfeitamente válido", disse. "Só que...", claro, há sempre um "só que...", teria de me dirigir a um outro Professor para dar a aprovação oficial.


Contactei o Professor em questão para comparecer no seu gabinete, o que levou alguns dias, porque não podemos esquecer que tudo isto se faz em dias separados, uma vez que há horários de trabalho a cumprir. O Professor marcou um horário comigo, eu apareci, esperei meia hora até que outra Professora me disse que o Professor se tinha ausentado do país durante uma semana. Compreendi perfeitamente (sem ironias), até porque achava (na minha segurança ainda alemã) que era questão de adiar por uns dias aquilo que ficaria logo resolvido.

Qual não foi o meu espanto quando o Professor finalmente me recebeu, não olhou para a minha cara, muito menos para os certificados (quando eu tinha explicado a situação por e-mail) e disse apenas "sim, isso é válido, mas tem de fazer o pedido no Secretariado e só depois é que isso vem para mim e eu posso assinar".

"Bom dia", respondi, e dirigi-me ao secretariado. Um tal doutor que não sei como legitima voltou a não me olhar nos olhos e disse apenas "secretariado? Não, isso não é aqui. Isso é tudo na Repartição Académica". Penso eu para mim, o que é que distingue estas duas merdas se nenhuma delas funciona. Tudo bem, "bom dia", e fui para casa. Era demais num só dia para eu ainda ter a calma de "tirar senha" (essa expressão abominável) e esperar pela minha vez.


Voltei uns dias depois, quando a disponibilidade assim permitiu, esperei cerca de 40 minutos para que a única funcionária da Repartição me atendesse, para deparar com o seguinte diálogo:

- "Bom dia, eu precisava de fazer um pedido de reconhecimento destes certificados, para que eles sejam encaminhados ao Professor do Conselho raio-que-o-parta para que sejam assinados. Isto para poder terminar a Licenciatura de Ciências da Comunicação".
Olhou para mim com sobrolho levantado, como quem não faz ideia do que estou a falar, e respondeu:
- "Então está em Estudos Alemães e quer equivalência a uma cadeira, é isso?"
- "Não, como lhe disse estou de Ciências da Comunicação e não quero equivalência, quero que isto seja reconhecido por um Professor, mas por questões burocráticas o papel tem de partir daqui".
- "Pois, mas nós aqui só tratamos de línguas quando são alunos que estudam mesmo línguas". Olhou para os meus certificados e, ao ler a palavra "Erasmus", que não se referia a entidade nenhuma, e sim ao tema de um exame, que portanto não era chamado ao caso, esquivou-se: "Isto dos Erasmus tem de ser tratado é na Reitoria."
Sorri.
- "Tem a certeza?"
- Se lhe estou a dizer que nós aqui não fazemos isso, é porque tem mesmo de ir à Reitoria.
O "bom dia" já saiu com as costas viradas.

QUE. NERVOS.


Parecia que só queria provar que o que ela disse não fazia sentido nenhum e fui à Reitoria em Campolide. A vontade de lançar uma bomba na faculdade já era mais do que muita, mas depois pensei naqueles que vêm de outros cantos do país para tratar destas coisas e pensei: "eles têm mais direito a rebentar com isto".

Na recepção da Reitoria, tive de aguardar que a senhora acabasse a sua conversa ao telefone de "pois, mas a gente aqui trabalha... sim, depois contas-me essa história ahaha... havias de ver a cara dele bla bla..." e finalmente olhasse para mim e dissesse "diga, menina".

Expliquei a situação, o sobrolho levantado repetiu-se, como quem diz "tem a certeza que isso é aqui?", encaminhou-me para um outro Gabinete não sei do quê onde, mais uma vez, alguém viu a palavra "Erasmus" nos meus certificados e disse "pois, isso não é aqui, é ali com as meninas do Gabinete Erasmus".

Sorri de desespero. Nem deu para discutir a situação. Quando me vi no Gabinete Erasmus, cheio de jovens como eu a tentar que isto funcione, é óbvio que em vez de pedir que me resolvessem o problema, que obviamente não lhes cabia a elas resolver, optei por desabafar o ridículo da situação. Elas ouviram-me, conversaram, e eu vim-me embora, pelo menos com a sensação de que alguém me compreendia.

Ridículo.

Fui para casa, porque tinha sido a dose do dia. Contactei o primeiro Professor e expus a situação como quem diz "há aqui alguém que não me está a dizer o que é que eu devo fazer". A resposta foi "não pensei que isso fosse tão complicado". Eu também não. Então optei por não confiar em repartição nenhuma e escrevi eu própria um pedido de reconhecimento, dirigido a dois Professores, para que algum servisse. "Algum há-de servir de certeza", disseram-me. Voltei à Faculdade (é engraçado como isto está a levar semanas a fio), entreguei as cartas, com a esperança de ver o assunto como encerrado.

Eis que recebi um novo e-mail do Professor a dizer que "sim senhor, isto serve"... SÓ QUE... "terá de ir à Tesouraria ou à Repartição Académica pedir uma minuta de requerimento onde terá de escrever o pedido de dispensa de realização do exame, que a Professora aqui carimbará como "dispensado" e aí sim poderei anexar o seu pedido e os certificados e encerrar o assunto. Faça isso hoje ou, mais tardar, amanhã de manhã".

Claro que fui primeiro à Tesouraria, porque não queria ter de voltar a "tirar senha". Fiz questão de levar o e-mail do Professor para não dizerem que eu estava a inventar. Mas a novamente a minha ingenuidade e segurança alemãs não me fizeram prever a reacção mais provável: "Oh menina, minuta de requerimento? Nós aqui não temos nada disso. Só certificados de matrícula. Tem de ir ali à repartição".

Ela não se apercebe que para ir à repartição é preciso tirar uma manhã inteira.

"Obrigadinha", respondi.


No dia seguinte (para não explodir no anterior), fui tirar senha. Levei o e-mail. E fiz a mesma conversa, como quem tirou Direito e não Ciências da Comunicação:

- "Bom dia, eu precisava de uma minuta de requerimento para pedir dispensa de um exame de língua estrangeira, para poder acabar a minha Licenciatura." E estendi o e-mail.
Quando vi a demora na resposta, percebi que ainda não ia ser desta.
- "Isso não é assim que funciona. A menina terá de vir cá com os certificados, nós fazemos o pedido e ele é encaminhado ao Professor do Conselho Científico do seu Departamento."
- "Isso foi o que me disseram no início. Eu vim cá, esperei e insisti, mas a sua colega teimou comigo que não faziam isso aqui e, veja lá, mandou-me para a reitoria. Como é óbvio ninguém me resolveu o problema lá e eu ando nisto há dois meses."
Quando o senhor sorriu eu percebi que ele me estava a compreender. Ele, sozinho, não faz aquilo funcionar. Lá me deu umas indicações e... terei de lá voltar um dia destes.

Não vos conto o próximo capítulo, não vos desejo assim tanto mal. Gabo-vos a paciência se leram tudo até aqui. E em vez de me verem como alemã arrogante e intolerante, por favor, dêem-me razão.

22 outubro, 2007

O Homem.

«Vivemos rodeados de tecnologia, informação e betão; uma vida em ritmo acelerado sem tempo para reflectir.

Adoecemos e esperamos que um médico nos cure depressa, para que possamos regressar à nossa vida atarefada.

Quando uma doença é severa, o suficiente para pôr em risco a nossa vida, por vezes paramos para ponderar sobre a nossa existência. Mas, uma vez curados, partimos novamente sem pensar nos seres humanos extraordinários e complicados que somos.

Os nossos corpos são de facto mais intrincados, complexos e maravilhosos do que todos os computadores e geringonças que nos rodeiam actualmente. E no entanto, muitos de nós não sabem realmente o que se passa debaixo da nossa pele - como os nossos corpos funcionam, o que precisam para sobreviver, o que os destrói, o que os regenera.

BODIES... THE EXHIBITION é uma tentativa de ultrapassar este conjunto de circunstâncias desafortunadas. Assimile o conhecimento adquirido na exposição, expanda-o e use-o para se tornar num interveniente informado dos seus próprios cuidados de saúde. O que implica muito mais do que melhorar a sua dieta, ou iniciar um programa de exercício há muito necessário. Antes exige que estabeleça uma parceria com o seu médico para compreender o que é que você - e o seu corpo singular - precisa para manter uma vida saudável e compensadora.»

Gastei a minha manhã ali sozinha e fiquei perplexa. Até quarta-feira.

20 outubro, 2007

Jornalista.


Hoje é dia de folga.

Tiro a folga para aproveitar o sol que não tenho visto. Há um mês e meio que a minha noção de tempo se alterou e finalmente posso dizer que passei a valorizá-lo ao minuto. Ficar na cama ou simplesmente em casa passou a ser uma excepção que só se confirma quando o cansaço o exige. E o cansaço não existe por causa do estágio, mas por causa das poucas horas livres que me sobram para resolver o que ficou pendente, mesmo depois de um mês livre de descanso após o Regresso.

Estou mais tranquila, mais discreta. Mas o sentimento mantém-se, as saudades da Alemanha são imensuráveis.

Mas sorrio. Afinal, há um ano, quem diria que hoje estaria assim? Ter saudades constantes da Alemanha é uma arrogância, sei-o. Mas a Alemanha tirou-me muito daquilo que eu tinha de mau, por isso não sinto que fosse justo referir-me à Alemanha como aquela-experiência-que-tem-sempre-um-fim-e-nos-deixa-na-depressão-pós-Erasmus-que-ao-fim-de-três-meses-passa. Não, eu não sinto que vá passar, nem quero que passe. Porque não quero voltar ao pessimismo que sempre me rotulou.

É irónico como visto o meu pessimismo de hoje com um sorriso. Hoje é diferente. Hoje sei que as coisas não se adivinham fáceis, mas em vez de desistir previamente, agora eu quero enfrentá-las. Afinal, não foi assim tão difícil como eu pintava...

O que me preocupa é perceber que podemos mudar de ideias de um momento para o outro. De ideias, de ambições, de sonhos, de talentos. A essência, aquela que ficou provado que se mantém, essa ajuda-nos a lidar com a mudança. Mas não deixa de ser difícil lidar com tudo isto.

Forçaram-me a perder o encanto pelo jornalismo. E como eu passei a acreditar que tudo acontece por um motivo, “gosto” de pensar que estou ali porque era preciso perceber as coisas por outro prisma. Não fui parar a um jornal centnário nem saio à rua de bloco de notas à procura de estórias exclusivas. E se eu disser que no fundo eu sempre soube que nunca quis isso para mim, que nunca foi essa a definição do meu “quero ser jornalista”, sei que à minha volta chovem “não digas disparates, só dizes isso porque estás num sítio onde o jornalismo não é padrão”.

Não sei como clarificar, mas a verdade parece-me simples: não gosto disto por aí além, e partimos do pressuposto que sonhamos com um curso que nos leve a fazer algo que adoramos. E no entanto a minha redacção é um canto extremamente acolhedor. Estou rodeada de pessoas pacientes e interessadas em ajudar e em ensinar, sem nunca esquecer que fazemos parte dos tristes estagiários não remunerados. Tenho um director e dois editores a agradecer todos os dias pelo nosso trabalho. Tenho discussões gerais sobre política, jornalismo, actualidade. Lemos os jornais todos, vemos e ouvimos os noticiários todos. O “refresh” à Agência Lusa é constante, estamos permamentemente a saber em primeira mão aquilo que acontece. Tenho o stress à minha volta quando a noite cai e os jornais, desde o Diário de Notícias ao 24 Horas, arrancam com os gritos do “quem fez as fotos da página 24?”, “despachem-se com a última página” ou “hoje não há merda nenhuma que dê para manchete”.

Tenho tudo isto e sinto-me privilegiada por fazer parte de um estatuto, apesar de tudo, de respeito. Mas ao fim de um mês tudo isto deixou de ser novidade para passar a ser prova de que não preciso de sacrificar a minha vida por exclusivos e últimas horas, que nos tiram vida pessoal durante tempo indeterminado e que não nos dão dinheiro. Não faltaram avisos quando escolhi aquele curso, mas quem é que tem estas noções aos18 anos?

Não é arrogância. É, acima de tudo, desilusão, por me ter descoberto virada para o lado oposto, quando tanta gente à minha volta confirmou, pelo contrário, que quer fazer isto para o resto da vida.

A probabilidade de tudo isto se justificar pelo simples facto de o meu trabalho não passar por sair em reportagem é muito ínfima. Sinto-o.

E agora, o que me resta?

Agora restam-me as saudades da Alemanha, resta-me a Internet que todos os dias me diz algo novo sobre trabalho e formação algures na Europa, resta-me a rotina familiar que não tive durante um ano, restam-me os sorrisos dos portugueses, o sentido de humor, as pessoas divertidas e as amizades próximas. Restam-me os e-mails para a Alemanha, para a Irlanda, para a Holanda, para Espanha, para a República Checa, para o Brasil. Restam-me as folgas para valorizar este sol insubstituível, quando na Alemanha por esta altura as noites chegam já aos zero graus.

E resta-me um sorriso, porque aprendi que com calma e sorrisos as dificuldade se relativizam. Por enquanto fico aqui no nosso cantinho privilegiado a ver o que se passa lá fora. Com um pé já dentro das estatísticas dos licenciados desempregados.

Por enquanto vou chorando as saudades da Alemanha. Mas o meu sangue é português... por isso, “logo se vê”.

06 outubro, 2007

Acho que foi por isso que, há um ano, consegui.

«Não consigo ter saudades, porque não quero, nem encaro mais o amor como uma possessão. Não consigo ter saudades, porque acredito no amor que sinto em cada momento, mesmo distante; porque o carinho dos que me amam está em mim, no meu respirar, nesse acordar com sorriso, nesse meu querer viver intensamente, nessa confiança na Vida que me trouxe a este outro canto do mundo.

O amor é energia, um fluxo sem limite. Somos nós, os que continuamente precisamos de etiquetas. A tal ausência de saudade é consequência duma liberdade conquistada, de um espírito sem fronteiras, duma bagagem que transporto no meu olhar.»

Alfredo Hervías y Mendizábal