05 janeiro, 2008

Lá voltar

Resoluções do novo ano? Não há forma de as fazer. Inflação, proibido fumar, saldos, dietas pós época festiva. Se é sempre a mesma coisa, não especulo, afinal, os anos fazem-se de meses próprios, com semanas fugazes mas distintas, dias de sol e de chuva, horas agradáveis e melancólicas.
O grande mês de outrora foi o meu Setembro, Julho revelou-se revelador, Abril detesto-o, Maio nem sempre tem a luz do Tejo, Dezembro está cada vez mais cansativo e cínico.
Janeiro? Não gostava dele. Era frio, escuro e chuvoso. E na volta, quem poderia dizer que me apaixonaria pelo mês do Beyerhaus às segundas-feiras, da fuga da biblioteca em hora de nevão, da bicicleta gelada, do corpo tapado por todo o lado deixando apena a retina estrategicamente de fora. Janeiro, o mês dos aniversários de meio mundo, aqueles aos quais infelizmente faltei (mesmo estando presente), compensando comemorações na festa de anos de um holandês, numa festa de pátria, noutra de fim de semestre.
O Janeiro de 2008? Esse estava escrito numa tal ficha de candidatura, como quem pede um lugar num estágio concorrido seja em que mês for, mas "por favor, o mais depressa possível". E assim voltou a resposta, recordando a rigidez loirinha com aquele "início a 15 de Janeiro, fim a 14 de Março", até com hora marcada...
E assim se planeou a resolução do arranque do novo ano, muito antes das passas, das badaladas, sequer do Natal.
Porque levando os dias com calminha, caseirinhos como tanto gosto, memorizando a rotina, os petiscos e as conversas lisboetas que tanta saudade me trarão, assim me preparei para o 9.º dia, em que um novo avião me levará para uma nova aventura, outra vez por minha conta. Desta vez por vontade própria e, talvez por isso, mais assustadora numa certa perspectiva.
Os medos são os mesmos do herói Setembro, mas agora mais ténues. Uma responsabilidade acrescida pelo factor segunda-a-sexta, horário laboral e rigidez germânica.
Uma nova cidade que só conheço de mapa, com um Tejo emprestado, uma família substituída por uma jovem alemã, estudante de Direito, que conheci pela Internet. Uma equipa de trabalho que visualizei por fotografia, eléctricos quentinhos que me levarão onde preciso, neve (esperemos) a cair no dia-a-dia, derreter em casa, num quarto novo.
Desafios e medos, esses sim, vamos ter de (re)solucionar.
Boa sorte!

01 janeiro, 2008

Para 2008

"venha por favor SAÚDE,

porque o resto depende de nós".

23 dezembro, 2007

Nosso

O encanto do nosso Inverno não é a neve a contrastar com as casas quentinhas, mas sim o sol longínquo que se vê pintado num céu quase sempre azul. No nosso Inverno vamos a correr tirar as roupas quentes, muitas das quais só se compram nos sítios realmente frios, e enfiamos luvas e cachecóis, chapelinhos bonitos e botas de pêlo sobre as calças. É bom andar assim aconchegadinho, poder dizer "hoje está mesmo frio", fugir aos desalinhos da calçada portuguesa e parar na esquina para comprar uma dúzia de castanhas quentes.

No nosso Inverno sentamo-nos no sofá cobertos de robes, a árvore de Natal cintila ao nosso lado e só apetece ficar em casa. O nosso Natal, esse, é quase igual em todo o lado. O mesmo contraste entre os que têm e os que não têm, os mesmos clichés de Dezembro, os mesmos sacos resultado de encontrões, à pressa, sem pachorra e de última hora. Os mesmos conflitos dentro das famílias, a noite aqui e o dia ali, todos se cruzam entre casas, pelo país e pelo mundo fora. O porquê do Natal, poucos continuam a saber.

Brinde-se no Natal, nos outros dias festivos ou não, neste ou noutro mundo. No nosso País os brindes têm o sabor de um dia de cada vez. E na verdade nós é que sabemos. Pois brinda-se:
- Saúde!
E com ela, esperamos todos cá estar para saborear este céu azul com sol de Inverno, a deixar brilhar a nossa Lisboa melancólica. Com saúde ficam na nossa memória as imagens da nossa Terra, do nosso Natal e do nosso Inverno, aquelas que tanto ajudam a ir e voltar para longe...

14 dezembro, 2007

A caminho

Agora ela gosta de ir, porque habituou-se a ir de repente, a ir andando, a ir embora.

A mesma que não gostava de estar por sua conta, a não ser andando a pé pelas ruas inclinadas de Lisboa, de repente passou a gostar de ir, sem grande aparato.

Não que se tenha habituado a fazer as malas. Continua a não saber como levar tudo o que lhe é importante. Até porque o que é mais importante não conhece aquele “ir”. Apenas embarca psicologicamente com ela...

Descobriu que gosta de ir para o norte, onde o vento e a chuva a obrigam, como sempre diz, a "aconchegar-se no cachecol" para pensar nas suas conquistas. Lembra-se de como foi feliz com temperaturas negativas a baterem-lhe nas faces branquinhas, sem sol.

Já lhe disseram que é próprio dos caranguejos. São caseiros, familiares, e a dada altura resolvem ir andando. Ou voando, se ela for mesmo um passarinho... Talvez ela tenha alcançado essa "altura", no tempo e em si mesma, de ter a vontade grande de ir para descobrir, partir e depois regressar, ver para depois contar. Mas essa é a mesma altura em que os receios se multiplicam. Porque à medida que se habitua a ir, mais normal se torna fazer as malas, e mais difícil passa a ser deixar cá tanta bagagem...

27 novembro, 2007

"Sou um Homem rico"

Tudo, tudo, tudo interiorizado. Uma marca a não esquecer.
O semblante carregado não impediu o manifesto bonito da união, a vontade de estar presente. As lágrimas, adiei-as para tentar prestar o apoio que se presta em alturas como esta, que nunca tinha vivido. São tão bonitos, os laços de sangue verdadeiros.
E a Amizade ali entregue, em abraços apertados e palavras de força, fazia esquecer a escuridão fria e as cores negras dos casacos.
Fala-se de tudo, mas não há conversa de ocasião. Apenas ajudamos a descarregar o peso que se abate sobre nós.
A amizade encontra ali contornos que não se vêem tão nítidos em Natais, nem em aniversários, nem em telefonemas e encontros esporádicos. Triste ironia, mas ao mesmo tempo curiosa e gratificante. É sentir que a idade fortifica tudo aquilo que vi com agrado.
As lágrimas acabaram por não resistir a saltar. Bem-vindas.

O mais bonito foi ver a união de três Irmãos, sobrevivente a todas as adversidades que não conheci, cujas histórias me chegaram turvas. Como se sentisse que não lhes pertencia; que aquela juventude, fora uma Guerra que todos os dias conheço um pouco mais por me mostrar de Quem vem a minha educação, aquela juventude não pertenceu ao meu mundo, e por isso fica para eles os três.
Mesmo da tua História ficou tanto por contar, que anseio ler as linhas que tão dedicadamente escreveste para um dia conhecermos.

Não contávamos com isto, mas talvez tu o tivesses sentido. Desculpa se não o percebemos. Mas creio que não faz mal, pois vai estar sempre presente em nós o teu sorriso, as tuas duras críticas em tom de graça, os teus grandes olhos azuis, a tua memória, a teu cumprimento "minhas queridinhas" com a pronúncia do norte que tanto orgulho te dava.


Deste conta da beleza? As raízes do Porto, o "filho mais velho" de Torres Vedras, "o do meio" de Lisboa e "meu mais novo" do Brasil, ali juntos para ti. Temos de ver a beleza dos momentos tristes. Se não deste conta, eu digo-te: foi bonito, bonito, bonito, vê-los caminhar abraçados ao som dos passarinhos, num dia lindo de sol de Inverno. Foi lindo senti-los relembrarem-te, com tanto no seu interior que desconhecemos, a manifestarem tão livremente o orgulho do Pai que foste.
Agora... agora, o teu "Anjo da Guarda" não te perdeu. Nós é que ganhámos outro Anjo.
Saudades de todos aqueles que te fizeram sentir rico.


[Este é um texto só meu e dos que lá estavam. Está aqui porque precisava de gritá-lo.]

20 novembro, 2007

A sociedade vista pela praia

Escrito há dois anos, na altura do fim-do ano... hoje reli-o no antigo blog. Achei graça re-publicar o que escrevi na altura:

O silêncio que caracteriza o cair da madrugada na minha casa urbana, a um domingo, torna-me muito vulnerável a pensamentos nostálgicos. Desta vez tive um empurrão do pequeno ecrã, sintonizado no canal GNT.Tenho saudades do Rio de Janeiro.

Recordo as particularidades da minha visita e constato hoje que uma turista de 15 anos nunca poderia absorver a filosofia de vida de quem vive numa "cidade com uma floresta dentro dela e a água banhando ela".

Nesta noite de domingo consegui amadurecer o meu olhar. A procura obsessiva pela "estória" e certamente o conhecimento mais do que geográfico do terreno desta cidade tão peculiar permitiram ao jornalista responsável criar uma reportagem que eu arriscaria caracterizar como totalmente verosímil, e conquistadora por isso mesmo.

É perfeitamente legítima a sinédoque de tomar a praia como um espelho fidelíssimo do espírito carioca e em parte até brasileiro. O recorte da costa do Rio de Janeiro traduz de imediato a discrepância entre o muito pobre e o muito rico, mas simultaneamente a defesa pela igualdade entre todo o ser humano. Quer da favela que escorrega pelo morro, quer da mansão que nele encaixa com perfeição e segurança, é possível avistar a praia, admitindo com esse olhar que ela pertence a todos na mesma proporção.

Em todo o caso, e tal como na vida, a diferença de facto existe. A comunidade gay dirige-se para uma praia específica, onde os sorrisos parecem ser os mais sinceros. Um rapaz conta energicamente a sua história de vida. Ainda um "teen", tem já hoje o familiar peito de silicone, o cabelo comprido, o jeito feminino... mas a tristeza conformada de quem não tem dinheiro para mudar de sexo. Ao seu lado, a mãe declara com veemência: "Se não for eu a apoiar ele, ninguém mais vai apoiar". Ambos sorriem.

Também existem praias pequenas, escondidas, elitistas e sossegadas. Numa delas medita aquela jovem senhora que procura o seu interior enquanto contempla o mar com um olhar lacrimejado. A euforia do brasileiro não impede de todo a existência de momentos de solidão e de perda de identidade. E no entanto, mesmo na praia ao lado, onde a concentração humana quase provoca a asfixia e a surdez, uma mulher elege a praia como o único tesouro que vale por si mesmo, já que a sua vida está resignada ao infortúnio dos seus limites: "Para quem sabe que não vai conseguir ter nada nunca, vale mais deixar de sonhar, né?", lamenta. [Mas lamenta com um sorriso, como que dizendo em silêncio "ter vida vale mais que tudo isso". Além disso, "a gente já 'tá sendo filmado aqui, já tem alguma coisa de diferente p'ra alegrar nosso dia". Sim, o pobre brasileiro sabe ao que dar valor, e consegue, apesar de todos os contratempos desta contemporaneidade, ser optimista.]

Assim vai o Homem decalcando as suas diferenças sobre as baías que a erosão foi moldando. Mesmo onde o areal parece ser partilhado por todos é possível que a consciência de cada um determine que num "posto" estejam as "patricinhas" e os "mauricinhos" e que num outro fique "a galera que fuma maconha". Graças ao encontro de classes no sítio certo, a verdade é que um casal, visivelmente feliz, contava que o seu casamento teria começado num pedaço daquela areia. Casados há 20 anos, podem dizê-lo: "Estamos na praia até hoje".

Na praia do Rio de Janeiro a democracia é omnipresente. Ainda que a cidade mantenha uma íntima relação com a criminalidade, diz o democrata que naquelas praias "a única violência é a pequenez do biquini". Turistas francesas são mal vistas pela prática do "topless", porque naquela parte do hemisfério terrestre só o "bum-bum" é que se mostra.

A opinião é unânime entre a multidão que se veste de branco na última noite do ano. "A areia é a democracia. Aqui o ser humano está reduzido a um calção e a um chinelo". Boas entradas, cidade maravilhosa. Saudades.

18 novembro, 2007

E eis que...

...vou mesmo!
Que medo!

14 novembro, 2007

Não penso mais negativo

Porque desde que voltei quero ir e experimentar, quero fugir e re-provar, quero ir para voltar.
O respirar absorve-me na vontade constante de procurar, ponderar, enviar. Fazer (de) novo sem me assustar. É ilusão, em grande parte. Mas tem outro sabor, de tão tarde que aprendi a valorizá-la...
Uma coisa se manteve: o futuro pesa-me mais que o presente. Talvez não vá fazendo o que devia ou poderia, não fosse isso quiçá reanimar-me o gosto pelo sonho perdido. Mas deixei de o querer e, mais importante que isso, passei a valorizar o que sinto. Se não quero, não faço. Desde que haja querer para fazer qualquer outra coisa. E. Se. Há!
Não deixa de ser angustiante. Eu não quero deixar nada nem ninguém, nem deixar margem para que o questionem. Seria bom encará-lo pela positiva. Deixei-me vaguear e sonhar à vontade, depois de tantos anos presa à terra.
Até julgo, ingénua, ter sabido lidar com as saudades, não sei ainda bem como.
E é por isso que quero saltar lá para cima, vestir cachecóis outra vez, pedalar, não entender, passar vergonhas. Ai, o prazer de passar aquelas horas sozinha...
Tive tempo para me analisar, para tapar os medos, perceber que nada é o fim do mundo. O que importa é ter saúde e vontade de viver, ambicionar e acreditar!
Quem diria?
Di-lo-ei eu, quando me deixarem ultrapassar, ultrapassar, ultrapassar, até lá chegar outra vez, mas dessa vez sem pânico (!) nem passos-atrás.
Quero, quero, quero muito. E espero não me cansar de procurar e de tentar até conseguir. E bem depressa, que não há tempo a perder.

31 outubro, 2007

Na calçada

O atendimento raramente simpático numa tasca ao cimo do Chiado, perto do Adamastor. Ruas lindas. Vejo o César, rapaz da mercearia que encantou a minha querida Julia. Que saudades que tenho dela. Como uma dourada escalada com batata cozida e grelos. Conversa familiar, que delícia...
Depois resolvo ir a pé. Não resisto à Häagen-Dazs da esquina, peço um copo de baunilha com caramelo e cookies, cobertura de chocolate de leite. Para levar. Hoje tenho direito, é a minha folga atirada para o meio da semana, o feriado antecipado. Jornalistas nunca vivem no presente, andam sempre adiantados.
Ponho os phones nos ouvidos e saboreio o meu gelado sob a luz de Lisboa num Outono ainda quente. Vou descendo até aos armazéns do Chiado, cruzo-me com mendigos, gente pseudo-fashion, muitos turistas. Que pena, os alemães não terem aquela cara feliz quando estão na terra deles. Desço, pondo colheradas à boca, alheia e tão presente no que me rodeia. Tiro os phones ao passar na carrinha do Fado, onde toca o álbum "Lisboa, cidade do Fado". Quando as cordas da guitarra portuguesa se dissipam, volto a pôr os phones.
Chego ao Rossio, volta a ser tudo plano. Gostava tanto de poder andar de bicicleta. Num quiosque que vende postais vejo o presidente da Câmara, António Costa. Sorrio, esqueço que não gosto dele e penso apenas na inveja inevitável que se tem de um homem que manda numa das cidades mais bonitas do mundo. Uns metros à frente um rapaz aproxima-se de mim com um bloco que adivinha inquéritos de rua. Estou bem-disposta, tenho tempo, páro e tiro os phones. "Trabalha?", perguntou-me. "Não...", respondi eu, sem perceber bem se estava a dizer a verdade ou a mentira. "Então não serve. Mas tem um sorriso muito bonito".
"Obrigada", disse, sorrindo. Segui o meu caminho, voltei a pôr os phones. Na esquina que dá para a nova estação do Rossio sinto o aroma das castanhas. Há-de chegar o seu tempo, agora ainda estou na fase dos gelados. Deitei o copinho no lixo e entrei no metro.
A música continua a acompanhar-me, tornando mesmo leve o ar subterrâneo.
As pessoas andam apressadas, o barulhinho dos sapatos na calçada da Baixa já não se ouve.
Na calma da minha folga, vejo tudo a correr à minha volta, nesta Lisboa luminosa que tanto me faz sorrir.

24 outubro, 2007

O país do "Ah menina, isso não é comigo"

Não consigo mais deixar de partilhar. Parece uma anedota.

O curso que tive a infeliz ideia de escolher obriga-me não só à realização de um determinado número de cadeiras, como também de um estágio - que estou quase (bom, quase...) a acabar - e à demonstração de "conhecimentos vivos" de uma língua estrangeira. Ora, a Faculdade realiza exames anunais, em Abril, para este efeito.

Dado que, em Abril, eu estava na Alemanha e não aqui, não pude realizar o exame. Tal não me preocupou por aí além, porque sabia que certificados de fora poderiam surtir o mesmo efeito - o que a Faculdade até agradece, porque não tem de gastar mais papel em mais um exame.

Vim da Alemanha com todos os comprovativos possíveis e imaginários de que tenho "conhecimentos vivos" da língua alemã, quanto mais não seja porque fui obrigada a fazer todas as cadeiras em alemão. Ora, com dois certificados oficialíssimos disponíveis para o efeito, contactei um Professor da Comissão Pedagógica ou Científica ou raio que o parta mais às hierarquias académicas, que simpaticamente (sem ironias) se disponibilizou a receber-me para analisar os certificados.


"Isto é perfeitamente válido", disse. "Só que...", claro, há sempre um "só que...", teria de me dirigir a um outro Professor para dar a aprovação oficial.


Contactei o Professor em questão para comparecer no seu gabinete, o que levou alguns dias, porque não podemos esquecer que tudo isto se faz em dias separados, uma vez que há horários de trabalho a cumprir. O Professor marcou um horário comigo, eu apareci, esperei meia hora até que outra Professora me disse que o Professor se tinha ausentado do país durante uma semana. Compreendi perfeitamente (sem ironias), até porque achava (na minha segurança ainda alemã) que era questão de adiar por uns dias aquilo que ficaria logo resolvido.

Qual não foi o meu espanto quando o Professor finalmente me recebeu, não olhou para a minha cara, muito menos para os certificados (quando eu tinha explicado a situação por e-mail) e disse apenas "sim, isso é válido, mas tem de fazer o pedido no Secretariado e só depois é que isso vem para mim e eu posso assinar".

"Bom dia", respondi, e dirigi-me ao secretariado. Um tal doutor que não sei como legitima voltou a não me olhar nos olhos e disse apenas "secretariado? Não, isso não é aqui. Isso é tudo na Repartição Académica". Penso eu para mim, o que é que distingue estas duas merdas se nenhuma delas funciona. Tudo bem, "bom dia", e fui para casa. Era demais num só dia para eu ainda ter a calma de "tirar senha" (essa expressão abominável) e esperar pela minha vez.


Voltei uns dias depois, quando a disponibilidade assim permitiu, esperei cerca de 40 minutos para que a única funcionária da Repartição me atendesse, para deparar com o seguinte diálogo:

- "Bom dia, eu precisava de fazer um pedido de reconhecimento destes certificados, para que eles sejam encaminhados ao Professor do Conselho raio-que-o-parta para que sejam assinados. Isto para poder terminar a Licenciatura de Ciências da Comunicação".
Olhou para mim com sobrolho levantado, como quem não faz ideia do que estou a falar, e respondeu:
- "Então está em Estudos Alemães e quer equivalência a uma cadeira, é isso?"
- "Não, como lhe disse estou de Ciências da Comunicação e não quero equivalência, quero que isto seja reconhecido por um Professor, mas por questões burocráticas o papel tem de partir daqui".
- "Pois, mas nós aqui só tratamos de línguas quando são alunos que estudam mesmo línguas". Olhou para os meus certificados e, ao ler a palavra "Erasmus", que não se referia a entidade nenhuma, e sim ao tema de um exame, que portanto não era chamado ao caso, esquivou-se: "Isto dos Erasmus tem de ser tratado é na Reitoria."
Sorri.
- "Tem a certeza?"
- Se lhe estou a dizer que nós aqui não fazemos isso, é porque tem mesmo de ir à Reitoria.
O "bom dia" já saiu com as costas viradas.

QUE. NERVOS.


Parecia que só queria provar que o que ela disse não fazia sentido nenhum e fui à Reitoria em Campolide. A vontade de lançar uma bomba na faculdade já era mais do que muita, mas depois pensei naqueles que vêm de outros cantos do país para tratar destas coisas e pensei: "eles têm mais direito a rebentar com isto".

Na recepção da Reitoria, tive de aguardar que a senhora acabasse a sua conversa ao telefone de "pois, mas a gente aqui trabalha... sim, depois contas-me essa história ahaha... havias de ver a cara dele bla bla..." e finalmente olhasse para mim e dissesse "diga, menina".

Expliquei a situação, o sobrolho levantado repetiu-se, como quem diz "tem a certeza que isso é aqui?", encaminhou-me para um outro Gabinete não sei do quê onde, mais uma vez, alguém viu a palavra "Erasmus" nos meus certificados e disse "pois, isso não é aqui, é ali com as meninas do Gabinete Erasmus".

Sorri de desespero. Nem deu para discutir a situação. Quando me vi no Gabinete Erasmus, cheio de jovens como eu a tentar que isto funcione, é óbvio que em vez de pedir que me resolvessem o problema, que obviamente não lhes cabia a elas resolver, optei por desabafar o ridículo da situação. Elas ouviram-me, conversaram, e eu vim-me embora, pelo menos com a sensação de que alguém me compreendia.

Ridículo.

Fui para casa, porque tinha sido a dose do dia. Contactei o primeiro Professor e expus a situação como quem diz "há aqui alguém que não me está a dizer o que é que eu devo fazer". A resposta foi "não pensei que isso fosse tão complicado". Eu também não. Então optei por não confiar em repartição nenhuma e escrevi eu própria um pedido de reconhecimento, dirigido a dois Professores, para que algum servisse. "Algum há-de servir de certeza", disseram-me. Voltei à Faculdade (é engraçado como isto está a levar semanas a fio), entreguei as cartas, com a esperança de ver o assunto como encerrado.

Eis que recebi um novo e-mail do Professor a dizer que "sim senhor, isto serve"... SÓ QUE... "terá de ir à Tesouraria ou à Repartição Académica pedir uma minuta de requerimento onde terá de escrever o pedido de dispensa de realização do exame, que a Professora aqui carimbará como "dispensado" e aí sim poderei anexar o seu pedido e os certificados e encerrar o assunto. Faça isso hoje ou, mais tardar, amanhã de manhã".

Claro que fui primeiro à Tesouraria, porque não queria ter de voltar a "tirar senha". Fiz questão de levar o e-mail do Professor para não dizerem que eu estava a inventar. Mas a novamente a minha ingenuidade e segurança alemãs não me fizeram prever a reacção mais provável: "Oh menina, minuta de requerimento? Nós aqui não temos nada disso. Só certificados de matrícula. Tem de ir ali à repartição".

Ela não se apercebe que para ir à repartição é preciso tirar uma manhã inteira.

"Obrigadinha", respondi.


No dia seguinte (para não explodir no anterior), fui tirar senha. Levei o e-mail. E fiz a mesma conversa, como quem tirou Direito e não Ciências da Comunicação:

- "Bom dia, eu precisava de uma minuta de requerimento para pedir dispensa de um exame de língua estrangeira, para poder acabar a minha Licenciatura." E estendi o e-mail.
Quando vi a demora na resposta, percebi que ainda não ia ser desta.
- "Isso não é assim que funciona. A menina terá de vir cá com os certificados, nós fazemos o pedido e ele é encaminhado ao Professor do Conselho Científico do seu Departamento."
- "Isso foi o que me disseram no início. Eu vim cá, esperei e insisti, mas a sua colega teimou comigo que não faziam isso aqui e, veja lá, mandou-me para a reitoria. Como é óbvio ninguém me resolveu o problema lá e eu ando nisto há dois meses."
Quando o senhor sorriu eu percebi que ele me estava a compreender. Ele, sozinho, não faz aquilo funcionar. Lá me deu umas indicações e... terei de lá voltar um dia destes.

Não vos conto o próximo capítulo, não vos desejo assim tanto mal. Gabo-vos a paciência se leram tudo até aqui. E em vez de me verem como alemã arrogante e intolerante, por favor, dêem-me razão.

22 outubro, 2007

O Homem.

«Vivemos rodeados de tecnologia, informação e betão; uma vida em ritmo acelerado sem tempo para reflectir.

Adoecemos e esperamos que um médico nos cure depressa, para que possamos regressar à nossa vida atarefada.

Quando uma doença é severa, o suficiente para pôr em risco a nossa vida, por vezes paramos para ponderar sobre a nossa existência. Mas, uma vez curados, partimos novamente sem pensar nos seres humanos extraordinários e complicados que somos.

Os nossos corpos são de facto mais intrincados, complexos e maravilhosos do que todos os computadores e geringonças que nos rodeiam actualmente. E no entanto, muitos de nós não sabem realmente o que se passa debaixo da nossa pele - como os nossos corpos funcionam, o que precisam para sobreviver, o que os destrói, o que os regenera.

BODIES... THE EXHIBITION é uma tentativa de ultrapassar este conjunto de circunstâncias desafortunadas. Assimile o conhecimento adquirido na exposição, expanda-o e use-o para se tornar num interveniente informado dos seus próprios cuidados de saúde. O que implica muito mais do que melhorar a sua dieta, ou iniciar um programa de exercício há muito necessário. Antes exige que estabeleça uma parceria com o seu médico para compreender o que é que você - e o seu corpo singular - precisa para manter uma vida saudável e compensadora.»

Gastei a minha manhã ali sozinha e fiquei perplexa. Até quarta-feira.

20 outubro, 2007

Jornalista.


Hoje é dia de folga.

Tiro a folga para aproveitar o sol que não tenho visto. Há um mês e meio que a minha noção de tempo se alterou e finalmente posso dizer que passei a valorizá-lo ao minuto. Ficar na cama ou simplesmente em casa passou a ser uma excepção que só se confirma quando o cansaço o exige. E o cansaço não existe por causa do estágio, mas por causa das poucas horas livres que me sobram para resolver o que ficou pendente, mesmo depois de um mês livre de descanso após o Regresso.

Estou mais tranquila, mais discreta. Mas o sentimento mantém-se, as saudades da Alemanha são imensuráveis.

Mas sorrio. Afinal, há um ano, quem diria que hoje estaria assim? Ter saudades constantes da Alemanha é uma arrogância, sei-o. Mas a Alemanha tirou-me muito daquilo que eu tinha de mau, por isso não sinto que fosse justo referir-me à Alemanha como aquela-experiência-que-tem-sempre-um-fim-e-nos-deixa-na-depressão-pós-Erasmus-que-ao-fim-de-três-meses-passa. Não, eu não sinto que vá passar, nem quero que passe. Porque não quero voltar ao pessimismo que sempre me rotulou.

É irónico como visto o meu pessimismo de hoje com um sorriso. Hoje é diferente. Hoje sei que as coisas não se adivinham fáceis, mas em vez de desistir previamente, agora eu quero enfrentá-las. Afinal, não foi assim tão difícil como eu pintava...

O que me preocupa é perceber que podemos mudar de ideias de um momento para o outro. De ideias, de ambições, de sonhos, de talentos. A essência, aquela que ficou provado que se mantém, essa ajuda-nos a lidar com a mudança. Mas não deixa de ser difícil lidar com tudo isto.

Forçaram-me a perder o encanto pelo jornalismo. E como eu passei a acreditar que tudo acontece por um motivo, “gosto” de pensar que estou ali porque era preciso perceber as coisas por outro prisma. Não fui parar a um jornal centnário nem saio à rua de bloco de notas à procura de estórias exclusivas. E se eu disser que no fundo eu sempre soube que nunca quis isso para mim, que nunca foi essa a definição do meu “quero ser jornalista”, sei que à minha volta chovem “não digas disparates, só dizes isso porque estás num sítio onde o jornalismo não é padrão”.

Não sei como clarificar, mas a verdade parece-me simples: não gosto disto por aí além, e partimos do pressuposto que sonhamos com um curso que nos leve a fazer algo que adoramos. E no entanto a minha redacção é um canto extremamente acolhedor. Estou rodeada de pessoas pacientes e interessadas em ajudar e em ensinar, sem nunca esquecer que fazemos parte dos tristes estagiários não remunerados. Tenho um director e dois editores a agradecer todos os dias pelo nosso trabalho. Tenho discussões gerais sobre política, jornalismo, actualidade. Lemos os jornais todos, vemos e ouvimos os noticiários todos. O “refresh” à Agência Lusa é constante, estamos permamentemente a saber em primeira mão aquilo que acontece. Tenho o stress à minha volta quando a noite cai e os jornais, desde o Diário de Notícias ao 24 Horas, arrancam com os gritos do “quem fez as fotos da página 24?”, “despachem-se com a última página” ou “hoje não há merda nenhuma que dê para manchete”.

Tenho tudo isto e sinto-me privilegiada por fazer parte de um estatuto, apesar de tudo, de respeito. Mas ao fim de um mês tudo isto deixou de ser novidade para passar a ser prova de que não preciso de sacrificar a minha vida por exclusivos e últimas horas, que nos tiram vida pessoal durante tempo indeterminado e que não nos dão dinheiro. Não faltaram avisos quando escolhi aquele curso, mas quem é que tem estas noções aos18 anos?

Não é arrogância. É, acima de tudo, desilusão, por me ter descoberto virada para o lado oposto, quando tanta gente à minha volta confirmou, pelo contrário, que quer fazer isto para o resto da vida.

A probabilidade de tudo isto se justificar pelo simples facto de o meu trabalho não passar por sair em reportagem é muito ínfima. Sinto-o.

E agora, o que me resta?

Agora restam-me as saudades da Alemanha, resta-me a Internet que todos os dias me diz algo novo sobre trabalho e formação algures na Europa, resta-me a rotina familiar que não tive durante um ano, restam-me os sorrisos dos portugueses, o sentido de humor, as pessoas divertidas e as amizades próximas. Restam-me os e-mails para a Alemanha, para a Irlanda, para a Holanda, para Espanha, para a República Checa, para o Brasil. Restam-me as folgas para valorizar este sol insubstituível, quando na Alemanha por esta altura as noites chegam já aos zero graus.

E resta-me um sorriso, porque aprendi que com calma e sorrisos as dificuldade se relativizam. Por enquanto fico aqui no nosso cantinho privilegiado a ver o que se passa lá fora. Com um pé já dentro das estatísticas dos licenciados desempregados.

Por enquanto vou chorando as saudades da Alemanha. Mas o meu sangue é português... por isso, “logo se vê”.

06 outubro, 2007

Acho que foi por isso que, há um ano, consegui.

«Não consigo ter saudades, porque não quero, nem encaro mais o amor como uma possessão. Não consigo ter saudades, porque acredito no amor que sinto em cada momento, mesmo distante; porque o carinho dos que me amam está em mim, no meu respirar, nesse acordar com sorriso, nesse meu querer viver intensamente, nessa confiança na Vida que me trouxe a este outro canto do mundo.

O amor é energia, um fluxo sem limite. Somos nós, os que continuamente precisamos de etiquetas. A tal ausência de saudade é consequência duma liberdade conquistada, de um espírito sem fronteiras, duma bagagem que transporto no meu olhar.»

Alfredo Hervías y Mendizábal

18 setembro, 2007

"O" dia: 16 de Setembro de 2006

Há um ano (o ano que fez há dois dias e que nao me deixou escrever mais do que duas linhas, porque depois de um ano acontece muita coisa e calhou trabalhar ao domingo)... há um ano acordei com a respiração acelerada, mas com uma calma que reflectia a falta de espaço para mais medos. Toda eu era pavor do que me esperava. A mala preta (a mesma citada há pouco tempo) estava encostada à secretária de madeira clara, ainda aberta, à espera que eu me lembrasse de mais alguma coisa "imprescindível para viver 5 meses".

Fiz um único telefonema. Aquele que me deu 99% de certezas de que a querida Catarina tinha sido colocada em Medicina. Lembro-me que esse foi o único momento em que me senti totalmente feliz naquele dia. Todos os outros eram metade medo, metade expectativa.

Fui tomar o pequeno-almoço à Versailles com os meus Pais. Tinha saído o jornal Sol nesse dia, pela primeira vez. Saboreei um croissant e um sumo de laranja sem a consciência de que tal coisa não me surgiria tão cedo na Alemanha.

Um dia de sol e calor. Trazia a mesma roupa que decidi vestir no último dia, o já nostálgico 27 de Julho de 2007. Também não tinha noção da saudade que o sol me traria.

Peguei nas malas, tantas. E fui para o aeroporto com Mãe, Pai e irmã. Não me lembro do que disse, mas sei que me saíam expressões do mais quotidiano possível, abafando avisos sobre bilhetes e passaportes, na esperança de me convencer que amanhã seria mais um dia em Lisboa.
Mas não. No tapete rolante do check-in, ao ver as minhas malas partir, percebi que estaria quase-quase a partir atrás delas.

Lembro-me do bolo de arroz que aí me alimentou para o resto do dia, se é que chegou a passar da garganta. E lembro-me da mesa comprida improvisada, com Família, amigos e Miguel, de onde se afastou a minha Mãe por instantes, no primeiro momento de aflição. Lembro-me de sorrir para querer convencê-los a todos que estava bem.

Um ano depois, a imagem da despedida de todas aquelas pessoas importantes, e importantes acima de qualquer distância, um ano depois essa imagem não descrevo, porque não se descreve.

Seguir "para trás do biombo" foi literalmente o momento da passagem para o lado de lá. O senhor do controlo de bagagem tentou acalmar os meus soluços com um "não fique assim triste". Hoje tenho pena de mim quando me lembro do medo que me assolava.

Partida para Palma de Maiorca, avião cheio de portugueses e espanhóis. Partida para Leipzig, avião cheio de loiros, branquinhos, caladinhos. Muitas horas de viagem, para pensar, ou não pensar de todo. Respiração acelerada, apatia, tudo junto.

Aterrei numa cidade escura, silenciosa e de pouca gente. A cidade que se tornou acolhedora, querida, palco do ano mais intenso da minha vida. A minha cidade.

Tive a grande sorte de ter a Clara à minha espera. A única morena que encontrei no tapete da bagagem, cheia de malas e portátil a tiracolo, chamou-me a atenção. "Deve ser espanhola", pensei. Dois dias depois cruzámo-nos na matrícula da faculdade e perguntámos em uníssono, para nos apoiarmos nos primeiros tempos, esses tão desafiantes: "Bist du portugiesin?"... "Sou!".
A Clara sorriu durante todo o percurso, durante toda a semana. Mas o que marcou mais foi aquela noite. Era sábado à noite, os eléctricos iam cheios de jovens divertidos. E eu, no meio deles, com centenas de quilos às costas, a tentar perceber aquela língua que soa a quem come tostas.

Rodinhas que pisaram os passeios da antiga RDA, até à Tarostrasse 12, quarto 537, que desde esse momento se tornou no espaço da maior prova que dei a mim mesma.

Em casa abri a mala preta. E nos dias que se seguiram, desfiz a mala, aos pouquinhos, até tudo estar cá fora.

Sabia lá eu que difícil seria voltar a enchê-la.

16 setembro, 2007

03 setembro, 2007

Voltar.

Tal como numa praia, ao início da manhã. Não vejo ninguém, só o barquinho com que dei à terra. Vim sozinha, tal como tinha ido.
Sento-me, agarrada aos tornozelos, queixo sobre os joelhos. Não consigo deixar de olhar em frente, bem lá para o fundo do horizonte. Por mais perfeita que esteja a linha não consigo ver para lá dela. Queria tanto poder viver tudo aquilo outra vez.

Do que lá vivi só consigo agora ouvir o som das ondas, que me lembram alguns ruídos. E sinto o cheiro da maresia, aquele que se desmembra em dezenas de outros odores, tão presos à memória.

O sorriso que esboço é daqueles pouco curvados. Lembro-me de sorrir rasgadamente, todos me podiam ver os dentes, felizes, todos os dias sem excepção. Agora só sei lançar aquele sorriso quando, em contacto com os olhos, fixos no incerto, pareço ver as imagens nítidas da conquista que deixei para trás. (Ou para a frente.)

Do outro lado ficou um mundo pequenino que eu construí sozinha, só para mim. Deste lado está o meu mundo de sempre. É irónico ter de habituar-me a ele. Mas tem sido um processo reflectidamente natural. Não custa aceitar que tenho de estar nesta praia de novo. Porque gosto muito dela. Custa é pensar que o que quero ver no horizonte se desmoronou e dispersou assim que eu parti. Um ano dos meus vinte e dois, por aí algures, sem dono. Como se já não tivesse provas de que existiu.

Restam-me os caminhos que o barquinho me foi mostrando ao longo da viagem. E resta-me, sem dúvida, o verde que se estende para trás de mim, pacientemente à espera que eu lhe dê o que ele me dá a mim.

Sou alguém dividida em mim mesma. E dividida entre o mar que defronte vejo e toda a terra que me espera.

Mas há vida em todas as direcções, agora eu sei disso.

Está vento. O mesmo que faz as coisas irem e voltarem. A areia levanta-se impulsiva, às vezes até com vergonha, numas zonas com mais força, noutras com menos.

Deixem-na assentar, por favor. Tudo é bom quando acaba bem e eu quero levantar-me quando sentir que nada mais paira no ar. Hei-de levantar-me de vez e explorar todo o verde fértil que se estende atrás de mim. Hei-de colher lá os meus frutos.

Mas por enquanto, deixem-me alimentar este orgulho que tão dedicadamente conquistei. Deixem-me alimentar a vontade de regressar a esta praia. Tenho de me ir certificando que o barquinho não partiu sem mim.

27 agosto, 2007

Aí vou eu




Imprensa: Controlinveste lança gratuito Global Notícias em Setembro

Lisboa, 26 Jul (Lusa) - O grupo de media Controlinveste vai lançar em meados de Setembro o diário generalista Global Notícias para concorrer no segmento dos jornais gratuitos, anunciou hoje o presidente da empresa, Joaquim Oliveira.
O novo jornal, que "quer ser o melhor jornal gratuito do País", insere-se na estratégia de consolidação do grupo editorial, afirmou o empresário no pré-lançamento do projecto hoje realizado.
O título será dirigido por Silva Pires, actual responsável dos suplementos e projectos especiais do grupo, sendo a direcção editorial coordenada por João Marcelino, que acumula com a direcção do Diário de Notícias.
Nesta primeira fase, o jornal Global Notícias, que tem o mesmo nome da sub-holding para a área de imprensa do grupo, vai contar com uma tiragem de 150 mil exemplares, que serão distribuídos nos principais pontos de circulação da área metropolitana de Lisboa, abrangendo ainda Vila Franca de Xira e os limites de Setúbal.
Joaquim Oliveira admitiu que o projecto poderá chegar "possivelmente em 2008" à região do Porto.
Sobre o investimento envolvido no novo jornal, o presidente da Controlinveste não quis avançar valores, afirmando apenas que "está dentro dos orçamentos normais".
Com 24 páginas, o jornal terá "uma arquitectura original" e vai contar com a "maior redacção do País", referiu João Marcelino, explicando que os conteúdos do Global Notícias serão feitos em coordenação com todas as equipas dos meios detidos pelo grupo Controlinveste.
O grupo de media detém, entre outros meios, os jornais Diário de Notícias, 24horas, Jornal de Notícias, Tal&Qual e O Jogo, a revista Volta ao Mundo, a rádio de informação TSF e uma participação no canal de televisão Sport TV.
De acordo com João Marcelino, o projecto definitivo do jornal estará concretizado dentro de um mês.
Em Portugal existem, actualmente, três jornais diários generalistas gratuitos: Destak e Meia-Hora, detidos pelo grupo Cofina, o Metro Portugal, onde o grupo Media Capital detém uma participação, além do Diário Desportivo.
SCA.

Lusa/Fim

23 julho, 2007

Corrida contra o tempo


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15 julho, 2007

Tempo, tempo, tempo

Obsessão temporária.
Tempo.
Para reflectir,
para estudar,
para despedir,
para sorrir,
para chorar,
para decidir,
para preparar.
Preciso de cada segundo deste tempo.
11 dias...

05 julho, 2007

Cheiros


Nenhum cheiro forte permitirá o esquecimento de tudo isto.
O cheiro da residência, que só na residência pude (poderei?) sentir.
O cheiro de uma casa é sempre único e insubstituível.
O cheiro do creme hidratante Eldena, do supermercado Aldi, pertence aos primeiros dias, à presença da Clara, ao fim quente do Verão, início de qualquer coisa na Alemanha.
O cheiro do gel de banho de aveia pertence àquela casa-de-banho pequenina, que me tentava acordar nas manhãs escuras, de temperaturas negativas, com aulas à espera.
O cheiro da cave onde lavava a minha roupa.
O cheiro do Instituto na Emil-Fuchsstrasse, inconfundível, das escadas para as salas de seminário, onde cheguei muitas manhãs sempre gelada e com sono. O cheiro do medo da deslocação no meio dos alemães.
O cheiro estranho de gases a emergir do chão em certas ruas da cidade lembra que piso Leipzig, que (ainda) estou aqui. Um dos poucos cheiros que se manteve durante o frio do Inverno, que tudo bloqueava entre o nariz e o cachecol...
O cheio do Weihnachtsmarkt, o lindo mercado de Natal, matou saudades nas pequenas feiras da Páscoa e da Cidade.
O cheiro das Thüringer Bratwurst, salsichas no pão, bolos de Natal, Glühwein, o cheiro dos fuminhos a aquecer o Dezembro frio lembram a Mãe, o Pai e a irmã a viver parte da minha experiência, ali, aqui comigo.
O cheiro do Bolo-Rei, do bacalhau, do grão, do azeite, dos pastéis de Belém, o cheiro do Natal na Alemanha 2006.
O cheiro do creme de cara Balea lembra Spyndleruv Mlyn, parêntesis no Erasmus em companhia portuguesa.
O cheiro seco do ar condicionado do avião, para Lisboa em Fevereiro, lembra o momento mais pessoal, provavelmente o mais feliz deste Erasmus.
O cheiro do novo quarto da Júlio Dinis, a lembrar o regresso, a saudade, a pausa, o balanço.
O cheiro da nova casa, da Frommannstrasse. O cheiro da casa da Franziska que visitara tempos antes. O cheiro de uma casa a revelar-se novamente único.
O cheiro do gel de duche, agora de mel, para variar. Quando acabou, comprei de novo o de aveia, para pensar que ainda estou no primeiro semestre, longe do fim.
O cheiro da lembrança de um Inverno que foi tão bom.
O cheiro dos Döner no caminho para casa, especialmente forte na Tarostrasse.
O cheiro do meu quarto cor-de-laranja.
O cheiro da Nutella, das boas manhãs, da vontade de acordar com o sol a bater na cara.
O cheiro dos bolos, das bolas de Berlim, dos pãezinhos de sementes, do Milchkaffee em tigelas quase de sopa.
O cheiro do Lukas-Café, que me trazem saudades da Mafalda e dos costumes lisboetas.
O cheiro do refogado, que faço tantas vezes quantas são possíveis, para apurar a Saudade da Mamma na cozinha da Júlio Dinis.
O cheiro do chá de laranja da Franziska, o cheiro da cerveja, do chocolate quente, o cheiro a limão das águas com gás, o cheiro das Kräuter por todo o lado.
O cheiro do Rewe, do Kaufland, do Plus, do Aldi, do Lidl, de todos os supermercados, com o cheiro dos enchidos a substituir o cheiro do peixe.
O cheiro da Cafeteria da Faculdade nas referidas quintas-feiras, a Cafeteria que já não existe.
O cheiro do sabonete da casa-de-banho do 4 Rooms, onde tiveram lugar as primeiras noites de convívio, de novidade, de autêntica histeria.
O cheiro dos queijos franceses, do arroz asiático, das tortillas, dos presuntos, da carne assada, das saladas de batata nos jantares de grupo internacionais.
O cheiro da biblioteca, o autêntico cheiro do Inverno. O cheiro a horários, o cheiro dos momentos a sós, dos momentos de observação, de reflexão, de trabalho, de orgulho e esforço.
O cheiro da casa da Caroline, da Carla, da Julia, dos 4 portugueses, do Wychman, do Padhraig, da Laura.
O cheiro da água do lago.
O cheiro dos parques.
O cheiro da neve.
Dez meses na Alemanha.