Estes passarinhos são muito meus amigos.
26 fevereiro, 2006
Asas
Estes passarinhos são muito meus amigos.
21 fevereiro, 2006
Obsessões

É inevitável ouvir as conversas alheias enquanto me visto no balneário de um ginásio. Duas senhoras de meia idade, encasacando os seus padrões burberry e outros quadriculados, antes de tratarem as suas poupas na zona dos secadores, falam sobre “a vida”. A mais faladora (nestas situações há sempre uma que fala mais e mais alto, tanto que o que a outra disse passou-me ao lado) começou por dizer “não tenho obsessões na vida”. Do pouco que percebi, achei a senhora descontraída e sem razões de queixa. “Continuo a viajar e a passear como quero”, diz ela. Pouco tempo depois, conta à sua dialogante, que não deve conhecer há muito tempo, ter-se casado três vezes, a última com 49 anos.
Não ouvi muito mais, para pena minha, porque ainda tinha de arrumar o saco e ela foi para os secadores. Fiquei curiosa quanto à vida da senhora.
Mas com isto tudo, porque eu não gosto de me limitar a ouvir, pus-me a pensar. Há quem diga que não cometer excessos de vez em quando faz mal a si mesmo, não aproveita bem a vida. Outros dizem que fazer as coisas com moderação permite-nos conhecer um pouco de tudo de uma forma saudável e enriquecedora. Pois eu acho que a primeira hipótese faz mais sentido. A segunda parece soar a projectos inacabados, a querer provar sem nunca saborear até ao fim, sem aprender com o arrependimento de ter exagerado, sem, enfim, matar a curiosidade, seja de que tipo for.
Ainda assim, acho que não sou obcecada por nada. Claro, se não contarmos com a gastronomia. E talvez com os meus defeitos. Com as minhas indecisões ou a minha incapacidade de me decidir sobre qualquer coisa. E se não contarmos com Nova Iorque.
Tenho uma força implacável para criticar estas minhas incapacidades, ou a minha insistência para auto-incapacitar-me, que irrita tanta gente. Confundo-me propositadamente, ao ouvir sobre a vida dos outros, velhos, novos, ricos, pobres, portugueses ou patrióticos. Acho sempre que eles escolheram o caminho certo. É como em criança. Quero a boneca daquela menina, no instante seguinte tenho-a e nem olho para ela porque quero a boneca que a menina comprou a seguir. Gosto daquela camisola, gosto daquela casa, posso imitar, mas nunca fico satisfeita. Não, não é uma questão de o homem estar permanentemente insatisfeito com o que tem e o que é. É sim uma questão minha, porque eu vejo, efectivamente, os outros a fazer coisas tão simples e eu limitar-me a constatar que eles as fazem. Ou têm. Ou são assim. Olho, assim, com os braços caídos, sem atitude.
O que tem esta reflexão egocêntrica (como sempre) a ver com as obsessões? Bastante até. Não sou obcecada por carros, nem por animais, nem por tabaco, nem por compras, nem por festas, nem por livros, nem por filmes, nem por pessoas. Gosto de saborear de tudo um pouco para poder lamentar-me que não conheço um pouco mais. Gostava de ser obcecada por viagens, se ainda viajasse, ou se já viajasse mais, ou se fosse obcecada por andar de avião, ou se fosse workohollic (uma obsessão, sem dúvida) de forma a semear fortunas, ou se não gostasse do meu país. Não, eu sou muito mais modesta. Queixo-me de tudo, prendo-me às pessoas q.b., não confio no meu futuro profissional, insisto em não me desenvencilhar com nada, e assim esquivo-me a poder dizer que sou obcecada por viagens.
Acho que a senhora do ginásio era obcecada por ela mesma. Queria fazer bem a ela própria e acabava por cair na descontracção de querer afastar as preocupações. Sem grande esforço. E assim viajava, ia ao ginásio com as amigas e até se casava três vezes. Assim é que é, minha senhora. Fico contente que goste de si dessa maneira. Sabe, eu também gostava de ser assim. Assim... como quem diz.
19 fevereiro, 2006
Cai...
Cai a chuva, forte, voa a chuva, grita o vento, une-se o calor do lar. Erguem-se os princípios. Cai a saudade dos que já foram, a saudade da lembrança, a memória das coisas e das pessoas. São emoções que dão vida à saudade que tenho. Caem os dias, dia após dia, cai a marca sobre a alma. Uns partem, alguns voltam. Cai a lágrima no rosto, cai a chuva na cidade.
Cai o sentimento puro, o fogo do amor, nasce a banalidade. Cai o segredo desse amor, aquele que cada um sentia bem para si, bem guardado. Bem protegido, puro, forte, cansado de sofrer, esperançoso e sonhador. Agora ele percorre as ruas das cidades, das metrópoles, do que as liga. Cai o sentimento puro, um tesouro se resiste.
Quando a chuva cai, lembra-nos tudo o que de nós já partiu. Cai no chão, desperta a lembrança, não dá tempo, logo cai mais, mais forte, com um sabor mais confuso. Percorro as ruas da cidade saboreando a imagem do tempo antigo, do que teria havido ali então. Olho a chuva. E eis que ela bate no vidro trazendo a saudade.
16 fevereiro, 2006
Despedida

Foi uma escolha, é só uma experiência, uma pequena aventura com certeza de regresso. Nem chega a meio ano. Meio ano aos vinte anos, depois de aos dezoito já ter dito adeus até ao próximo fim-de-semana, depois de saber que só lá vai divertir-se e estudar um pouco.
Não passa de um momento único e feliz, mas que exige um adeus temporário, que não chega a ser um adeus, é mais um comprovativo de que ficam cá pessoas que lhes transmitirão apoio.
Não passa disto, é verdade. Mas custou-me demais. Vi tudo, naquele aglomerado de pessoas. Vi três amigas que partiram juntas, umas com mais lágrimas do que outras. Vi os Pais que ficaram, tentando atenuar o vazio que, imagino, tê-los-á preenchido. Vazio por uma partida para o bem da filha, vazio por uma partida que deixa saudade, vazio por não poder protegê-la enquanto estiver lá. Vi as amigas, com relações tão diferentes entre elas, também com expressões tão diferentes, a abraçarem-se de maneira diferente enquanto diziam “força”, “juízo” ou “não fiques assim”. Vi os frustrados, como eu, a ver a coragem a subir aquela rampa com malas grandes e um bilhete na mão e a ir-se embora. Vi os namorados que ficaram. Os amores outrora tremidos, agora consolidados e naquele instante fragilizados. O último beijo, o último toque de mãos, o último olhar. O pensar como cada um estará “lá” e não saber o que fazer ou sentir enquanto se estiver cá.
E no entanto não passa disto. Tem tudo para ser só uma coisa boa, mas a despedida teima em transformá-la num momento penoso.
Na hora da despedida, em que controlamos a queda da lágrima para que um sorriso seja visto pelas três que ali mais precisam, na hora da despedida corre freneticamente este rio cá dentro, de lágrimas, de sonhos, de uma frustração revoltante. De uma força de vontade que não tem pernas para correr, apenas voz para se manifestar.
Quando eu der por mim, na hora desta despedida, eu hei-de ter de revirar todo o meu interior para soltar este egoísmo, soltar estas amarras que nunca me libertaram, soltar a energia da força que digo sentir. Mas antes, terei de ter outra destas despedidas. Mais dolorosa, com mais dúvidas, com mais lágrimas, com a revolta da inevitabilidade que não vi hoje. Sem necessidade. Mais esperançosa e com menos força. Por mais tempo. Por muito mais tempo. Com mais sabor a “último”. E aí, talvez a minha vontade ganhe a força do vento, talvez eu respire fundo, talvez eu limpe as lágrimas e... talvez vá.
12 fevereiro, 2006
Miss (New York)… Saigon
Um dos últimos dias de 1997, temperatura secamente negativa. Taxi!, Broadway. Sala aconchegante, muitos, muitos degraus para chegar à nossa fila. Não havia mais meninos da minha idade ali. Mas eu ia ver o espectáculo mesmo assim, representado lá em baixo, num palco olhado a pique.
Não percebia aquele inglês cantado. Fixei apenas as danças, a chinezinha e o soldado grande americano. Fixei as melodias, que já me preencheram em tão tenra idade. E fixei sobretudo aquele helicóptero, real, ali mesmo, dentro de uma sala de espectáculos em Nova Iorque, o seu barulho ensurdecedor, o seu movimento mágico.
Oito anos depois Miss Saigon chegou ao Coliseu dos Recreios. A Lisboa, do outro lado do Atlântico. A uma sala maior, mas menos ampla, com um palco mais pequeno. Inevitavelmente, sem o calor da América. Sem o “No Smoking” no espaço do intervalo e consequentemente com as tossidelas especturadas tipicamente portuguesas que sempre me atormentam. Sem a mesma voz de Kim, penetrantemente agudizada. Sem o helicóptero. Sem o americano obeso ao meu lado, mas o engravatadinho que, ao fim de dez minutos de espectáculo, sai-se com “Preferia ver isto em DVD”.
Oito anos depois pude entender a história de um amor em tempo de guerra, das consequências da falta de comunicação, do conflito de culturas, do elevar dos princípios, do “I would die for you”.
Seria de esperar que, com a visão de oito anos depois, eu me sentisse mais preenchida. Mas ao atravessar a Avenida da Liberdade sei que senti um profundo vazio. Tal como o musical da Broadway “Miss Saigon” perde encanto ao sair de onde nasceu, também eu me angustiei por sentir este “American Dream” cada vez mais longínquo.
06 fevereiro, 2006
No metro
- Sais onde?
- No Campo Pequeno.
- Tens autocarro directo para Almada, não é?
- É.
- A esta hora não há trânsito, pois não?
- Nem por isso. À sexta-feira é que há um pouco mais.
- Chegas a casa a que horas?
- Um quarto para as nove.
- Chegas mais cedo do que eu!
- Sim, e esta é a hora em que chego à minha mãe. Imagina depois.
- Sim, eu também tenho sempre de ir primeiro à minha mãe buscar o miúdo.
- Pois é.
- De manhã é que é pior. Entra na escola às 8h. Podia ser às 8h e meia… Parecendo que não, aquela meia hora faz diferença.
- Ah, eu de manhã, se não tenho pressa, visto o fato de treino e vou levá-lo num instante. É mesmo ali atrás…
- Claro. Vá, sais agora. Até amanhã.
05 fevereiro, 2006
Então… Calhou
Nasci em má altura. Não, não foi um acidente, planearam-me, mas nasci no conformismo da época. Não vivi a monarquia, não vivi os amores proibidos de carta de que falava há dias. Não vivi a primeira guerra mundial, nem a segunda, nem o tempo do Salazar, nem quando não havia computadores ou fotografias só a preto e branco, nem o 25 de Abril.
A minha geração nasceu com o nascimento do terrorismo. Aquele que ataca sem receio, que dispara contra o que vê à frente, por razões que evocam lá de um céu que eu não conheço. A minha geração foi educada, e as subsequentes serão ainda mais, de acordo com o Mal ao qual devemos fugir, o alerta que devemos domesticar dentro de nós contra os perigos e as ameaças de mãos dadas com a desconfiança.
Fazem-nos crianças para termos de perceber, lenta e apavoradamente, que o mundo da fantasia cor-de-rosa não existe de facto. Pior, temos consciência desta realidade quando damos conta que vivemos já no século XXI, o século do fim do mundo, o século de uma Natureza destruída sem tréguas, o século do 11 de Setembro, das infinitas e infindáveis guerras ocidente-oriente.
E então?
Então, a vida mantém o seu sentido. É preciso saboreá-la, seja de que forma for, custe o que custar. Com mais ou menos luz, esperança, crença, confiança ou vontade. Noutra época teria tido outros receios e desilusões em relação ao meu mundo! Se me calhou que aqui estivesse hoje, então devo fazer valer isso.
Não posso evitar, porém, que muitos caminhos me sejam vedados. Por opção, por inevitabilidade, por nunca ter pensado nisso, por receio ou autoridade. É sombriamente misterioso e turvo, demais para se poder confiar. Então fecho-me na minha concha, feliz por este lar dentro do qual posso aprender, escutar, imaginar. De alguma forma, viver. Daqui vejo o mundo, no pequeno ecrã, no jornal que leio, no livro, na rádio. Neste computador que me retira tempo para observar a paisagem que aqui tenho mesmo à minha frente. Poderia observá-la e aprender ainda mais. A diagnosticar as diferenças, a morte lenta da natureza, o céu como horizonte infinito a dar azo aos sonhos que digo ter.
Porque todas as pessoas são diferentes, mesmo dentro de uma só geração. Eu não vejo tanto quanto queria. Obcecada por esse caminho de uma vida de observações, eu limito-me a parar e a imaginar o lá longe. É uma pena. Eu vivo pouco, porque penso demais.
31 janeiro, 2006
Schindler.
“Sou um membro do partido nazi. Sou um industrial que promove a escravidão. Sou um criminoso. Agora vocês serão libertados, e eu serei perseguido.”
Oskar Schindler
29 janeiro, 2006
Com aqueles zeros todos à direita do Jackpot Euromilhões?...

...reconstruía as twin towers de nova iorque, tirava o país da crise financeira (que a de indentidade não se resolve assim), comprava a aroeira inteira para distribuir pelos meus amigos, tinha a colecção toda da pepe jeans só para mim, dava a volta ao mundo, sim, comprava os clichés todos, dava à Oprah para ajudar as crianças, criava cidades só para idosos, pagava para conhecer os hanson como tanto sonhei há uns anos, recuperava o nosso monte alentejano, criava um semanário feminino, empregava os meus amigos todos, punha um ginásio em casa, comprava uma biblioteca, comprava uma casa em Nova Iorque, outra no Rio de Janeiro e outra em Cabo Verde para os meus Pais, atravessava com eles a América, fazia um parque só para coelhos, o "Fofo Park", comprava o jon bon jovi para ter à minha janela e olhar para ele quando quisesse, comprava uma máquina que transportasse a genialidade dos nerds para o vazio cerebral dos (ou das) "vou pá nêv", exterminava os mitras, comprava a Lua inteira e deixava o Tom Cruise na miséria, publicava um livro em todas as línguas para o mundo inteiro, fazia um retiro de Portugal em Nova Iorque por uns anos... para pensar numa escolha... crio uma faculdade de medicina em Portugal que deixe entrar todos os sonhadores vocacionados ou crio uma estação de televisão internacional na República Checa?...
22 janeiro, 2006
Era uma vez uma carta
Toda a magia partia de uma carta de um papel amarelado selada a lacre. Do pombo à criada assim se fazia unir o amor de dois jovens, ou adultos, ou amantes comprometidos. O respeito era a ameaça constante e assim o amor parecia ter mais força e razão de ser. Um “amo-te” manuscrito numa caligrafia antiquada, rebocada e completa fazia os sonhos dos apaixonados. Sem tréguas, levava a loucuras irreversíveis. Especulava-se, imaginava-se, a ansiedade pela carta entregue em mãos alimentava a paixão.As pessoas movimentaram-se, transformaram-se, mudaram de habitação. No campo ou na cidade os encontros conquistaram legitimidade, aos poucos a proibição de seguir a vontade própria constituiu um atentado à independência de uma individualidade tão recalcada.
O tempo em que a vida definiu que eu deveria enfrentar a puberdade e a adolescência sofreu, ele próprio, uma evolução. Esperei ansiosamente por um encontro, consciencializei-me daquilo que a visão me poderia mostrar. Acordava e era esse o meu desejo, ver, esperar, imaginar-me a dizer algo cara a cara. Os bilhetes eram uma opção, num papel branco pautado, rasgado e deitado fora por ser banalmente barato. Também o “beep”, não tão usual por obrigar a divulgação de muitos algarismos entre muitas pessoas, serviu para consolidar intrigas, declarar o que a presença física bloqueava, quebrar segredos e assustar.
Eis o telemóvel. De repente tive um. Era grande, preto e pesado, o ecrã era verde e pequeno. Com números pessoais a divulgarem-se aos poucos, comecei a optar pela declaração via “mensagem escrita”, vulgo nome para aquilo que se designa hoje de “SMS”. Tudo o que escrevia cabia apenas numa mensagem e assim me controlava por ter vergonha de telefonar. Continuava a telefonar apenas pelo telefone, vulgo nome para o que chamamos hoje de “telefone fixo”, tal a importância de garantir a diferenciação. Todas as letras, sem engolir nenhuma, eram maiúsculas. Não fazia juras de amor eterno, apenas confessava a ansiedade de uma imagem visível que não me faria falar.
Mais depressa ainda vi todos os telemóveis em meu redor a serem renovados. De repente mais pequenos, de repente mais leves, de repente mais funcionais e mais caros. De repente com um ecrã maior onde se via melhor a “SMS”. No mês seguinte, o topo de gama punha o outro pobre a um canto, fazendo os adolescentes mais novos que eu chorar por um, mais do que choravam por um amor perdido. A uma velocidade estonteante os telemóveis encheram as montras e a publicidade aos telemóveis encheu o horário nobre do pequeno ecrã televisivo, para nunca mais desaparecer.
O conceito mudou. Da única hipótese comunicativa em que consistia a carta manuscrita passámos para a mensagem digital, o e-mail, a SMS. Os encontros com a genuinidade da aparência que observamos são substituídos pelas MMS. O que for escrito, escreve-se na Internet, onde um qualquer portal “www” dá um recado rápido sem perda de tempo nem de dinheiro. Agora, o que importa é “mostrar o que quero dizer”. Fotografa o nada, clica, legenda, envia. Como se não houvesse mesmo palavras para descrever. Do outro lado é recebida a declaração, a expressão de um amor temporário em caras deformadas e palavras abreviadas. Este novo pombo apita estridentemente durante a noite, para tocar o aviso urgente e sem espera de que alguém se lembrou de nós ou para deixar uma mera mensagem. Se não apetecer não lê, se houver falha técnica não chega a receber sequer, se não gostar do que ler apaga, sem tempo para a reflexão feita ao rasgar e ao queimar uma carta. Não há tempo para chorar enquanto se apaga uma SMS. Não preciso de querer contar a alguém o que outro alguém me disse, porque é possível lê-lo num objecto que vem sempre connosco e que abandonamos à mercê alheia quando vamos à casa-de-banho de um café.
O que ninguém sabia que podia ser fruto ou objecto de discussão, passa a sê-lo. Via SMS. É mais prático, mais directo, mais polémico. As verdades dizem-se de telemóvel para telemóvel, de um computador para outro computador, para num café não se saber como abordar o assunto exposto por escrito. As discussões criam-se numa mensagem escrita. A aproximação é também mais viável, quando o horário laboral ou as férias suscitam a saudade, a ansiedade e a vontade de saber e dizer a cada minuto. O correio manual é antiquado, é lento, serve agora para resolver questões passadas e que o tempo também demorou demasiado a pôr na mesa.
De repente, uma “SMS para o 3939” devolve-me uma quadra de amor que posso enviar ao outro adolescente sem ler e sem sentir. Se mudar o número, posso até insultar a minha ex-melhor amiga. Para outro conjunto de quatro algarismos tenho a sorte de receber fotografias de uma qualquer pop ou pornostar. Gosto que a minha música preferida toque para me lembrar que alguém me quer dizer alguma coisa.
Nada se diz, tudo se envia dito.
As relações entre as pessoas mudam consoante a comunicação que elas estabelecem entre si. E as relações fazem a vida das pessoas e do Mundo. Por tudo isto e tanto mais, gastei já três anos de tempo a estudar o que é, afinal, a Comunicação.
18 janeiro, 2006
Amálgama
Hoje, pareço gostar de repeti-lo. Não que tenha estagnado, pois sinto-me diferente. Sem dúvida, aprendi e cresci muito. É a inevitabilidade merecida do sofrimento. Mas porque os meus princípios são os mesmos. Ainda que tenha conseguido mudar de atitudes, continuo a revoltar-me com as mesmas pequenas coisas. Enervo-me, bloqueio, não perdoo, não dou espaço de manobra. Sou cruelmente fria. E olho para o lado, onde aqueles que adoro, que são tantos!, recebem toda a minha transparente dedicação.
Gostava de acreditar que tudo isto é genuinidade. É revolta contra o cinismo que já me rodeou tantas vezes, ao longo de tantos anos. Gostava de me orgulhar deste sentimento, que é cubo de gelo, mas também é natural, puro, sem sombras nem turvação. Não gosto de me contradizer e por isso sigo uma dialéctica que acaba por me atormentar. Gostava de ser criança outra vez, onde tudo à minha volta seria assim, coloridamente transparente. Gostava de cantar e sorrir sem imaginar a possibilidade de ficar sem aquela amiga, ou aquelas amigas, ou aqueles amigos, de quem e por quem tanto esperei. Já perdi muita coisa assim.
Hoje, sinto-me a seguir com firmeza essa directriz. Não mudo, porque não quero mudar. Sei que só assim posso garantir a minha sinceridade, ainda que desejasse (tanto!) não sentir as coisas assim. Há tantos que vejo que conseguem, belos e puros… Ora, não caiam no erro de o pretenderem de mim. Desiludam-se, afinal virei costas, já não sinto aquele carinho amigo. É pena, mas pode acontecer. Não sei como evitá-lo.
Hoje, sim, olham-me de lado, não me entendem ou não me reconhecem. Os segredos quebraram-se. Continuo a mesma, mas perante uma só figura consegui mudar de postura. Sem razão aparente. Apenas porque me irrita, ilegitimamente me irrita. Hoje pedem-me satisfações, colam-se à arrogância de me aconselhar sobre o que supostamente não saberia que era devido saber. Hoje perdem o interesse. Hoje, para amanhã o substituírem por aquele “nunca percebi o que se passou”.
Àqueles a quem um dia posso tratar mal, que são mais do que eu própria imagino, perdoem-me desde já. Eu não queria ser assim.
08 janeiro, 2006
Unidos na fraqueza
É o último dia deste ano em que ela está acesa. E a primeira vez que a vejo acesa aqui, no meu refúgio. Já é novo ano, um igual ao anterior, que pouco me faz reflectir. Porque o fim do ano que agora acabou ainda me está na memória. Nada mudou. Está tudo presente demais, até.
Um presépio em frente a uma árvore iluminada e a luz de ver o que ela transmite. Ou pode transmitir. Ou poderia ter transmitido.
Para mim, o Natal que passou e que ainda não esqueci não era mais do que a celebração de uma união muito particular. Uma união que nunca existiria senão entre duas pessoas que se conhecem, se amam tal qual como são, que se compreendem e se defendem. Para lá de todos os insultos. Aquela entre aqueles que mais amo, a quem mais devo e agradeço, a quem desejava uma celebração mais merecida. Fiz o que pude, mas fui atirada para um poço de egoísmos e intrigas sem fundamento a que quase ninguém escapa hoje em dia. Família. Não consegui ter forças para tirá-los dali e fazerem abraçar-se com a força com que o fizeram depois de os convencionalismos o terem permitido. Depois de tudo tentarem para inverter o cenário. Não consegui, porque nunca mo deixaram, porque a tudo, sempre e com revolta minha me pouparam.
As luzes cintilantes da minha árvore, no meu refúgio silencioso e transparente, contam-me que a família é assim. Brilha forçada e automaticamente nas datas que assim o exigem. Hoje sei que ela teve esta data mais escura, qual árvore que abandonámos durante todo o Dezembro que já terminou.
Egoísmo não é pensar que só este refúgio me faz sentir em casa, mas sim ver como não me fazem, a mim e aos meus, sentir em casa noutro lugar. Talvez porque não saibam o que é sofrer a demora pelo erguer de um lar como este, que é o nosso tesouro e que vemos imitado até ao mais ínfimo pormenor, como o fruto de uma inveja orgulhosa. Egoísmo é tudo o que encontro fora deste refúgio, o único sítio onde tudo me é naturalmente claro. É tudo aquilo que as pessoas pensam não ver, iludidas com o que as tradições as obrigam a fazer. Egoísmo é acharmo-nos só "nós os quatro", mas também, mais gravemente, só "nós os três". Sentir-me-ia melhor, mesmo que longe dos quatro, se tivesse estado junto daqueles que não têm nada - nada que lhes permitisse ser egoístas. Pelo menos sei que não haveria lugares vazios na mesa, pois só lá estaria quem o pretendesse de livre vontade. Não, não estou melhor sem os meus, pelo contrário. Só quis estar ali para protegê-los de quem não queria que eles ali estivessem. Pois pelo que vi não quiseram.
Não reflicto. Apenas lembro, com esta clareza cruel, aquilo que fui obrigada a viver. Mas como todos os maus momentos, também com este eu aprendi que não adianta forçar a lágrima a não cair, não adianta evitar o curto-circuito já tão adiado, nem adianta vendar os olhos (ou deixar que mos vendem) para fingir que não sei o que sempre existiu.
Senti os meus princípios à flor da pele. A defesa daqueles que mais estimo, a revolta interior contra a injustiça e a ingratidão! e, ainda assim, a esperança num clima mais luminoso, que uma noite e uma mesa convenientemente decorada fizeram esvair-se. Contive-me, acreditei que não era verdade, que não era desilusão, sorri, procurei a calma, em mim e nos outros, chorei feridamente por dentro e assim o quis, forçando-me a viver aqueles minutos intermináveis como se pudessem ter o final feliz que não tiveram.
Senti o princípio da Família, presente nos injustiçados (e mais bem intencionados) e ausente dos anfitriões acusadores. Senti que não adianta incutir o espírito em quem não nasceu com ele, ou não o apreendeu devidamente.
Olhei para uma criança da mesma forma que vi os que já sabia que (não) iam sorrir para o quarto de século de união que, a partir deste Natal, se tornou o meu orgulho eterno.
Desenganem-se. As mais novas e mais poupadas são as mais esclarecidas, que agora sabem já ver e ouvir aquilo que os "mais grandes" sussurram e ditam entre linhas.
Para mim, tal como as luzes da minha árvore brilharam sem eu ver, também o meu Natal brilhou menos do que queria, do que esperava, do que merecia, do que fazia sentido ter brilhado. Havia tantas razões para isso. Apenas não conseguimos juntá-las. Assim só brilhou, e brilhará para sempre na memória, o ouro branco de duas peças que, tão escondidas, sabem exactamente o que sentem uma pela outra. Para lá de qualquer data ou (in)conveniência.
O meu Natal foi tão turvo quanto este texto.
19 dezembro, 2005
Um bom título

Depois de catorze horas de sono, esforço-me por lembrar todos os momentos que marcaram os últimos quatro dias. E tal como revelei no artigo de opinião de ontem, na qualidade de “jornalista do MUN Daily News”, a verdade é que me sinto bloqueada quando tento falar na experiência que adquiri a vários níveis.
Quando me foi sugerida a reunião de meia dúzia de pessoas que quisessem colaborar na cobertura jornalística de uma simulação do funcionamento das Nações Unidas, nunca pensei que pudesse vir a viver momentos tão... vivos.
Não é exagero, sinto-me realmente BEM. Pela experiência prática da procura de notícias, estórias, conversas de corredor ou meros acontecimentos de agenda. Pela fuga à FSCH, que ali, na FCT, tanto criticámos. Pela fuga às salas de aula com aulas, pela fuga às folhas de ponto, aos enunciados, aos horários.
Nestes dias, nem me lembro se tive horários. Sei que acordava automaticamente, com vontade para me levantar depois de tão poucas horas de sono, sem aquela desmotivação que, apesar do balanço positivo das experiências apreendidas, caracterizou a generalidade dos dias do semestre académico que agora se prepara para terminar. Ali eu tinha coisas para fazer, tinha produções que dependiam do meu gesto, da minha corrida àquela sala ou àquele auditório, do meu trabalho, da minha escrita, das fotografias da minha máquina.

Tive a oportunidade de ver os meus textozinhos, mesmo que tão literalmente simulados, publicados no jornal “de amanhã”. Os textos que produzi numa também simulada redacção, com os colegas que creio terem sonhado ali tanto quanto eu. O produto não foi real, mas a produção do pequeno sonho decerto tê-lo-á sido, não acham, caros jornalistas do MUN Daily News?
Os alunos engenheiros (no caso, matemáticos) não deram conta do evento, a avaliar pelas vezes em que entraram de rompante na pequena redacção bem como, ao que se sabe, nos formais comités. Tentou-se de tudo: trancar a sala à chave, colocar um aviso na porta, vandalizar o dito aviso com fórmulas matemáticas... e ainda assim eles não compreenderam que ali se reservava um local de trabalho muito peculiar e aparentemente sério.
No primeiro dia, o receio era total, mas o entusiasmo estava lá, camuflado. Ainda ninguém se conhecia bem, nem entre a pequena redacção, nem entre a organização, muito menos entre os diplomatas que discutiam protocolos e resoluções nos diversos comités. Assim o confirmaram as muitas entrevistas, realizadas tão ainda de pé-atrás entre os pequenos “breaks” dos “coffee-breaks”, à procura das primeiras reacções. A primeira edição do recém-formado MUN Daily News saiu consoante o previsto, mas talvez ainda um pouco sem sal. Queríamos mais, mais páginas, mais produção, mais entusiasmo. E assim lutámos por isso, até à uma da manhã na Associação de Estudantes da FCT, depois de expulsos da nossa já acarinhada redacção, que estava apenas reservada para o Portugal MUN até às 19 horas, “só até às 19 horas, só até às 19 horas, só até às 19 horas”. O cansaço acumulado dos trabalhos académicos a entregar até ao final da semana resultou num decréscimo do rendimento que, aliado à inexperiência dos pequenos jornalistas entusiasmados, permitiu a conclusão do jornal apenas à hora que todos sonhávamos já estar a dormir. A colega Sara Biscaia foi a grande resistente ao sono, firmemente agarrada ao seu gravador a escrever entrevistas feitas aos delegados dos vários países.

No dia seguinte, demos conta da importância de cada elemento da pequena redacção, que assim conseguiu reduzir o tempo para a conclusão do jornal, pronto a entregar. Produção em série, um insere, outro fotocopia, outro preenche a requisição de um dos mil aspectos que não precisámos de pagar, outro transporta, outro dobra, outro vinca, outro encaixa, outro empilha... para todos distribuírem. Calhou-me distribuir a edição do MUN Daily News na sala da Cimeira Euromediterrânica, onde o entusiasmo pela recepção do jornal não foi a mais calorosa de todos os comités mas onde senti, em todo o caso, uma enorme sensação de conforto e plenitude. “Aqui está o nosso trabalho ao vosso dispor”. Aliás, não poderíamos provar mais o nosso entusiasmo por este trabalho do que manifestando o enorme agrado pelas reclamações feitas por alguns delegados que se queixavam da deturpação da informação por parte dos jornalistas...
A eclosão de uma crise, no mesmo dia, apurou ainda mais o bichinho do stress que a todos afectou. Uma sugestão para o título, outra para a foto, outra para o pormenor “última hora” e outra pela abordagem (pelos vistos errónea) dos acontecimentos no Sudão e no Uganda fizeram daquela edição especial do MUN Daily News outra grande experiência. “Cada um de nós vai entrar no seu comité de rompante e assim todos os comités receberão a notícia ao mesmo tempo”, propôs a Ana Filipa, também já conquistada pelo stress jornalístico daquele mundo aparte em que vivemos por uns dias. (Sim, porque ontem no Bairro Alto eu e a jornalista Sara Barata julgámos ter visto por uma dezena de vezes o colega fotógrafo, o sr. Delegado da Arábia Saudita e outros por todo o lado...)
Nessa noite, porém, o trabalho acrescido manifestou-se no cansaço de todos os elementos. Apesar do convívio esperado (e até certo ponto concretizado) no jantar-cujo-encontro-do-restaurante-exigiu-tempo-extra-porque-todos-caíram-no-erro-de-acreditar-no-meu-sentido-de-orientação, concluímos que o melhor seria voltarmos para casa e trabalharmos individualmente.

Tomo partido deste momento para partilhar o meu orgulho quando dei por mim, à uma da manhã, no carro, depois de deixar os colegas nas respectivas casas (ou não), descontraidíssima numa visita extra-MUN. Sabia que teria de acordar seis horas depois e, no entanto, aproveitei aquele encontro pessoal ao máximo, acordadíssima, sem olhar para o relógio! Estou a evoluir!
Mas retomando, o dia de sexta-feira começou cedo, pela hora que referi, num movimento já bastante automático de “vou trabalhar, não tenho sono nenhum, toca a levantar esse rabo da cama que experiências estimulantes aguardam por ti”. Nelson Traquina esperava-me para me dar duas boas notícias (literalmente) e para receber de mim mais três trabalhos de produção jornalística: uma reportagem geral cujo balanço é, a meu ver, positivo, dada a boa organização de tarefas; uma reportagem individual que terminei num pequeno intervalo da hora do fecho da edição do jornal-real-de-sonho na tal noite na associação de estudantes (estou definitivamente a evoluir); e uma notícia de agência sobre ataques terroristas de norte a sul de Portugal, enunciada para ter sete parágrafos. Este terceiro trabalho foi sem dúvida o mais interessante. Assim o confirme Mariana Barbosa, a jornalista que se encontrava aproximadamente na mesma situação-de-sono que a minha pessoa. Falámos meia hora antes de olhar para o enunciado, soltando “como se sente?”, “quantos artigos escreveste para hoje?” e “mandaste o mail ao grafitti-man Guilherme?” que denunciavam a exclusividade do nosso interesse para o Portugal MUN a decorrer já do outro lado do rio. E mesmo quando pegámos no dito enunciado, começámos por esboçar na folha de rascunho expressões parecidas com “Federação Russa animada em jantar-convívio” ou “Crise no Sudão prevista para ser solucionada hoje na Assembleia Geral das Nações Unidas”. Mesmo assim, lá nos esforçámos por terminar o trabalho académico, qual responsabilidade que passou a fazer parte de nós, colegas de redacção, para cumprir todos os trabalhos solicitados. Da minha parte, escrevi a notícia tão ansiosamente à pressa que só no momento de passagem para a folha de ponto é que dei conta de ter escrito um parágrafo a mais... mas não há tempo, estamos perante a pirâmide invertida, corta o último e entrega.
Minutos depois já estavamos de partida para a nossa casa daqueles dias, FCT de nome... O cansaço era de facto evidente, a chegada à redacção foi tardia mas mesmo assim não sobrara já energia para ter o jornal pronto à mesma hora do dia anterior. Um café, dois cafés, lá saiu, lá foi lido e criticado pelos vários comités, um almoço às pressas, a inversão dos papéis quando os delegados rodearam os jornalistas a comentar o seu trabalho, mais um café e toca a instalar a cobertura jornalística na Assembleia Geral decorrida no Grande Auditório.

Muitas formalidades, muito trabalho de pesquisa, muitas conversas de corredor, muitas decisões e muitos discursos marcaram aquela interessante tarde em que o vento frio e cortante lá de fora foi abafado pelas acusações diplomáticas dissertadas à mesa em tom irónico e caloroso. Mesmo no coffee-break o trabalho foi activo, da minha parte atirei pela goela mais um café cheio e retomámos a sessão, cuja resolução concluía pouco mais do que o que todos sabiam à partida. Em suma, todos os presentes confirmaram que as formalidades de acontecimentos deste tipo atrasam em muito a aprovação de resoluções, mas nem por isso o empenho de parte a parte deixou de se fazer sentir.
Quando todos os diplomatas foram para casa vestir-se a rigor, os jornalistas permaneceram na redacção-reservada-apenas-até-às-19-horas até mais tarde, qual jornalismo que nunca tem horas. Um motivo de força maior se elevou, no entanto, arrastando todos os redactores para suas casas, vestir-se e pintar-se para estar à hora marcada na discoteca Kapital. Os cafés começavam a fazer efeito e a ânsia pela noite era visível, à procura de grandes acontecimentos para publicar na manhã seguinte.



Apesar de não ter sido esse o caso, porque o esgotamento aproximava-se, a noite foi aproveitada ao máximo. A imparcialidade da qualidade de jornalística terá de ser aqui abandonada, pois só posso revelar a minha opinião pessoal sobre o que ali se passou. No terceiro piso, lembro-me (...) de ter ouvido, finalmente em pista de dança, o excitante new hit da Madonna estilo anos 70 em que os mais tímidos delegados se revelaram. A partir daí, as vodKas Ke Karacterizam o grupo K, Kom vodKa igualmente no gelo, degradaram a minha imagem, impedindo que agora saiba relatar cronologicamente os acontecimentos . Hoje já sei que encontrei amigos extra-MUN, sei que roubei uns cornos de rena a alguém igualmente extra-MUN, , sei que o delegado da Argentina atirou a minha máquina fotográfica ao chão, sei que acusei a maioria dos diplomatas presentes de homossexualidade, sem que manifestei actos lesbianos no meio da pista de dança, sei que não sei de muita coisa, sei que às seis da manhã era a única que não queria saber do horário de trabalho para a manhã seguinte (o que prova novamente a mudança radical que operei nas células organziadas do meu organismo) e sei que nesse momento final aproveitei para retribuir o papel de pendura na boleia do delegado da França que terei conduzido perigosamente à faculdade nessa manhã. Pouco me lembrando do caminho até ao carro, estou agora consciente que arrastei quatro pessoas até uma padaria por minha causa, onde adquiri um pão-com-chouriço que levei meia-hora para acabar de comer. Aos ziguezagues procurei fazer uma expressão calma perante a minha Mãe, que se cruzou comigo, acordada, em casa, e caí redonda na cama depois de marcar o despertador para três horas depois.
O acordar foi o menos automático daqueles dias. Agoniada, a desesperar de sede e tontíssima tomei um banho que não me acordou e dei por mim a dar gargalhadas no carro, antes de apanhar as restantes jornalistas que se riram igualmente quando a troca dos nossos olhares denunciou o mesmo pensamento. Com receio de uma operação STOP que confirmasse a ainda presença de álcool no meu sangue, conduzi cuidadosamente até à FCT pela última vez.
Definitivamente o rendimento era quase nulo. A minha sorte foi ter escrito cinco artigos na noite anterior, com a energia que tinha guardado para a gala. Na manhã de ontem não fiz nada senão ler blogs, falar no MSN e beber água.
Depois de um almoço-buffet que não pôs de lado a qualidade da cantina da faculdade, com a qual a Avenida de Berna deveria aprender, o jornal saiu depois das cinco da tarde, o que só provou o nosso estado. Mesmo assim, a qualidade manteve-se, se esquecermos pormenores como a data da edição anterior que nem sequer foi alterada. O Suplemento “Making Of” captou a maioria das atenções e então percebemos que o trabalho tinha terminado. Na hora do reconhecimento, na sessão de encerramento, cada jornalista foi chamado ao palco para receber um diploma de organização que começou a alimentar o bichinho da nostalgia.
O útlimo coffee-break, mais digno de coffee-end, foi utilizado para as despedidas. Membros da organização despediam-se com abraços, fazendo votos para a realização de um World MUN em Portugal (eu vou!!!). Com os diplomatas parecia haver ainda alguma distanciação, provada com meros votos de Bom Natal.
No carro, a viagem para casa fez-se novamente em piloto automático (posso agora revelar aos meus colegas que foi um risco terem sido conduzidos por mim em tal patamar na escala de cansaço) e, ao chegar a casa, sozinha, senti-me vazia. Deixei de ser jornalista, despi a roupa (já não muito) formal, tirei o crachat que dizia "Press" e, ao contar às pessoas extra-MUN a experiência, percebi que “só quem lá está poderá perceber”. Foi um autêntico reality-show, com direito a regras, hierarquias, algum aprisionamento, muito trabalho, muita diversão e até algumas paixões.
Obrigada pelo fim tão solario que proporcionaram ao meu semestre. Senti-me realmente motivada. Sinto-me realmente feliz.
05 dezembro, 2005
O turbilhão

29 novembro, 2005
Visitem o nosso cantinho jornalístico!
20 novembro, 2005
Refúgios
Todos nós sentimos falta de um. Nem que seja por um momento na vida. Esses momentos que os spots e as folhas de imprensa a anunciar telecomunicações mencionam. O fracasso amoroso, a consciência da efemeridade da vida, as indecisões, as grandes decisões, as grandes desilusões. As experiências, os estados de espírito, a alegria, a apatia, a angústia.
A reflexão. Precisamos de refúgios para reflectir. Precisamos de um espaço de isolamento, no seio desta massa de espaços onde ninguém se une. Apesar de tudo ainda resiste a consciência de que temos uma interioridade e uma exterioridade. A interioridade que revela com uma transparência cruel as nossas fraquezas, os nossos pecados, os nossos erros conscientes. Mas só expressamos os orgulhos feridos, as cobranças, os podres de uma essência cada vez mais egoísta.
É permanentemente urgente esse espaço de refúgio onde escondamos todo o nosso cinzento. Mas nem nesse grito interior somos iguais, para sempre criadores e vítimas da discrepância de direitos. Feliz de mim que tenho uma cama onde me deito, acolhida, protegida e quente, onde sussuro ou soluço à minha almofada todas as nuvens carregadas do meu dia. Os que não têm essa almofada - como aqueles que regelam neste preciso instante debaixo da chuva, cujo som hipocritamente me delicia, quente sob o edredão - não dormem quentes, antes adormecem a sonhar com esse momento.
Eu saboreio cada vez mais este prazer pela reflexão, por este egocentrismo que não precisam de me denunciar, porque o descrevo gritantemente para dentro de mim sem pedir a ninguém que o oiça.
Eu agradeço hoje ao Céu por saber que posso correr para este espaço, que é meu, quando eu quiser, durante o tempo que eu quiser, e pedir-lhe que oiça a minha alma.
Hoje, quando me angustio, é aqui que renovo a vontade de sorrir e é aqui que ganho a plenitude que em tão pouco me caracteriza. Quando posso, refugio-me em mim neste refúgio. Ando, caminho, pedalo ou simplesmente páro a sentir o aroma da lenha queimada que sai das chaminés, qual aconchego de um lar que se esvai no ar pesado de Inverno. Nesses momentos, em que o espírito das famílias se mistura com o respirar dos pinheiros e o silêncio da fauna, relembramos a unidade da Natureza, tão mal tratada, mas que ainda assim acolhe os frutos de todas essas casas.
Todos esses fios de fumo têm origem em lares diferentes, em rotinas e pessoas diferentes, mas todos eles sabem que se aliviam justamente na viabilidade da sua união. "Diversidade não é dispersão". Não nos refugiamos por termos um problema grave, mas por termos uma maneira específica de lidar com um problema que é partilhado por tantas outras pessoas, outros indivíduos, transeuntes, vultos que se nos atravessem ou não.
Conheço o alcatrão que piso e acho-o feio. Frio. Sei porém que ele marca o tempo em que existo, este tempo tão estrutural que ninguém domina. É sobre ele que caminho e dele que admiro e devoro a pouco e pouco o luar que se completa ou o sol que se põe, tão longe de onde me posiciono, no meu refúgio, a reparar a sua distância através das ramagens dos pinheiros.
É noite e o céu emite luz. Do meu refúgio vejo as estrelas que a Lisboa que amo não me mostra.
É assim que funciona. Da Lisboa que me constrói, que me apresenta aos outros, que me faz feliz e infeliz, refugio-me para fora dela, para onde possa falar dela para mim, sobre mim e sobre o meu mundo, porque o meu refúgio é só meu. Para ele sou eu quem interessa e ele não interessa a mais ninguém.
Levo para Lisboa o que dele trouxer. Claro.
15 novembro, 2005
Visitem sff!
Obrigada!
04 novembro, 2005
Um olhar para o futuro
Ouvem-se gritos entre os membros da família que dirige o bar, a discutir sobre as mesas que falta servir. Rapazes com boné na cabeça atravessam a esplanada a correr, sem nada fazerem para repor no lugar as cadeiras que desarrumam. “É isto que me atrai”, diz esta estudante de Ciências da Comunicação. “Estes pequenos grandes quadros que espelham a sociedade. A pobreza, a ausência de oportunidades educativas que estas pessoas tão bem transparecem. Mas também gosto de me pôr a analisar o Mundo na generalidade, obviamente de forma modesta”.
Débora é uma jovem de vinte anos que tem como objectivo lutar para alcançar um lugar no jornalismo. Acredita que o curso seja um bom passaporte para esta profissão. Daquela espalanada, o horizonte que visualiza fá-la relembrar esse esforço, que persiste desde a infância. “Na altura em que ainda não tinha sequer entrado para a escola primária, dava por mim a riscar com imensa raiva um quadro a giz que os meus pais me tinham dado para desenhar”, conta, remexendo uma caneta entre os dedos. “Queria fervorosamente saber escrever, porque me fascinava a imagem que tinha daquelas linhas com palavras de letras arredondadas”. O gosto pelo prática jornalística não tardou quando, num dia dessa infância, numa viagem de carro por Lisboa em hora de ponta, Débora ouviu o seu pai falar sobre a azáfama que lhe está associada.
O tempo e a experiência rapidamente fizeram com que esta estudante se apercebesse dessa dinâmica de trabalho que a sua aspiração exige. A confrontação permanente com o pai, que hoje a aconselha a procurar oportunidades além-fronteiras, é o seu grande quebra-cabeças: “Com a crise que tem desgastado o nosso país sou obrigada a pensar que mais facilmente tenho sucesso lá fora, mas não me imagino longe das raízes que aqui criei a todos os níveis”, lamenta.
A família que tem e aquela que gostaria de construir um dia, assente numa rotina saudável choca com a sua vontade de contar histórias de vida de pessoas que vivam noutras culturas. Pesa também o facto de ter estudado em colégios católicos durante doze anos, o que incutiu nela um espírito de entrega e de sensibilidade que admite ser um entrave ao espírito aventureiro. “Costumo autodesignar-me de diletante, porque a minha vontade de executar coisas concretas fica apenas pelo papel, na maioria das vezes. Parece que não levo a sério os meus próprios desejos, ou então estou precisamente à espera que o tempo me ensine a «sair da minha concha», como costuma dizer o meu pai”.
É esta luta contra a sua própria resistência que move Débora hoje a tentar efectivar alguns anseios. A blogosfera e a aprendizagem de novas línguas fazem-na sentir-se mais perto do sonho de um dia ver a sua crónica publicada, por exemplo, na revista Única do jornal Expresso. Adorou as duas viagens que fez aos Estados Unidos, uma à Florida, outra a Nova Iorque, pela impressão de imponência que o poder americano provocava no espírito de uma criança em crescimento. Adoraria repeti-las hoje, para então ver tudo com um sentido crítico mais apurado.
Não há nada mais aliciante na vida desta jovem do que olhar para um quadro do seu quotidiano e imaginar como poderia escrever sobre ele. Diz mesmo que é sua frustração não conseguir manter uma conversa com alguém ou meramente passear na rua sem tomar atenção ao modo específico como as coisas e as pessoas se movem. “Adoro ir no metro e descrever mentalmente o passageiro que segue à minha frente, ou apreciar o silêncio de uma carruagem apinhada de gente”, relata, com um brilho entusiástico nos olhos castanhos. “Mas também gostava muito de conseguir quebrar esse silêncio e encher aquelas pessoas de perguntas, de ouvi-las falar das suas vidas, especialmente aqueles que parecem mais sozinhos, como os pedintes. Sei que nunca terei muita coragem para isso. Então habituei-me à ideia de escrever sobre aquilo que observo em silêncio”. Fica a esperança de, um dia, chegando sozinha à América, ter coragem para investigar tudo o que observou na idade da inocência.
Débora vive os seus anos académicos a sonhar com alguma estabilidade na vida incerta que se lhe avizinha. Acorre muitas vezes àquela esplanada para saborear um bom peixe grelhado com a família. Horas depois escreve sobre aquilo que vê: a nacionalidade dos empregados, o grupo de jovens que por ela passa a dizer palavrões em voz alta, o surfista que não olha senão para o mar, as gaivotas que afluem à beira-mar quando os pescadores recolhem as redes cheias de peixe. Sente inveja dessas gaivotas quando olha o horizonte e alimenta aquela vontade de atravessar o Atlântico, para um destino onde possa amadurecer as suas observações. “Queria ser como elas”, suspira a jovem. “Voam por este mar fora à procura de peixe, mas fazem do seu ganha-pão um conhecimento aventureiro do mundo, sem por isso precisarem de se afastar dos seus companheiros...”
Para contrariar esta quimera, é na racionalidade que procura soluções viáveis. Embora ninguém da sua família trabalhe na área da comunicação, Débora considera que a partilha de experiências profissionais não pode deixar de ser uma mais-valia. A irmã arquitecta, o pai engenheiro civil e sobretudo a mãe médica inspiram todos os dias a sua escrita com novas histórias para contar. É com o desejo de escrevê-las fervorosamente antes do fecho da edição do jornal que cresce a cada dia nesta estudante a vontade de dinamizar as suas ideias, para além do simples olhar e do canudo no final do curso – que tantos consideram suficiente para o sucesso profissional.
Assim como observa o mar que se estende diante dela, Débora fica atenta às oportunidades, na esperança de que uma gaivota a acompanhe até um destino onde possa viver do que escreve e então construir uma família feliz.
30 outubro, 2005
O fim do mundo
18 outubro, 2005
Sorriso procura-se

Nunca mais o vi.
Não sei porque me arrasto desta forma há tanto tempo. Há mais de um mês que os meus pés transbordam da cama. Não quero ouvir, não quero ouvir repetir, não quero ver o que via há tão pouco tempo. Desnecessito dessa euforia, desse rescaldo de férias para os próprios amigos. Nem sequer me apetece perguntar. Não me apetece ouvir, contar, ouvir, contar, criticar, rir, conversar. Nem dialogar, nem conviver. Não quero um café relaxante, muito menos uma música estridente a tirar-me a noite de sono tranquilo. Na minha cama, nos meus lençóis, na minha almofada só minha.
Mas nem isso me deixam fazer. Tenho de me levantar todos os dias quando ainda converso com a minha almofada. (Até isso eu deixo a meio). Arrasto-me novamente para essa regra, esse curso de regras, este percurso que não me ensina as regras para aguentá-lo e sobretudo esta regra tão minha de não conseguir, de não acreditar, de não saber fazer mais. De não sorrir.
Desmotivo. Com tudo, com toda a gente, comigo mesma. Não me apetece ouvir-me, então calo-me. Não me apetece sequer ouvir o ecoar dos meus pensamentos dentro de mim, então olho para baixo e choro. Como se o soluçar abafasse o que penso. Parece que eu já nem penso em nada, que deixei de raciocinar. Todas as minhas ideias ficam pela metade, ou são turvas demais para que alguém as entenda. Libertar esta minha ampla frustração resulta sempre num desabafo pobre, durante uma conversa inoportuna. Então as ideias apodrecem e no dia seguinte já não me lembro de onde vieram.
Corro e salto desenfreada. Eu esforço-me, sei que me esforço. É incrível como nem a desmotivação me deixa ser desorganizada, tal é o pânico de me perder de vez. Talvez deva ver isso como uma contra-atitude, como a vontade de transpirar todas os pensamentos apodrecidos. Cinzentos e feitos cinza. Mas parece que nem isso resulta, porque logo depois esfrego a pele, deixo-me encharcar e fecho os olhos em busca de uma nova ideia, mais colorida e... possível. A desmotivação impede-me. Baixo novamente a cabeça e as lágrimas misturam-se com a água. Vivo na ilusão de as disfarçar, mas o doce é o oposto do salgado...
Não quero falar sobre isto. Outrora senti saudade daquela conversa confidencial, mas hoje, agora, não me serviria de nada. Deixei de saber falar espontaneamente. Os pensamentos correm mas a neblina desta alma confusa não os deixa passar para a voz, esta voz trémula e insegura. Esta alma fria que aproveita o vento invernoso para se esconder ainda mais, sob o casaco e o guarda-chuva. Esta alma que corre na esperança de avivar o ânimo quando sente o aroma das castanhas assadas... e que abranda, frustrada, quando esse empurrão se desvanece, assim, num segundo. Sem saber porquê.
E no entanto falo aqui. Falo aqui à mercê de todos os olhos do mundo que entendam este dialecto - responsável por tantas das minhas dúvidas. Não quero que vejam esta fraqueza tão exposta, mas quero lá saber, este clic é a hipótese mais próxima que tenho de me obrigar a levar alguma coisa até ao fim. Se quem eu não queria que lesse, ler, paciência. Talvez essa libertação sirva de bofetada para esta birra cinzenta, muda e sem motivo. Digo a todos que sim, estou "assim", ou melhor não estou, não contem comigo na vossa animação. Não sei acreditar, não encontro essa estima pessoal nem o estímulo para esse encontro. Não sei como aprender, não apreendo nada do que me ensinam, não consigo mais dizer o que penso e parece que já não há palavras que me convençam de que presto. Não consigo responder ao "que tens?", pois não tenho nada. Pelo contrário, falta-me. Falta-me vivacidade, clareza, ego, vontade, coragem, talento, alegria.
Falta-me um sorriso. Que não sei onde está nem vou procurar. Não me apetece.



