25 junho, 2008

De volta a casa


Aqui tanto os programas como os propósitos são diferentes. Pensando estar em Portugal, teria sido impossível fazer a viagem de mais de 500 km entre Bonn e Leipzig com um tal de Marco Dittrich, que conheci dois dias antes no tal "site de boleias" da Internet e que nunca antes tinha visto. Uma pessoa tem um carro e propõe o seu percurso a outras pessoas interessadas em dividir as despesas. Assim, em vez de 90 € de comboio só de ida, paguei 50 € de ida e volta e ainda dei uma mãozinha ao ambiente.

A experiência é engraçada. O rapaz, estudante de economia de 25 anos, ficou muito curioso sobre a vida em Portugal. Levou uma barrigada de crise e gastronomia de tal ordem que ao fim de 4 das 6 horas de viagem já estávamos cansados de conversar.

Quando entrámos no estado de Sachsen (Saxónia) senti-me como em casa. Tudo cheira a construção e não a construído. Não há grandes cidades à volta como na Renânia no Norte. Ali (ainda) é leste, embora o progresso seja evidente. Muitas vezes tenho de ser eu, a portuguesa, a convencer os alemães "ocidentais" que o tal "leste", onde eles pensam que nem se aprende alemão decente, é de facto lindíssimo, verde sem fim, onde as pessoas poupam mais mas também não ambicionam tanto, onde não se olha a roupa ou o carro. Lembrei-me que foi essa distância da sociedade portuguesa (e sobretudo lisboeta) que mais me fascinou naqueles 10 meses "no leste": os impostos que começo agora a pagar neste país têm uma boa taxa a cair sobre este outro lado do antigo muro, mas se os alemães "ricos" se queixam, eu até esboço um sorriso. Contribuo assim para a "minha" cidade.

Durante a viagem invadiu-me uma imagem de Leipzig que só à entrada da cidade se desvaneceu. Pensei convictamente que aquela cidade de estudantes estaria totalmente deserta, onde eu só encontraria a Julia, o João e a Franziska e absolutamente mais ninguém. Seriam três pessoas a viver "sozinhas" naquela cidade onde conheci 300 ou mais que agora estão espalhadas pelo resto do mundo.

Mas não. A cidade ainda vivia como antes. Vi os carros simples, os Straßenbahn do tempo da RDA, pessoas (tão!) diferentes, estradas ainda não tratadas e a calçada também dos antigos comunistas.

Ao estacionar o carro na Brockhausstraße, no bairro de Schleußig que não conhecia, ouvi uma porta bater e um grito: "Tanaaaaaaaaaaa!!!"

Era a minha Ju, a minha loirinha sardenta, a minha alemã com marcas fortes de lusa. Duas saudosas da luz de Lisboa.

Tinha preparado espargos à moda germânica, com batatas cozidas, molho holandês e uma fatia de presunto. A casa era linda, tipicamente de Leipzig, com pé alto, divisões grandes, madeira que range e portas largas. A varanda dava para um jardim interior - para o tal verde que só aqui existe.

Conversámos, conversámos... conversámos como nos velhos tempos, desde a última vez que nos vimos, há um ano, no aeroporto de Halle.

Acordar em Leipzig. De manhã estive sozinha, ela foi para uma aula. O cansaço não me venceu, porque a vontade de sair era enorme. Estava a chover, e que mal tem isso? De volta a LE, tudo o resto era relativo. Abri o chapéu de chuva e andei o mais depressa que pude até reconhecer algum espaço. Era tanta a pressa de rever os meus cantos que nem me perdi, apesar do meu péssimo e famoso sentido de orientação.

Fui sempre andando pelo verde, onde tudo parecia igual... até que de repente avistei o lago, os patos, a pequena ponte de onde se vê o Neues Rathaus e a torre da MDR, essa querida ponte onde em Novembro daquele ano registei uma visita da República Checa.


A manhã ainda era fresca, o parque estava vazio e ali mesmo, à esquerda, revi as tochas, as toalhas de pic-nic, os parabéns cantados à Dê-bo-rrá em várias línguas, o sol a pôr-se às 23 h, o bolo feito pela Laura e os telefonemas de "casa".

A nostalgia de uma portuguesa saudosa, ali ao som da chuva miudinha, debaixo do chapéu... onde choveu da mesma maneira.

Respirei fundo e segui a caminhada. Ao passar na biblioteca Albertina fotografei a fachada, sorrindo. Um rapaz esperou que eu fizesse o clic e olhou admirado, como quem diz "de facto a biblioteca é linda, mas quem me dera não ter de entrar aqui a estas horas num sábado".


E logo depois a cúpula azul, a memória de todos os caminhos ali percorridos, em todas as direcções, em todos os meses, com livros ou patins, sozinha ou acompahada. Naquela Beethovenstraße confirmei todos os dias que vivia numa cidade de estudantes.

Assim segui para a rua dos estudantes por excelência, a longa e animada Karl-Liebknechtstraße (ou simplesmente "Karli"). Caminhei pelo passeio sem tirar os olhos do espaço de estrada esburacada onde tantas vezes pedalei a caminho de filmes com chocolates, encontros internacionais ou jantares do curso de alemão.

Passei numa das inúmeras padarias (as mesmas que mais fazem falta aos alemães que vão para Portugal), comprei uns pães de sementes e segui para casa do João, o sortudo que ficou em LE, cujo andar reconheci de imediato pela bandeira portuguesa na janela.

Mais uma casa tipicamente lipsiana, de pé alto, soalho de madeira com ruídos, quartos enormes, plantas na cozinha e o mapa-mundo na parede.


Contou-me do noivado, contei-lhe do outro lado da Alemanha e recomendei que aproveitasse bem aquela cidade. As saudades vão ser muitas. Enquanto isso comíamos pão com queijo "da terra", ovos mexidos com cebola e tomate e bolo de cenoura...

De barriga cheia preparámo-nos para ir ao centro. Desci as escadas a correr como uma criança. À porta ali estava ela... mal se aguentava em pé, meia preta meia rosa, sem a campainha que levei para Lisboa de recordação, agora sem cesto... era ela, a minha bicicleta, que só se olhar já parecia fazer ruídos de travagens difíceis e mecânica atrofiada.


Pedalei feliz como uma criança pela tal Karli esburacada, passei pelo Neues Rathaus, fiz curvas entre as pessoas que passeavam no centro num sábado à hora de almoço. De volta à Altes Rathaus com as suas cores vivas, de volta à calçada cinzenta que vai dar, SIM!, à Augustusplatz, palco de tantos encontros, despedidas, fotografias, caminhos para as aulas às 8 da manhã com temperaturas negativas... e ali me deixei encantar pelas imagens e os cheiros daqueles meses maravilhosos.

Não resisti depois a subir até à Bayerischer Platz, a subida que outrora me cansava e desta vez só me deu adrenalina, segui sempre a direito pela Straße des 18. Oktobers a sorrir como uma tolinha até virar a esquina pelo Rewe, onde tantas vezes me cruzei com a Caroline, a Maria, a Laura, o Hektor... não ia vê-los desta vez, pois segui em frente, parei em frente à residência da Tarostraße que me acolheu durante 5 meses e liguei à Família que ali passou o Natal comigo.

Pouco depois estava a Ju a mostrar-me cantos de LE que eu não conhecia, um Apfelstrudel junto aos canais, um sol arrefecido mas agradável e conversas a pedalar lado a lado, de regresso.
Não há tempo a perder, tudo tem de ser (re)visto. Ao fim da tarde estava na minha antiga varanda da Frommannstraße, o palco do segundo semestre da experiência da minha vida, a varanda da qual me despedi a 27 de Julho de 2006 onde nunca imaginei que menos de um ano depois estaria novamente. Ali, com a Franziska e o seu abraço a cumprimentar a sua "meine kleine" (minha pequenina), de volta a uma companheira de casa que tem prazer em cozinhar - em grandes quantidades para o pequeno monstrinho que viveu consigo.

E eu que, na minha ingenuidade, pensei que teria de deixá-la dormir cedo para o seu turno da manhã, fui surpreendida com um "não interessa o trabalho, não é todos os dias que estás aqui". E aí, sim, confirmou-se o estereótipo da amizade que em tanto bate certo com a maneira de ser deste povo: é a sério, é a sério. Danke, Zisse!


Com sono e barriga a rebentar, pedalámos novamente lado a lado, eu e Ju, em direcção à Südstadt. Precisava de percorrer a Karli de noite. Passei pelas esquinas e ruas perpendiculares de ex-Erasmus, um silêncio de ausência no ar, no entanto com o ânimo que caracteriza a Karli, sofás nas esplanadas, bicicletas a andar e a estacionar e música a tocar. Deixámo-nos escorregar até ao Clara-Park, onde uma qualquer festa Reggae estaria a decorrer... sem luz sobre os pedais, cheiro a mato denso, sem ver um único obstáculo na estrada lá nos deixámos ir, a Julia a rir-se do meu pavor, caminhos estreitos, tropeços em pequenos troncos e ali está a música, num relvado escondido com duas tendas de cerveja e música a tocar.

Um outro mundo: gente isolada, lua cheia por cima, céu cheio de claridade, jovens à volta de fogueiras, nós e as bicicletas!


Leipzig é assim. Faz parte de um outro mundo. E antes que as lembranças de um fim-de-semana mágico se pudessem desvanecer, ali estava eu de novo, no Clara Park na manhã seguinte, a tomar um pequeno-almoço em toalha de piquenique junto ao lago. Aí, de barriga cheia, não pude reclamar por ter de... regressar. Como sempre.


(Obrigada, minha loirinha com sardas!)

17 junho, 2008

Quero lá saber

Como se tivesse um monte de papéis na mão e os quisesse atirar todos para o ar. "Que se lixem os combustíveis", li eu há dias. Que se lixe a previsão do tempo, se o céu estiver estrelado de véspera teremos sorte. Que se lixe se descobrirem que fujo ao horário de trabalho.
A porcaria do comboio chegou hoje de manhã 17 minutos atrasado. Não é muito normal, está certo. Mas o que é menos normal é, ao fim de apenas 3 minutos de atraso, já estar toda a gente a fazer o drama das suas vidas. "Die Bahn hat Verspääätuuuuungggggg"!!! Só aí já fizeram descer a esperança média de vida 1 ano. E só um caos destes para fazer os alemães falarem de manhã.
Não me peçam para suportar isto dois dias depois de vir da minha casa. Mas por que é que não faltaram os combustíveis para o avião se ter atrasado mais uns dias? Ou melhor, levem os alemães para a minha terra para eles colherem umas batatas de que se queixar!
Volta a pressão, traduz mais um pouco, não chegues atrasada, passa no supermercado senão amanhã não tens pequeno-almoço. Ah, sim, e prepara-te porque dentro de duas semanas o chefe vai perguntar o que queres fazer do teu futuro. Aguente-se, que primeiro tenho de ter tempo de perguntar a mim mesma. Agora que aprendi a não sofrer por antecipação é que começam com pressões?
Que se lixem as decisões. A Espanha entrou em solidariedade com o país vizinho e vamos afundar os dois. Pelo menos não gastamos tanto em transportes, estamos perto de água.
Eu queria era ainda estar em casa. Que se lixe, amanhã já passa. Além disso não vai haver Podolsky nem Ballack que atravessem o Ricardinho Carvalho e aí é que eles vão ver como é possível ter sucesso se se relaxar de vez em quando.
Se perdermos, que se lixe, pelo menos já estamos habituados. A crise vai continuar e eu também vou ficar por aqui.

15 maio, 2008

Jornalista por umas horas

DW e Reno, 04:30 am

A rotina alterou-se por três dias, agora cinco, em breve sete, qual banho de brilho sobre um mês repetitivo. Como tenho sempre dito, não se trata de não gostar; estou proibida de me queixar se faço algo que preciso, se tenho bons colegas e trabalho com 70 pessoas da minha idade, onde a minha língua não se fala apesar de eu ter um teclado português. É apenas diferente. Ler as notícias "da terra" e do mundo faço-o às escondidas, porque já não faz parte deste trabalho. Por umas horas pude matar saudades daquele jornalismo que já me assolou com tantas dúvidas. Acordar às 2:30 da manhã não faz mal nenhum. Aliás, saltei da cama. Não sabia bem se devia jantar ou tomar o pequeno-almoço, mas a ansiedade também me roubou a fome. Toca a despachar.

Lá fora a noite é de Verão, apesar de cerrada. O casaco de ganga chega. Destranco os cadeados da debicleta, a minha nova amiga. Ponho a mala no cesto, o gesto é igual ao de Leipzig, com a diferença de que lá os percursos não eram para o trabalho.
Vou pedalando pela Weberstrasse, ninguém na rua. Viro para a Adenauerallee, a grande alameda paralela ao Reno que já me é tão empática. Na minha direcção encontro um rapaz que caminha aos esses, de tão alegre que parece estar. Por momentos lembro-me que se tivesse optado pela carreira nocturna, seria provavelmente a única pessoa sóbria no autocarro. Ao fim-de-semana os alemães não perdoam.

Continuo a pedalar, desta vez encontro um mendigo a dormir num saco-cama sobre a relva. Aqui os mendigos são poucos, mas nunca vi ninguém dar esmola a nenhum. Um dia ganhei coragem e disse a um alemão "não entendo, nós somos mais pobres mas ajudamos muito mais". Recebi uma resposta óbvia: "eu pago boa parte do meu salário para a Segurança Social dessa gente, que só está na rua porque quer". É verdade: há famílias inteiras a viver do apoio do Estado aqui, sem precisarem de mexer uma mão para trabalhar.
Sigo caminho.
Finalmente viro à esquerda para a rua cheia de árvores, o cheiro a internacional já paira no ar. Em frente, o edifício das Nações Unidas bombardeado de câmaras de vigilância. À direita, a Deutsche Welle. Minha querida DW (graças a ti, Julia, não me esqueço! Danke!!!).

A paixão pelo jornalismo parece tão evidente naquele momento que, quando associada àqueles ataques de orgulho que este país longínquo tanto me dá, fico completamente arrepiada. Com os phones nos ouvidos e milhares de estrelas no céu limpo lá de cima, deixo a bicicleta escorregar para debaixo do edifício até chegar ao parque de estacionamento... de bicicletas. Tranco a minha e despeço-me por umas horas.

Para chamar o elevador é necessário o cartão da casa. Já tenho um: diz o meu nome, tem a minha fotografia, com a designação de "freie Mitarbeiter" e um prazo de validade até Maio de 2009. Entro na gigante e labiríntica Deutsche Welle, o caminho para a redacção portuguesa é automático, mas agora algo é diferente. É noite, não vejo o Reno com nitidez, apesar de tão perto. As luzes iluminam o parque que separa o edifício da água, qual paraíso.

Estou de facto sozinha na redacção, sou responsável pela emissão da manhã desse dia.
Fico na sala dos colegas Machava e Martins, muito sui generis. Na mesa do Martins, a frase emoldurada que tão bem espelha a personagem jornalística: "Dr. Martins, tarefas impossíveis executam-se imediatamente. Milagres levam um pouco mais de tempo."

Abro as janelas, acendo a televisão na CNN, abro a Lusa e as agências de notícias alemãs, inglesas, francesas, espanholas. Sugo notícias que chegam frescas a cada instante, ouvindo simultaneamente as emissões dos últimos dias para estudar os temas que a semana não me deixa apanhar com decência.

Aos poucos formaliza-se o meu texto com as minhas notícias. "BREAKING NEWS: Quake shakes Taiwan" assusta-me, repenso a ordem do que já escrevi, leio para me fazer companhia e para aquecer a voz de madrugada. Lá fora, sem dar conta, o dia nasceu. Ainda não são 5 da manhã.

Dez minutos antes da emissão das 07:30 sigo para o estúdio, no outro lado do edifício labiríntico. Está lá um técnico que não entende a minha língua, por isso eu tenho de entender a dele para qualquer imprevisto. O estúdio é grande, tem um relógio imponente, muitos botões e ecrãs. Sento-me em frente ao microfone, ao lado a Internet para qualquer outra Breaking News em directo (felizmente ainda não fui apanhada de surpresa), ao fundo o vidro que me separa do técnico e no centro da sala uma antena com uma luz vermelha pronta a acender. O coração bate mais depressa, bebo uns goles de água meia a tremer. 07:29:56, 07:29:57, 07:29:58, 07:29:59... e no instante em que bate as 07:30:00, bate o jingle "Deutsche Welle... noticiário". A luz vermelha acende-se. A minha luz vermelha.

"Bom dia..."

O resto vai saindo, fico absorta entre o microfone e o papel. Não me recordo de nada e luto contra uma voz trémula que ao fim de 5 dias já está bem mais habituada.
Quando consegui controlar a voz, sobrou-me espaço para saborear a sensação: estou, de facto, "em directo dos estúdios de Bonn, Alemanha", para rádios espalhadas pelo mundo fora, seja lá quem esteja a ouvir, do Brasil até Timor-Leste...

Aceno ao técnico para lançar os spots ou as peças seguintes, já que ele não entende que eu disse que o noticiário terminou. A minha meia-hora chega ao fim, levanto-me, passo pelo técnico, "Schönes Wochenende, tschüss". Como sempre, no jornalismo, muito trabalho para um produto que se consome tão depressa.

O trabalho regressa à redacção para pôr o programa online com as devidas legendas. Meros 20 minutos. Aí o sol já vai alto... Sigo com sono até à bicicleta, destranco os cadeados e pedalo automaticamente o caminho de regresso, sonhando com a minha cama. Quando chego, restam-me ainda umas energias para comer uns cereais no terraço ao sol. E aí sim, salto para a almofada com sensação de dever cumprido. Mas há que dormir depressa, que fim-de-semana só vem de cinco em cinco dias e é para ser aproveitado.

14 maio, 2008

Globalização individualizada

Shannon é uma jovem muito querida, norte-americana de Wiscounsin, que trabalha aqui para a TravelTrex há dois anos. A cada dois fins-de-semana vai visitar o namorado inglês a Londres. Conheceram-se no Mundial 2006 aqui na Alemanha e namoram desde então. Na semana passada contou-nos que vai casar no fim deste mês. Vão encontrar-se na Dinamarca, país europeu que mais facilita os aspectos burocráticos para dar o nó entre estrangeiros e que disponibiliza de imediato todos os papéis em inglês. A família, que descobriu o segredo apenas há uns dias, virá de Inglaterra e da América. Dia 1 de Agosto, o novo casal muda-se para os Estados Unidos.

22 abril, 2008

Comboio - 2

Mero cenário de dias bonitos e compridos. Acordo antes das sete da manhã, mas o sol já vai bem alto e o céu está azul. Há muitos meses que não sabia o que era estar antes das oito horas na rua, por isso nunca me tinha apercebido do movimento.
Criancinhas de seis e sete anos, com mochilas maiores do que elas mesmas, vão sozinhas ou em grupo para a escola, a pé, sem medo. E sem medo também os pais que os deixam ir.
Bicicletas passam muitas. Passam assim a correr, dão-me saudades da minha correria a pedalar.
E lá vou eu a caminhar durante 7 minutos à estação, música nos ouvidos, mãos fora dos bolsos, que o frio já não exige tanto.
Hoje entrei numa carruagem mais ao fundo da estação, com esperança de que fosse mais vazia. O batalhão de gente era o habitual, e é engraçado como vou reconhecendo pessoas todos os dias. Os tais malucos que fazem este percurso diário.
Como sempre, esse mesmo batalhão entra e divide-se entre o piso de cima e o de baixo. Mas desta vez, por algum motivo, todos os que começavam a subir ou a descer as escadas, voltavam para trás. Olhei com a atenção que as 8 horas da manhã permitem: ah, primeira classe. Costuma ser só um cubículo, mas desta vez era uma carruagem inteira. Então o batalhão deixou-se ficar no átrio em pé, ao pé da porta, porque é proibido ocupar a primeira classe. Espreitei, as cadeiras eram largas, tudo tem mais espaço, tem um ar acolhedor. Quase todas as cadeiras estão vazias, mas os alemães - e eu - mantêm-se todos de pé, à entrada. É proibido.
Todos os dias, naquele que é um comboio regional e por isso o mais barato, não vejo um pedinte, não tenho receio de nada, tudo cheira a banho matinal, só vejo óculos e jornais abertos. Computadores portáteis abertos, um por cada 4 pessoas.
Onde está a primeira classe, a digna de ocupar a outra carruagem?

Apesar de atravessar o semáforo vermelho, não me sento na carruagem da primeira classe. Sentei-me nas escadinhas, sossegada, o meu livro também aberto, naquele percurso de 18 minutos. E chegando a Köln Süd, saí para a segunda metade do percurso até ao trabalho.

09 abril, 2008

Um dia

escrevo um livro.

03 abril, 2008

No comboio - Episódio 1

Nesta aventura ferroviária diária Bona-Colónia que agora começou, presumo que virão outras histórias... aqui fica a primeira:

Entro com os phones postos nos ouvidos, música bem baixinha, para não incomodar. Eles são tão caladinhos que qualquer coisa os enerva - e há inclusive avisos nas janelas a pedir para não exagerar no volume...
O comboio está lata de sardinha, apesar dos dois andares. São quase 19 horas. Pela primeira vez não tenho lugar sentada, então fico de pé no corredor entre os dois pisos, mão no corrimão das escadas. Reparo que vão dois homens com os seus 50 anos, muito animados ao meu lado, também de pé, com garrafas de cerveja na mão.
Quando percebo que estão a meter conversa com o rapaz que estava sentado ali no meio, presumi que a brincadeira podia estar quase a cair em cima de mim e, não tirando os phones dos ouvidos, desliguei a música para ouvir a conversa.
- Está com ar de quem vem do trabalho.
- É verdade.
- E para onde vai?
- Bonn.
- Não me diga que é outro maluco que vive em Bonn e trabalha em Köln.
- É verdade... são só 20 minutos, de carro não há estacionamento, de bicicleta sai longe. Pagam-me o Jobticket, por isso não pago nada, de carro seria uma despesa.

(São sempre tão matemáticos, estes alemães)

- Muito bem. Mas tire lá essa cara séria. Precisava de uma cerveja, você.
O rapaz estende a mão e o homem entrega-lhe a garrafa dele. Brindando com o outro homem, gritam perante a lata de sardinha em redor: "Prost!"

(Ao contrário do ambiente matinal, a esta hora todos sorriem.)

Com o silêncio que se impôs, eu espetei os olhos na janela e bloqueei o olhar, como quem vê o infinito. Pura distracção. Mas o homem mais castiço, sempre atento, mete de repente a cabeça dele à minha frente para me assustar.

(Se faço de conta que não vi, passo por antipática, e nem sequer posso fugir dali. Além disso está tudo olhar para aquele festival...)

Então sorrio...

- Olhem, ela tem covinhas! - grita ele a apontar para mim.

... E fico corada.

- A menina anda na escola?
- Eu não!
- O quê, não me diga que já trabalha?
- Já!...
- Com esses 16 aninhos?

(Oh não, mais um que acha que nem tenho idade para pedir cerveja. Já basta nos bares, no banco, até no supermercado... Raio de cara de bebé!)

- Eu não tenho 16 anos...
- Não acredito. E trabalha em quê?
- Numa agência de viagens.

Vira-se para o rapaz, que tinha dito que era jornalista técnico (ainda não percebi o que isso é) e volta a falar com ele. Ufa, já me deixou sossegada, pensei. Quando um minuto depois se volta outra vez para mim e diz qualquer coisa que, com voz de provinciano (como ele se auto-designou) e voz atropelada pela cerveja, eu não percebi.

(Por mais tempo que se viva aqui a ouvir e falar alemão, a toda a hora surgem palavras esquisitíssimas.)

Tiro os phones como quem nem ouviu o que ele disse: “Bitte?”

- Olha ela, está a ouvir música! Dei um coiso desses, Ipod né?, à minha filhota, que também tem 16 anos. Deixe cá ouvir essa música.

E lá estou eu no comboio-lata-de-sardinha, a esticar o phone para o senhor ouvir, com não sei quantos olhos postos em nós! O rapaz vai-se rindo…

- Sim senhor, boa música. Lkdlkjlakjdadlajdlaks? (Mais uma qualquer pergunta que não percebi.)

- Bitte? Não sei o que isso significa, é que eu não sou alemã…

- NÃO????

E pensei para mim, já deves ter bebido muito, para nem teres percebido isso, homem…

- Não, sou portuguesa.

E aí, o típico: vem o outro senhor todo entusiasmado dizer a frase do vira o disco e toca o mesmo: ah eu infelizmente não falo português, mas podemos falar espanhol!

- Você pode falar espanhol, mas eu respondo em português :)

Ele desiste.

Depois o outro homem castiço olha para mim de alto a baixo, cachecol e casaco em dia-de-neura-cinzenta.

- Credo, você consegue respirar com essa roupa toda?

- Consigo pois. Sou portuguesa, para mim nesta terra está sempre frio.

- Ah, pois é. Mas devia usar uma coisa mais leve. Eu comprei agora uma t-shirt do Hard-Rock em Berlin para a minha filhota, espero que ela goste. Também ficava contente com uma t-shirt do Hard-Rock?

- Quando tinha 16 anos, sim.

- Mas que idade tem você afinal?

- VINTE E DOIS!!!

- Não pode ser!!

- DOCH!!!!! (a palavra que mais gosto no alemão, para me dar razão!)

E sorri-lhe, começando a descer as escadas. Atrás de mim uma fila de gente para sair, depois do anúncio Bonn Hauptbahnhof.

- E a nossa conversa acaba assim?

- Desculpe, mas agora tenho do de ir…

E saí do comboio com a lata de sardinha a desfazer-se, voltei a pôr os phones, mãos nos bolsos, um leve sorrisinho de conforto sob o céu cinzento lá de cima.

27 março, 2008

A Pátria que tanto me confunde


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Nunca há dinheiro para o essencial, mas arranjam-se sempre uns trocos para o acessório - é esse o segredo da miséria de Portugal, um país onde ainda há milhares de crianças que acordam e adormecem com fome, e onde, para regatear o leite escolar em falta, os pais têm que ir bater à porta do centro da irresponsabilidade, vulgo "sede do agrupamento". Se os pais pudessem escolher a escola pública que querem para os seus filhos, não seria necessário sequer gastar-se dinheiro com a avaliação dos professores. Mas Portugal é anti-escolha: todas as leis são feitas de modo a que a única escolha possível seja entre a resignação e a sua irmã afoita, que dá pelo nome de cunha ou esperteza saloia. Quem tem "conhecimentos", consegue mexer os papéis, quem não os tem, é melhor ficar sentado e pensar noutra coisa. Os "papéis", em Portugal, são uma entidade mágica e autónoma - como os automóveis, que em caso de acidente, se diz que "matam", pelos vistos sozinhos.
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Inês Pedrosa, in EXPRESSO

Bis, bis, bis, e por aí fora...

09 março, 2008

Homesick


"As saudades de casa não dependem do tempo que estamos longe".

Há dias em que a intensidade dos projectos no estrangeiro é tão grande, que a saudade vale a pena. Há outros, seja na primeira ou na trigésima semana, em que a saudade é tão tão forte que nos parte aos bocadinhos. Aí desejamos ter um quarto e uma cama bem pequeninos, para aconchegar a angústia. E fechamos os olhos, para não ver o cinzento do céu lá de fora.
Custa mais quando sentimos a decisão sobre nós. Ninguém me obrigou a vir para aqui, me pediu sequer. Vim porque quis - e porque pude...
Agora o lema não pode ser a lamentação ou o medo. Tento a cada manhã repetir a mim mesma: "Vamos começar por baixo, trabalhar muito e sonhar demais". Afinal, o meu grande dilema está em boa parte solucionado. Descobri uma direcção: a direcção do internacional, da Europa, do Mundo. Não sei se quero as notícias acima de tudo, mas pelo menos já sei que não quero as notícias locais ou mesmo nacionais. Também não sei se quero a comunicação para a venda a substituir a comunicação como dever público de informar. Mas é a comunicação para a venda que me compra o trabalho com maior valorização.
O que eu queria mesmo era levar a minha mente de volta para a escola, pois aí não pensava em dinheiro. Nunca pensei que se tornasse nesta obsessão - e ao mesmo tempo uma obsessão obrigatória. Além disso, nos tempos da escola nem eu nem ninguém pensava nesta crise desta forma. E já não é uma crise económica: é uma crise social, uma crise existencial elevada à escala de um País com uma linda História.
É uma frustração dificílima de descrever. Porque o que eu mais queria era caminhar para o meu trabalho sobre a calçada portuguesa, subindo e descendo as colinas da minha cidade. O que eu mais queria era ter a minha Família por perto e um céu azul por cima. Queria rever os sorrisos do meu povo, as melodias do meu Fado, a maresia do meu Tejo, os sons da minha Língua. A língua mais bonita do mundo (não preciso de conhecer as outras).
O que eu mais queria era ser valorizada no meu País, por ter feito o politicamente correcto: terminar a escola com sucesso, ter o curso que queria na Universidade e tornar-me numa licenciada com vontade de trabalhar e de evoluir.
Mas parece que muito poucos estão a reconhecer o nosso valor. Não é justo. Um país já degradado está a mal-tratar os jovens que são o seu futuro. Está a deixá-los escapar e um dia pode ser tarde para querê-los de volta. Mas não é só nisso que os Portugueses não sabem pensar a longo prazo, não é?
Somos tantos, que devíamos juntar-nos em nome do que valemos.
Equanto o comodismo nos vai vencendo, eu vou-me integrando na sistematicidade germânica. Hoje é engraçado, amanhã é cansativo, volta a ser um exemplo a seguir, de repente farta e regressa ao estatuto de orgulho.
Vou balançando constantemente aqui na Europa Central, qual emigrante que sonha voltar à terra por uns dias. Só para estar junto das raízes, olhar para o mar e comer umas sardinhas.
Saudades que têm de valer a pena.


29 janeiro, 2008

Nada de especial

É perfeitamente nítida na memória a admiração que sentia por aquelas histórias contadas. Desde a amiga da irmã que estudava na Escócia, e que eu ouvia sempre com olhar de criança a falar ao telefone em inglês, "que máximo"! Outros amigos, colegas, conhecidos foram fazendo passar a mensagem de terem ido "para fora" trabalhar ou estudar, tinham arranjado namorados e namoradas, vinham "cá" no Natal.
Lá fora é tudo tão longe, tão difícil, pensava eu. Isso é coisa para gente grande.
Até hoje ainda não sei definir como é que eu também fui "lá" parar, mas acho que já desisti de procurar resposta. Foi e ainda é mágico por isso mesmo.
E agora que estou cá, "lá fora", tão longe, parece que não é nada de especial. Quando algo se conquista e se repetem conquistazinhas pequenas a cada dia, tornando a aventura numa nova rotina, parece que uma força idiota nos vai dizendo "vês?, não foi assim tão difícil" e por isso aquilo que eu via como inalcançável afinal já foi conquistado. Venha outra coisa.

NÃO, não é assim que deve ser. E ainda bem que me resta a lucidez para não deixar de valorizar cada dia que tenho deste lado. Seja na West ou na Ostdeutschland. Porque a verdade é que às vezes ainda bloqueio quando, nas arrumações do quarto, oiço vozes da cozinha que me lembram que na minha casa não há mais ninguém que fale a minha língua. A televisão que me ajuda a adormecer fala em alemão, as pessoas na rua falam alemão, tudo é estrangeiro à minha volta.
E é tão boa a sensação. Não só a de estar cá, mas sobretudo a de ter tido a oportunidade de voltar. Voltar a delirar com os escassos metros que separam a minha casa da paragem do autocarro, em que caminho com as mãos nos bolsos, a cabeça agachada, o vapor que sai pela boca a chocar com o frio. "Talvez neve este Carnaval, dão um grau para sábado, QUE BOM."
É proibido subestimar as conquistas diárias que aqui se têm. Mesmo que à minha volta as vivências de outros estrangeiros sejam semelhantes, porque na verdade elas cometem a mesma falha e sabem-no.
Estar aqui é um privilégio, e não me vou permitir nunca deixar de ser grata por isso.

14 janeiro, 2008

Guten morgen!!

9:18 horas da manhã, há ruído em casa.

Eram 7:30 quando o despertador tocou. É dia de aniversário e colei papéis pela parede com votos de felicidades. Ainda estava bem escuro lá fora, mas havia mais pessoas na rua do que vejo agora. Crianças, bicicletas, carros. Ao fundo, a torre da Deutsche Post que me orienta para o estágio rodeia-se de luz azul, cinzenta e cor-de-rosa, adivinhando o nascer do sol por entre as habituais nuvens…

Banho tomado a ouvir uma qualquer rádio alemã, o dia nasce finalmente e às 8:30 tocam à campainha. O senhor para a instalação da Internet disse que viria entre as 8 e o meio-dia. Pois em Portugal teria vindo provavelmente ao meio-dia e qualquer coisa, pelo que por breves instantes ainda me interroguei “quem será a esta hora?”. E ali vinha ele todo lançado a subir os três andares, já a dizer bem alto e com um sorriso “schönen guten morgen!!” como quem se sente realizado quando chega o expediente numa segunda-feira de manhã, bem cedinho.

Entretanto estão dois pãezinhos de sementes, typisch deutsch, no forno. Põe-se roupa da máquina a secar, abrem-se presentes, seca-se o cabelo.

E às 9 horas em ponto, como combinado, chega a Gianna, alemã bem loirinha, para estudar com a Julia no dia do seu aniversário. Quão interessante seria imaginar isso na minha terra – estudar às nove horas em ponto, enquanto se toma o pequeno-almoço e se recebem mensagens de parabéns.

E na volta, nem há compromissos profissionais para hoje. Apenas aqui é assim. A luz é pouca, o ritmo é acelerado, o dia está planeado. Engraçado como entramos nos hábitos de um país assim, tão depressa.

Bom dia!


11 janeiro, 2008

Leipzig X Bonn


Começou a minha nova aventura. Não passei por Mallorca para aterrar em Leipzig; fui direitinha a Köln-Bonn. Três horas de transição, algures no ar, já entre loirões e moreninhos, que vi dissiparem-se depois de recolherem a bagagem. Mais uma vez lá estava eu, com 37 Kg de roupa quente e tudo o que é imprescindível para viver mais uma vez sozinha durante uns meses.

Não fosse a Internet e nada disto teria sido possível. Desde a candidatura ao estágio até à procura de casa. E a Julia das fotografias que vira já estava ali, à minha espera no aeroporto. Pareceu surreal, ao fim de tão pouco tempo, voltar a ouvir esta língua-de-tostas-trincadas em todo o lado, na rua, na rádio, na minha colega de casa com quem desde logo discuti as diferenças óbvias entre West- e Ost- Deutschland.

Só faço questão de descrever a primeira impressão pois a experiência já me ensinou que a entrega à rotina acaba por fazer esquecer aquilo que chamou a atenção em primeiro lugar.

Falta ainda tempo para que a Alemanha pareça mais homogénea – mas bem depressa já ela anda. BMW’s, Mercedes e Volkswagen são a constante que Leipzig não tinha. Até as bicicletas são mais arranjadinhas, bem como quem as pedala. Cabelos apanhados, jovens altas e bonitas, preços consideravelmente mais altos. Nada de críticas, apenas diferenças. Um centro muito simpático, andar a pé para todo o lado, pessoas que de certa forma ainda me são familiares. Entrar num restaurante como quem sai do Inverno e entra no Verão, mesinhas ordenadas com velas acesas em cada uma. Chegam amigos, voltam os apertos de mão de quem me apresenta, novamente, como a “Dê-bô-rrá”. Venham cervejas!!

Preparo-me para trabalhar à séria dentro de dias, ali pertinho do Reno, o amigo do Tejo que vou conhecer ainda hoje e que certamente abafará a saudade de água que Leipzig tão ferozmente alimentava.

No meu quartinho, as minhas coisinhas, as minhas fotografias, aquelas que em Lisboa não são necessárias.

Frio? Quanto baste, para quem acaba de aterrar num novo lar.

E, claro, acordar antes das nove da manhã para aproveitar as poucas horas de sol.

Tschüss!


05 janeiro, 2008

Lá voltar

Resoluções do novo ano? Não há forma de as fazer. Inflação, proibido fumar, saldos, dietas pós época festiva. Se é sempre a mesma coisa, não especulo, afinal, os anos fazem-se de meses próprios, com semanas fugazes mas distintas, dias de sol e de chuva, horas agradáveis e melancólicas.
O grande mês de outrora foi o meu Setembro, Julho revelou-se revelador, Abril detesto-o, Maio nem sempre tem a luz do Tejo, Dezembro está cada vez mais cansativo e cínico.
Janeiro? Não gostava dele. Era frio, escuro e chuvoso. E na volta, quem poderia dizer que me apaixonaria pelo mês do Beyerhaus às segundas-feiras, da fuga da biblioteca em hora de nevão, da bicicleta gelada, do corpo tapado por todo o lado deixando apena a retina estrategicamente de fora. Janeiro, o mês dos aniversários de meio mundo, aqueles aos quais infelizmente faltei (mesmo estando presente), compensando comemorações na festa de anos de um holandês, numa festa de pátria, noutra de fim de semestre.
O Janeiro de 2008? Esse estava escrito numa tal ficha de candidatura, como quem pede um lugar num estágio concorrido seja em que mês for, mas "por favor, o mais depressa possível". E assim voltou a resposta, recordando a rigidez loirinha com aquele "início a 15 de Janeiro, fim a 14 de Março", até com hora marcada...
E assim se planeou a resolução do arranque do novo ano, muito antes das passas, das badaladas, sequer do Natal.
Porque levando os dias com calminha, caseirinhos como tanto gosto, memorizando a rotina, os petiscos e as conversas lisboetas que tanta saudade me trarão, assim me preparei para o 9.º dia, em que um novo avião me levará para uma nova aventura, outra vez por minha conta. Desta vez por vontade própria e, talvez por isso, mais assustadora numa certa perspectiva.
Os medos são os mesmos do herói Setembro, mas agora mais ténues. Uma responsabilidade acrescida pelo factor segunda-a-sexta, horário laboral e rigidez germânica.
Uma nova cidade que só conheço de mapa, com um Tejo emprestado, uma família substituída por uma jovem alemã, estudante de Direito, que conheci pela Internet. Uma equipa de trabalho que visualizei por fotografia, eléctricos quentinhos que me levarão onde preciso, neve (esperemos) a cair no dia-a-dia, derreter em casa, num quarto novo.
Desafios e medos, esses sim, vamos ter de (re)solucionar.
Boa sorte!

01 janeiro, 2008

Para 2008

"venha por favor SAÚDE,

porque o resto depende de nós".

23 dezembro, 2007

Nosso

O encanto do nosso Inverno não é a neve a contrastar com as casas quentinhas, mas sim o sol longínquo que se vê pintado num céu quase sempre azul. No nosso Inverno vamos a correr tirar as roupas quentes, muitas das quais só se compram nos sítios realmente frios, e enfiamos luvas e cachecóis, chapelinhos bonitos e botas de pêlo sobre as calças. É bom andar assim aconchegadinho, poder dizer "hoje está mesmo frio", fugir aos desalinhos da calçada portuguesa e parar na esquina para comprar uma dúzia de castanhas quentes.

No nosso Inverno sentamo-nos no sofá cobertos de robes, a árvore de Natal cintila ao nosso lado e só apetece ficar em casa. O nosso Natal, esse, é quase igual em todo o lado. O mesmo contraste entre os que têm e os que não têm, os mesmos clichés de Dezembro, os mesmos sacos resultado de encontrões, à pressa, sem pachorra e de última hora. Os mesmos conflitos dentro das famílias, a noite aqui e o dia ali, todos se cruzam entre casas, pelo país e pelo mundo fora. O porquê do Natal, poucos continuam a saber.

Brinde-se no Natal, nos outros dias festivos ou não, neste ou noutro mundo. No nosso País os brindes têm o sabor de um dia de cada vez. E na verdade nós é que sabemos. Pois brinda-se:
- Saúde!
E com ela, esperamos todos cá estar para saborear este céu azul com sol de Inverno, a deixar brilhar a nossa Lisboa melancólica. Com saúde ficam na nossa memória as imagens da nossa Terra, do nosso Natal e do nosso Inverno, aquelas que tanto ajudam a ir e voltar para longe...

14 dezembro, 2007

A caminho

Agora ela gosta de ir, porque habituou-se a ir de repente, a ir andando, a ir embora.

A mesma que não gostava de estar por sua conta, a não ser andando a pé pelas ruas inclinadas de Lisboa, de repente passou a gostar de ir, sem grande aparato.

Não que se tenha habituado a fazer as malas. Continua a não saber como levar tudo o que lhe é importante. Até porque o que é mais importante não conhece aquele “ir”. Apenas embarca psicologicamente com ela...

Descobriu que gosta de ir para o norte, onde o vento e a chuva a obrigam, como sempre diz, a "aconchegar-se no cachecol" para pensar nas suas conquistas. Lembra-se de como foi feliz com temperaturas negativas a baterem-lhe nas faces branquinhas, sem sol.

Já lhe disseram que é próprio dos caranguejos. São caseiros, familiares, e a dada altura resolvem ir andando. Ou voando, se ela for mesmo um passarinho... Talvez ela tenha alcançado essa "altura", no tempo e em si mesma, de ter a vontade grande de ir para descobrir, partir e depois regressar, ver para depois contar. Mas essa é a mesma altura em que os receios se multiplicam. Porque à medida que se habitua a ir, mais normal se torna fazer as malas, e mais difícil passa a ser deixar cá tanta bagagem...

27 novembro, 2007

"Sou um Homem rico"

Tudo, tudo, tudo interiorizado. Uma marca a não esquecer.
O semblante carregado não impediu o manifesto bonito da união, a vontade de estar presente. As lágrimas, adiei-as para tentar prestar o apoio que se presta em alturas como esta, que nunca tinha vivido. São tão bonitos, os laços de sangue verdadeiros.
E a Amizade ali entregue, em abraços apertados e palavras de força, fazia esquecer a escuridão fria e as cores negras dos casacos.
Fala-se de tudo, mas não há conversa de ocasião. Apenas ajudamos a descarregar o peso que se abate sobre nós.
A amizade encontra ali contornos que não se vêem tão nítidos em Natais, nem em aniversários, nem em telefonemas e encontros esporádicos. Triste ironia, mas ao mesmo tempo curiosa e gratificante. É sentir que a idade fortifica tudo aquilo que vi com agrado.
As lágrimas acabaram por não resistir a saltar. Bem-vindas.

O mais bonito foi ver a união de três Irmãos, sobrevivente a todas as adversidades que não conheci, cujas histórias me chegaram turvas. Como se sentisse que não lhes pertencia; que aquela juventude, fora uma Guerra que todos os dias conheço um pouco mais por me mostrar de Quem vem a minha educação, aquela juventude não pertenceu ao meu mundo, e por isso fica para eles os três.
Mesmo da tua História ficou tanto por contar, que anseio ler as linhas que tão dedicadamente escreveste para um dia conhecermos.

Não contávamos com isto, mas talvez tu o tivesses sentido. Desculpa se não o percebemos. Mas creio que não faz mal, pois vai estar sempre presente em nós o teu sorriso, as tuas duras críticas em tom de graça, os teus grandes olhos azuis, a tua memória, a teu cumprimento "minhas queridinhas" com a pronúncia do norte que tanto orgulho te dava.


Deste conta da beleza? As raízes do Porto, o "filho mais velho" de Torres Vedras, "o do meio" de Lisboa e "meu mais novo" do Brasil, ali juntos para ti. Temos de ver a beleza dos momentos tristes. Se não deste conta, eu digo-te: foi bonito, bonito, bonito, vê-los caminhar abraçados ao som dos passarinhos, num dia lindo de sol de Inverno. Foi lindo senti-los relembrarem-te, com tanto no seu interior que desconhecemos, a manifestarem tão livremente o orgulho do Pai que foste.
Agora... agora, o teu "Anjo da Guarda" não te perdeu. Nós é que ganhámos outro Anjo.
Saudades de todos aqueles que te fizeram sentir rico.


[Este é um texto só meu e dos que lá estavam. Está aqui porque precisava de gritá-lo.]

20 novembro, 2007

A sociedade vista pela praia

Escrito há dois anos, na altura do fim-do ano... hoje reli-o no antigo blog. Achei graça re-publicar o que escrevi na altura:

O silêncio que caracteriza o cair da madrugada na minha casa urbana, a um domingo, torna-me muito vulnerável a pensamentos nostálgicos. Desta vez tive um empurrão do pequeno ecrã, sintonizado no canal GNT.Tenho saudades do Rio de Janeiro.

Recordo as particularidades da minha visita e constato hoje que uma turista de 15 anos nunca poderia absorver a filosofia de vida de quem vive numa "cidade com uma floresta dentro dela e a água banhando ela".

Nesta noite de domingo consegui amadurecer o meu olhar. A procura obsessiva pela "estória" e certamente o conhecimento mais do que geográfico do terreno desta cidade tão peculiar permitiram ao jornalista responsável criar uma reportagem que eu arriscaria caracterizar como totalmente verosímil, e conquistadora por isso mesmo.

É perfeitamente legítima a sinédoque de tomar a praia como um espelho fidelíssimo do espírito carioca e em parte até brasileiro. O recorte da costa do Rio de Janeiro traduz de imediato a discrepância entre o muito pobre e o muito rico, mas simultaneamente a defesa pela igualdade entre todo o ser humano. Quer da favela que escorrega pelo morro, quer da mansão que nele encaixa com perfeição e segurança, é possível avistar a praia, admitindo com esse olhar que ela pertence a todos na mesma proporção.

Em todo o caso, e tal como na vida, a diferença de facto existe. A comunidade gay dirige-se para uma praia específica, onde os sorrisos parecem ser os mais sinceros. Um rapaz conta energicamente a sua história de vida. Ainda um "teen", tem já hoje o familiar peito de silicone, o cabelo comprido, o jeito feminino... mas a tristeza conformada de quem não tem dinheiro para mudar de sexo. Ao seu lado, a mãe declara com veemência: "Se não for eu a apoiar ele, ninguém mais vai apoiar". Ambos sorriem.

Também existem praias pequenas, escondidas, elitistas e sossegadas. Numa delas medita aquela jovem senhora que procura o seu interior enquanto contempla o mar com um olhar lacrimejado. A euforia do brasileiro não impede de todo a existência de momentos de solidão e de perda de identidade. E no entanto, mesmo na praia ao lado, onde a concentração humana quase provoca a asfixia e a surdez, uma mulher elege a praia como o único tesouro que vale por si mesmo, já que a sua vida está resignada ao infortúnio dos seus limites: "Para quem sabe que não vai conseguir ter nada nunca, vale mais deixar de sonhar, né?", lamenta. [Mas lamenta com um sorriso, como que dizendo em silêncio "ter vida vale mais que tudo isso". Além disso, "a gente já 'tá sendo filmado aqui, já tem alguma coisa de diferente p'ra alegrar nosso dia". Sim, o pobre brasileiro sabe ao que dar valor, e consegue, apesar de todos os contratempos desta contemporaneidade, ser optimista.]

Assim vai o Homem decalcando as suas diferenças sobre as baías que a erosão foi moldando. Mesmo onde o areal parece ser partilhado por todos é possível que a consciência de cada um determine que num "posto" estejam as "patricinhas" e os "mauricinhos" e que num outro fique "a galera que fuma maconha". Graças ao encontro de classes no sítio certo, a verdade é que um casal, visivelmente feliz, contava que o seu casamento teria começado num pedaço daquela areia. Casados há 20 anos, podem dizê-lo: "Estamos na praia até hoje".

Na praia do Rio de Janeiro a democracia é omnipresente. Ainda que a cidade mantenha uma íntima relação com a criminalidade, diz o democrata que naquelas praias "a única violência é a pequenez do biquini". Turistas francesas são mal vistas pela prática do "topless", porque naquela parte do hemisfério terrestre só o "bum-bum" é que se mostra.

A opinião é unânime entre a multidão que se veste de branco na última noite do ano. "A areia é a democracia. Aqui o ser humano está reduzido a um calção e a um chinelo". Boas entradas, cidade maravilhosa. Saudades.