30 julho, 2009
Da "observadora compulsiva"
Vi um mendigo dormir numa sombra na Praça de Espanha, a meio de uma tarde quente de Verão.
Vi Lisboa pela ponte 25 de Abril.
Vi muitos turistas no metro. Tive vontade de ir lá dizer-lhes "é linda a minha cidade, não é?"
Vi jornais desportivos a tapar os quiosques e cansei-me da gripe A, mais do que do Sócrates.
Vi linguadinhos, choquinhos e lulinhas nos menus dos restaurantes.
Ouvi muitos palavrões em conversas feias, numa esplanada em Cascais.
Ouvi a conversa toda de uma senhora que, no autocarro, falava com alguém ao telemóvel com alta voz.
Vi mais pedintes do que estava habituada a ver.
Comprei a Cais.
Redescobri a maresia.
Calcei as havaianas e senti o cheiro a sardinhas assadas sobre a calçada portuguesa.
O sabor de estar em casa - esse ninguém mo tira.
16 julho, 2009
Déjà vu
Não pensei voltar a sentir o mesmo que sentimos todos, de mãos dadas, em Julho de 2007, no Kulturbundhaus em Leipzig, ao som de Oasis. Uma alegria tão grande, uma saudade tão antecipada. "I feel so happy I could cry".
Estes cinco meses e aquele ano tiveram as suas diferenças, claro. Sobretudo pelo peso institucional. Eramos 600 estagiários num auditório gigante na Place Flagey. Sentíamo-nos deslocados entre aquela roupa formal, não eramos nós e tínhamos sede de soltar a naturalidade. Todos nnos sentíamos especiais e a maioria de nós até inferiores. Qualquer um ao nosso lado teria uma experiência de vida aparentemente mais interessante do que a nossa. Mas no fundo todos nós tínhamos razão para estar ali: fomos 600 escolhidos entre 6000 pré-seleccionados.
Daí a sede de absorver a experiência. A Comissão Europeia, aqui, passou a mero pretexto. Pano de fundo. Fundo para críticas e piadas. Como se nós fossemos melhores que todos eles juntos, fixos no seu contrato. Todos mostrámos garras de trabalhar, de ver, aprender e retirar o melhor desta oportunidade de sonho: entrar nos bastidores da Europa. Bruxelas não tem nada de Bélgica. Conheci uma única pessoa natural de Bruxelas. Bruxelas é uma panóplia de línguas, são aviões, badges, eurocratas, culturas que nos fazem pairar na ambiguidade entre choque absoluto e essa idealizada... União.
Tal como em 2006, saio daqui com culturas novas no coração e no sangue, sob forma de nomes. A incerteza quanto ao futuro é universal. Sabemos apenas que queremos manter-nos unidos. União Mundial. União Europeia. União Umbilical.
10 julho, 2009
O estado do país - por MST
- Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km.
Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.
- Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?
- Não, pára em várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de Lisboa; depois,pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.
- Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois volta para trás e entra em Lisboa?
- Isso mesmo.
- E como entra em Lisboa?
- Por uma nova ponte que vão fazer.
- Uma ponte ferroviária?
- E rodoviária também: vai trazer mais uns vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa.- Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!
- Pois é.
- E, então?
- Então, nada. São os especialistas que decidiram assim.
Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.
- E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a auto-estrada está deserta...
- Não, não vai ter.
- Não vai? Então, vai ser uma ruína!
- Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A exploração é que vai ser uma ruína - aliás, já admitida pelo Governo - porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justificar.
- E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?
- Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!
- E vocês não despedem o Governo?
- Talvez, mas não serve de muito: quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando era governo...
- Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem um TGV que já sabem que vai perder dinheiro?
- Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.
- O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?
- A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV.
- Como? Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de ter?
- É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade. Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás:
- E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?
- O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a uns 50 quilómetros de Lisboa.
- Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro da cidade, e fazer um novo?
- É isso mesmo. Dizem que este está saturado.
- Não me pareceu nada...
- Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca de 20.000. O que está a crescer são os voos das low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.
- Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum disponível?
- Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do Sul para a Europa: um sucesso garantido.
- E tu acreditas nisso?
- Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes o que é aquilo?
- Um lago enorme! Extraordinário!
- Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.
- Ena! Deve produzir energia para meio país!
- Praticamente zero.
- A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!
- A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.
- Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve para regar - ou nem isso?
- Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.
- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada?
-Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós fazemos mais e melhor. Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente:
- Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?
- Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora; depois, disseram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez.
Ela voltou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no assento. E suspirou:
- Bem, uma coisa posso dizer: há poucos países tão agradáveis para viajar como Portugal! Olha-me só para esta auto-estrada sem ninguém!
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02 julho, 2009
Do meu terraço
Converso com o norte e apercebo-me das diferenças. Frustra-me não poder mudar. A mentalidade, o sistema, as pessoas, a minha própria mente.
Tu que me persegues, questionas-me sobre o futuro. O futuro que a tua gente não gosta de viver... mas que te persegue. É uma peste.
Tinha saudades de momentos nossos, em silêncio. Só eu e tu, bafo de Verão, a recordar os segredos dessa adolescência.
Tentas proteger-me da verdade cruel sobre este mundo, como se fosse mais simples viver sobre cores. Se me esconderes, porém, nunca me vais abrir os olhos.,,
E será que eu queria tê-los aberto? Estava tão bem na minha inocência. Agora estou presa neste ciclo ambicioso e ambíguo. Forte e fraco. Demais para mim!
Fizeste-me esquecer que podia ainda ser uma adolescente; bastava querer. Não teria conhecido nada disto, disto para onde me acompanhaste, e assim seria tão mais simples.
"Conhecendo a gente quer mais, não conhecendo a gente se satisfaz".
Agora tens as expectativas demasiado altas sobre mim. Nós, estes tantos no mundo que fazemos conquistas à nossa escala, acabamos por ser tão fracos. E se tu sabias que eu não tinha força sobre mim mesma, por minha conta, sozinha, por que confiaste assim em mim?
O que merecias agora é que eu te passasse tudo para as mãos. Decide por mim, que eu não consigo.
Bafo quente que não me deixas respirar...
Vai chover,
de Verão,
de vida,
chora Verão e refresca-me que preciso.
21 junho, 2009
Um olhar holandês sobre a costa alentejana
Reacção a esta fotografia:
Na Holanda é assim:
trabalho trabalho trabalho trabalho trabalho
carreira carreira carreira carreira carreira
dinheiro dinheiro dinheiro dinheiro
- Comprar uma casa na Holanda
continuar a trabalhar trabalhar trabalhar trabalhar
fazer carreira carreira carreira carreira carreira
mais dinheiro mais dinheiro mais dinheiro mais dinheiro
- Comprar uma casa em Portugal
O que é que estás a fazer aqui???
02 junho, 2009
Sempre entre o cá e o lá
Por minha conta. Perigosamente me habituei a passar tempo comigo mesma e a baralhar ideias sobre o que me rodeia.
O Berlaymont fez parte da minha rotina durante estes 5 meses que, de tão rápido que passam, parecem já ter acabado. Tanta gente, tantas línguas, tantas folhas de informação, tantos programas diferentes. É tão simples fazer amigos aqui. E tão genuíno.
Dizia eu no início que Bruxelas tem vidas que inspiram. O meu sangue outrora caseiro tem tanta, tanta sede de conhecer mais agora. E nunca o paradoxo foi tão grande. Quero voltar a conhecer cidades desde o início, começar vidas novas em sítios novos. Quero infiltrar-me na rotina de Dublin, quero passear na Escandinávia, explorar o Canadá, deixar-me convencer pela Austrália e quero cumprir o meu sonho em Nova Iorque.
Onde está o paradoxo?
Quero ir para Casa.
20 maio, 2009
19 maio, 2009
O negativo do centro
By Simon Taylor
18.05.2009 / 13:35 CET
Officials hope to re-open the building on Tuesday.

A fire that broke out today in the European Commission's headquarters building, causing the evacuation of thousands of staff, is now extinguished, the Brussels fire brigade declared this evening. The fire broke out shortly before 1pm and was put out shortly before 5pm.
Francis Boileau, spokesman for the Brussels fire brigade, said the fire started in the basement of the Berlaymont and spread up an internal shaft. It triggered an automatic alarm on the 13th floor of the building where European Commission President José Manuel Barroso has his office.

Boileau said that the fire had ignited roofing materials on the top of the building and caused the smoke which could be seen emerging from the Berlaymont.
Johannes Laitenberger, European Commission spokesman, said that Barroso had been evacuated down the emergency stairs.
The surrounding roads were closed to traffic, while 40 firefighters tackled the fire. The firefighters are still examining the building with thermal cameras to check that there are no remaining hotspots that might cause a fire to break out again.

Stephen Hutchins, director for security at the Berlaymont, said that the fire alarm had been triggered at 12.50pm. Security personnel checked to make sure that the alarm was genuine and an order to evacuate the building was given at 13.05pm.
Laitenberger said that the evacuation had gone smoothly. There were no injuries, he said. He added that the cause of the fire was still unknown.
Staff will not be allowed back into the building until at least Tuesday (19 May) afternoon.
There are usually around 2,000 people working in the Berlaymont but the number was estimated to be smaller today as this is a holiday week with the Commission closed on Thursday and Friday.
Laitenberger said that commissioners who were in Brussels this week would be able to continue working in other buildings. Hutchins said that the Commission had a business continuity plan which identified key staff to be accommodated in other officers in the case of emergencies.
Commission staff were not being allowed to re-enter the building until the fire brigade declared it safe. There is no electricity in the building because the chief fire officer ordered the current and gas supply to be cut off when tackling the blaze. The lifts do not work and there is no lighting in the stairs.
The section of Boulevard Charlemagne in front of the Berlaymont, which was closed when the building was evacuated, has now been re-opened.
© 2009 European Voice. All rights reserved.
12 maio, 2009
15 abril, 2009
O que foi tão bom quanto cansou em menos de três anos.
Frommannstrasse, 4 meses
Julio Dinis, uma vida, 4 meses
Weberstrasse, 6 meses
Römerstrasse, 5 meses
Konviktstrasse, 1 mês
Georges Henri, 1 mês
Oltermont, 1 semana
Vandenbroeck, contrato de 4 meses
03 abril, 2009
O vai-vem com escala em Bruxelas
Bruxelas tem vida.
Bruxelas tem vidas, e que vidas!
Ele foi o primeiro choque. Nasceu na Croácia, cresceu em Itália, tirou Economia no Canadá, mestrado em Maastricht, está a fazer este estágio na Comissão Europeia e… tem a minha idade.
Mas as histórias assemelham-se. Ela é romena, mas aos 7 anos mudou-se para a França e estudou direito em Inglaterra. Quem a ouve falar não percebe qual é a sua língua materna.
Já a holandesa com quem vou viver é apaixonada por países sub-desenvolvidos. Tem 25 anos e nunca trabalhou ("student jobs" todos eles têm, estou a falar de trabalho a sério), porque quer investigar, saber, estudar. Formou-se em Amesterdão, fez Erasmus em Inglaterra e já perdi a conta dos países em que fez pesquisa ou trabalhou como embaixatriz de estudantes holandeses: Espanha, México, Gana.
Companheira lusófona! Carioca genuína com samba e jornalismo no sangue. Formada nos Estados Unidos, trabalhou em Nova Iorque e Miami. Fez mestrado em Espanha e trabalhou como jornalista por uns anos na Colômbia.
Querem que continue?
A minha bailarina de Salsa é natural das Canárias. Quando a conheci, falando em inglês, nunca imaginei que fosse espanhola: era a primeira que encontrei sem sotaque. Determinada nos seus argumentos, foi para Inglaterra especializar-se em conflitos e depois esteve uns meses em França – a falar francês também não tem sotaque. Conheceu a carioca na Colômbia e são grandes amigas. A primeira coisa que fez quando chegou a Bruxelas foi inscrever-se num ginásio, onde vai três vezes por semana. Está revoltada porque a cantina da Comissão não faz desconto para vegetarianos.
A belga loirinha de olhos azuis que me acolheu em sua casa por uns dias (até o meu novo lar estar livre) não é especialista em ciência política nem direito ou estudos europeus. É uma bióloga amiga do ambiente, necessária na Comissão, que me ensinou a separar o lixo convenientemente. Comentou comigo ter pena de não ter feito Erasmus. Por melhor que seja Erasmus, será que uma jovem que fez pesquisa nas Maurícias, no Congo, nas Seychelles e em França pode dizer que tem pena de alguma coisa? Também ela corre pelo parque sempre que pode, come fruta e bebe chá ao pequeno-almoço. E é paciente a corrigir os meus erros de francês.
Aquele rapaz que soa a English native-speaker? Nunca teria adivinhado que fosse austríaco, com estudos feitos no Canadá e noivo de uma mexicana. E a minha companheira alemã estudou na Holanda primeiro, fez Erasmus na Suécia, e fez um mestrado - metade na Polónia e outra metade nos Estados Unidos. Não me perguntem quantas línguas fala.
Mesmo que ouse perguntar-me o que estou a fazer aqui, a verdade é que estou, por mérito próprio. Não me vou esquecer do momento em que, na minha pátria, partilhei feliz a minha conquista e ouvi um "mas quem é que tu conheces na Comissão?" como resposta.
São apenas algumas das 600 histórias dos stagiaires arrived in Brussels. E todos nós estamos ainda incrédulos por possuir um "badge" que nos permite entrar nos edifícios das Instituições Europeias e filtrar a polícia mesmo em dias de Cimeira.
Bruxelas tem vidas que inspiram!
27 fevereiro, 2009
Change, move, go
De volta à mudança, ao movimento, ao modo de estar "em andamento". Frenético e desgastante, foi esse o ritmo que a levou de novo para um novo além-fronteiras. Nova cidade, novo país, nova língua, novo mundo. Ironicamente, o "cá longe" pareceu agora mais perto, mas nem por isso mais fácil...
Well, let's go!
26 fevereiro, 2009
Karneval in Köln, 2009
03 fevereiro, 2009
29 janeiro, 2009
Home
18 janeiro, 2009
Aquele medo
Começou por um começo floreado, um arranque merecido, um medo abafado pelo desejo de voltar a sentir a conquista do desconhecido numa terra, já de si, feliz. E a sensação de dever cumprido e de aprendizagem fez crescer a vontade de permanecer nesse desconhecido. A vontade arrasta a força. E só essa força conseguiu aguentar as duas estações do ano com luz em ritmo decorado, repetitivo, cansativo até dizer fim. Quando a força esgotou, disse-se fim para recuperar a força de começar algo de novo.
Voltou a compensar a decisão, mas não o peso de toda a hesitação e cansaço para tomá-la, sozinha. E aprende-se a confiar no nosso interior, por meio desse isolamento, por vezes em forma de solidão. Dizem que é assim... para o bom ou para o mau, com tudo se aprende.
E se cresce.
Cresce-se para ambicionar, para tentar, conquistar por vezes, cresce-se para dar de caras com verdades difícieis de acreditar, para acinzentar as cores, para ficar perto e longe, aos saltos, aos poucos, para ganhar consciência de algumas coisas e ganhar pressão sobre outras. Entra-se no ciclo do mais e mais e mais longe, para se ver quem não olha a limites, quem não olha a meios, quem não olha a princípios.
E dentro do ciclo reduz-se e aumenta-se o espaço entre palavras, as palavras que descrevem ínícios, recomeços, novas decisões, novos desafios, novos medos.
Que, no ano que entrou, "se for para perder, que seja o medo."
30 novembro, 2008
Depois de ir para o ar
Os músculos relaxam,
a garrafa de água está quase vazia,
desejo continuação de bom dia ao técnico,
só depois reparo que ainda seria "boa noite".
São 07:07 da manhã, Domingo na redacção portuguesa da Deutsche Welle,
essa "voz da Alemanha" que eu levei ao ar com um sorriso de sono.
Chove miudinho,
ou diria chuva-molha-parvinhos lá fora,
um ploc-ploc que dissipa as dúvidas: por enquanto não neva.
Tiro da máquina o meu leite com chocolate de sempre,
atravesso a parte ao ar livre do edifício,
arrepio-me da cabeça aos pés,
molho os óculos com a humidade e tento caminhar depressa.
Corro para o quentinho da redacção e vejo www.wetter.de,
para então entender:
Três negativos.
Ou positivos, consoante a perspectiva.
29 novembro, 2008
Winter
Nos mesmos dias em que chove essa alegria de poder desfrutar de um Inverno onde ele pertence, com os capuccinos em copos descartáveis que levamos para aquecer a curta espera do tram, nesses mesmos dias corta-me o vento com saudade: das várias camisolas vestidas dentro de casa, pantufas bem quentes, cheiro a lenha queimada na lareira... alentejana.
Saudade que se esquece - ou que se adia;
patins nos pés a deslizar sobre uma pista de gelo, "algures na Europa central". Dêem-me a mão, façam-me rir, gritar, estatelar-me no chão, com pequenos flocos a saltar do pavimento para o gorro e a ponta do nariz. Tirar fotografias para revê-las em filmes românticos de Natal. Quero esticar a mão para ser levantada e abraçada. Sentir os músculos da cara bloqueados pelo frio, um beijinho na ponta do nariz para recuperar a sensibilidade.
Quero patinar em frente à árvore de Natal de Rockefeller ou no Central Park, da minha cidade.
Um frio que gela, quando tão bem poderia aquecer.
28 novembro, 2008
Weihnachtsmarkt in Bonn
20 outubro, 2008
Um dia na capital económica, em tempos de crise
Na esplanada que me acolhe em momentos de introspecção, bebo o meu sumo de cereja-banana (KiBa) e recordo esse domingo.
Resolvi ir até Frankfurt. Ou melhor, no que diz respeito ao "ir", fui com quatro pessoas que não conhecia. Já aqui escrevi que me tornei fã do site www.mitfahrgelegenheit.de. Do site e da mentalidade. Indicar local de partida, destino e data. Surgem os contactos dos condutores dos carros, com horas e indicações. Desta vez no entanto, para o horário que eu queria, surgiu-me um contacto de uma senhora que comprou um Wochenendeticket. Um WE-Ticket é um bilhete de comboio de fim-de-semana, que custa cerca de 30 € e com ele podem viajar até 5 pessoas pela Alemanha fora, dentro desse fim-de-semana. Para a dimensão de Portugal seria (ainda mais) paradisíaco, mas a Alemanha é grande; não dá para ver tudo num fim-de-semana à velocidade dos comboios regionais.

Liguei à senhora, perguntei se havia lugar para mim e anotei mentalmente: "sou pequenina, magrinha e tenho um grande nariz". Anotei o sorriso telefónico também.
Lá fui para Colónia às 10 da manhã. Bona foi a capital, mas a verdade é que tudo se concentra em Köln. Não me importo com isso, mas senti-me burra porque acabámos por passar por Bonn na mesma. Nada há-de solucionar o meu inexistente sentido de orientação.
Estava à hora certa em Köln Hauptbahnhof, na linha 9 B-D. Mas não via a senhora pequenina e magrinha. Vi um rapaz muito estilo beto clássico, cabelo loiro puxado para trás com brilhantina, camisa e sapatos a brilhar também. Parecia desorientado. Tirei a música do ouvido para ouvir o que dizia ao telefone: "Já aqui estou na linha 9, mas não a vejo...".
Ah, bom! É dos meus, então. Segui-o e encontrei o grupo dos cinco. Cada um com o seu "coffee to go" na mão, um frio de gelar o nariz e as pontas dos dedos e assim entrámos no comboio. Fizemos logo as contas para evitar chatices (que a Alemanha é um país civilizado, mas aldrabões há em todo o lado). Paguei 7 €, ao contrário dos 40 € que o comboio "convencional" (embora mais rápido) pedia.
Portanto lá estava o beto clássico, estudante de economia (sentia-se-lhe o crash nos olhos!), a senhora magrinha e pequenina que ia visitar a filha a Bayreuth (que eu não faço ideia onde fica) e mais duas raparigas: uma com ar de russa, cabelo no ar, livro em inglês, telefonemas numa língua claramente de leste; e uma outra, loirinha, relaxada e sorridente, que tinha um aparelho para endireitar a perna.
Conversámos o essencial no início. O alemão não faz "small-talk" por fazer. Não há cá conversas sobre o tempo, até porque ele raramente muda. Então, pouco depois, três liam, outra ouvia música e aqui o piolho... dormia.
Mudámos de comboio em Koblenz. Aí já me senti a viajar. Não conhecia o estado, as paisagens. E até as carruagens eram diferentes. De maneira que aí deu para cada um de nós ficar à larga num conjunto de quatro cadeiras. Menos eu, que preferi ficar com a loirinha do aparelho na perna. Parecia muito simpática. O discurso foi o mesmo de sempre:
Sobre mim: "E és de onde mesmo, em Portugal?", "Só cá estás há dois anos e já falas alemão?", "Gostas da Alemanha?" (como se não fosse suposto) - e a parte que eu mais gosto: "Na Deutsche Welle? Nada mau."
Sobre ela, também o discurso típico da alemã-não-alemã: viveu uns meses na Nova Zelândia, foi visitar uma amiga a Colónia, agora ia visitar uma outra a Frankfurt e depois voltava para a sua formação de fisioterapia. Mais tarde? "Nova Iorque, para já. Quero conhecer o mundo."
Acabámos por adormecer as duas com o silêncio das carruagens alemãs sobre os carris. A pouco mais de meia hora de Frankfurt, achei que já chegava de dormir. Até que de repente entra um senhor na carruagem e senta-se ao pé da senhora magrinha e pequenina. Tinha daqueles carrinhos que muitas pessoas mais velhas usam por aqui, cheio de papéis. Não percebi de imediato se era um mendigo ou uma pessoa vulgar, tinha barriga e barba grandes. Logo confirmei que era meio formado, meio maluco (para os padrões alemães, entenda-se), quando se virou de repente para a senhora pequenina e magrinha e perguntou, do nada:
- Desculpe, posso fazer-lhe uma pergunta? O que pensa desta crise financeira?
Aqui o piolho, a russa e a típica alemã-não-alemã ficámos logo com pena da senhora pequenina e magrinha, que percebemos ter ficado atrapalhada. "Não penso nada, porque não percebo".
Resposta errada. O senhor estava a escrever um livro sobre o assunto e via-se que estava muito irritado por a crise (que ele já teria previsto) ter rebentado antes de o livro ser publicado. A partir daí, assistimos a um seminário de crise financeira até Frankfurt, com críticas severas ao governo alemão. Lá pensava o piolho: critique, meu senhor, até conhecer quem governa aquele país para onde você gosta de ir no Verão. É que se o seu país se afundar, não pense que pode ir para lá trabalhar.
Isto, repito, porque estou convicta que eu e a Frau Angela Merkel vamos salvar o mundo.
Chegámos a Frankfurt. A alemã-não-alemã tinha a amiga à espera na Hauptbahnhof, que por sua vez tinha bilhetes de metro de grupo e me levou à estação da Feira do Livro para eu não pagar. Prático, não? Segundo a teoria da minha Mãe, "quem é que não quer ajudar essa carinha redondinha?"
Quanto à Buchmesse em si, a tal "maior feira do livro do mundo", devo dizer que fiquei tonta com a dimensão. E recorde-se: por 12 Euros. Torres e mapas e postos de informação e pessoas - muitas pessoas. O país convidado era a Turquia, o que no fundo deu à feira uma imagem da Alemanha tal qual ela é: loiros e altos misturados (ou não) com peles mais escuras e véus islâmicos.
Como se na redacção não me sentisse já suficientemente "na terra", decidi ir ao pavilhão da literatura portuguesa. Numa das editoras do país da saudade reconheci a cara do proprietário, provavelmente de um dos stands da calorosa feira do livro de Lisboa, onde outrora distribuí panfletos até mais não poder, para juntar dinheiro para o meu Erasmus em Leipzig. Logo aí, achei irónica a situação.
Mas mais irónica foi a abordagem que fiz ao tal senhor. Depois de pegar num livro que seleccionava os melhores poemas de Fernando Pessoa, perguntei o preço, que o senhor teve de consultar. Logo se dirige à sua colega, bem portuguesa, e ri-se como quem esfrega as mãos, dizendo "já fiz um negócio". (Recorde-se que a Feira do Livro de Frankfurt começa a ser conhecida pelas presenças, muito mais do que pelas vendas). Resolvo perguntar se "está tudo a correr bem". A senhora apoia o queixo na mão, cotovelo sobre a mesa, e desabafa "Já estamos fartos disto, queremos ir para Lisboa".
Bom, preferi não comentar. Logo se aproximou uma senhora alemã, com um livro na mão, e perguntou em alemão "quanto custa?". O senhor olha para mim com um autêntico ar de sem-pachorra e pergunta-me, A MIM, "o que é que ela 'tá prali a dizer???".
Não quis acreditar, mas resolvi sorrir e responder à senhora, não fosse ela pensar que todos os portugueses são assim.
Ainda perguntei ao senhor se estavam a trabalhar em conjunto com as editoras brasileiras, que tinham os seus stands mesmo ali ao lado. Mas ele bem (mal) me respondeu que "não temos nada a ver com eles". Eu disse que achava estranho, porque a cobertura jornalística dava uma ideia de união entre as editoras. "Não, não..."
Quem vê uma pessoa assim e generaliza, pensa que o português está de mal com a vida.
Bom, o senhor lá põe o meu livro num saco e diz todo gabarolas "que até leva aqui uns presentes". Lápis, caneta, régua. Começa a ferir-me a susceptibilidade. Nem com óculos me levam a sério? Como uma adultinha - ou vá, uma adolescente grande?
E à sua última pergunta, sobre o que eu estava a fazer aqui na Alemanha, não resisti a tentar pela última vez:
- Eu trabalho cá como jornalista. E por isso lhe perguntei sobre a cobertura da feira, porque a Deutsche Welle esteve cá e provavelmente falou consigo.
Arregalou os olhos. Que bem que me soube vê-lo aflito.
- Sim, esteve cá um rapaz... - disse ele, já cheio de convicção.
- Pois foi, o meu colega Márcio.
Como, de repente, senti que falava sozinha perante a perplexidade dele (provavelmente por achar estranho um piolho português já trabalhar), desejei-lhe continuação de boa feira e fugi para os pavilhões de literatura... dos Países Baixos. Diga-se, dos lá de cima.
E a propósito: voltei para Bonn numa outra Mitfahrgelegenheit, desta vez de carro: um BMW a percorrer as estradas alemãs sem limite de velocidade. Ida por 3 horas e meia a 7 euros, volta por 1 hora e meia e 14 euros. Em tempos de crise, não me posso queixar. E foi um dia sui generis, para relembrar ao sabor de cerejas e banana.
