15 setembro, 2006

azul, cinzento

Sinto-me como o céu se sente hoje.

Amanhã.

11 setembro, 2006

Aeroporto

Welcome - Bienvenue - Willkommen - Bem-Vindo

Eis um palco de sensações fortes. O espaço que tenho vindo a conhecer melhor, porque contactado melhor. Mais. Mais intensamente. Quase. Sentindo já tudo tão na pele.

Sobre o frio do mármore ou outras pedras que combinam com o ar condicionado e o grande volume de espaço em redor, passeiam-se carrinhos para bagagem, arrastam-se pés de quem por lá vive, os sapatos de salto alto das hospedeiras, os sapatos engraxados dos business men, os ténis dos turistas, os sapatos gastos de quem parte ou chega em busca de oportunidades, saltando continentes.

No meio de tantas diferenças, sobressai o que de tão intenso encharca aquele ar. Despedida. Suave ou intensa, seca ou chorada, breve ou indeterminada, próxima ou distante. No meio de burocráticos processos a lembrar um pescoço de um passageiro ou um piloto cortados com um X-Acto, por entre papéis e despachos e muito dinheiro, é naquele espaço de autênticas chegadas e partidas que pisam vidas, experiências, passeios, devaneios e carreiras.

Viagens.

Sinto-me como nos filmes. Correndo para o aeroporto, pouco antes do embarque, para dar o último abraço, o último beijo, o último aperto, o último olhar, o último aceno. Porque a última lágrima não está agendada.

Mas depois de ficar tantas vezes, agora quero ir. E está quase a minha vez.

01 setembro, 2006

Setembro

Eis o mês em que até os míopes vêem melhor. Cada dia que passa o Sol esconde-se um pouco mais cedo, parecendo chamar a atenção daqueles que gostam de aproveitar o tempo. Convencidos pelo espírito da rentrée a vários níveis enchemo-nos inevitavelmente de uma energia que dizem ser o verão a repor. E então, "este ano vai ser diferente".

Prepara-se mentalmente a lista dos projectos. Este ano é que me vou meter naquilo, desta vez é que vou àquele sítio, agora vou mesmo mudar este hábito.

A lenga-lenga repete-se ano após ano e hoje continuo sem saber se o facto de em Outubro já só termos dez por cento daquela energia se deve à magia que só faz fotossíntese à luz de Setembro - ou ao simples reconhecimento de que não conseguimos avançar de uma vez com todos os planos que temos em mente.

Será o Verão uma ilusão? Acaso a verdade, é uma pena. Porque no Verão ficamos invariavelmente mais felizes e a verdade é que é no Inverno que damos provas do nosso valor. Como se a auto-confiança nos ajudasse a sobreviver ao frio dos dias.

Seja como for, e embora não saiba se sinto isto por Setembro se ter aproximado a um ritmo galopante (!), a verdade é que este mês é... bonito. Não fosse ele e a depressão-de-fim-de-Verão seria insustentável. E a sorte é que ele surge progressivamente. Agora que ele chegou sinto já a minha Lisboa a renascer, a alimentar-se daquilo que lhe é próprio; substituo a angústia pelo alívio quando torno a ouvir as buzinas dos cargas-e-descargas, a ficar apertada no metro em hora de ponta e a poder usufruir finalmente de alguns serviços.

Se calhar, porém, só sinto este ar renovado dentro de mim porque ainda saio à rua com os meus pés bronzeados enfiados nas havaianas.

Enfim, Setembro é um fenómeno. Só tenho pena que este ano não possa fazer planos como os que fiz em todos os outros. Ou por outra, talvez o plano que fiz - e os que fizeram por mim - simplesmente não deixe espaço para muitos mais.

17 agosto, 2006

Sobre os carris do Alentejo

Gosto das metáforas e da realidade simplificada aos meus olhos. Atravesso o olhar pelo comum dos mortais, ignoro o pensamento dele, quiçá também concentrado. Ambos relaxamos com a ajuda destes fios conectados aos ouvidos, cada um a transportar decerto uma energia diferente. Por detrás do seu perfil vejo uma paisagem alentejana, aquela que arriscaria dizer só o portugês nato e amadurecido saberá observar para além do verde e castanho secos.


Sinto como se os sobreiros falassem a toda esta carruagem, lembrando que o equilíbrio passa por olhar para eles com alguma frequência. Passa a senhora com petiscos para o lanche, quebrou a minha concentração, mas agora não me apetece comer, vou continuar a olhar.

É esta metáfora de quase duzentos km/hora a penetrar o Alentejo rumo ao Sul que me força à reflexão. Com os olhos regalados pela luz de fim de dia de Agosto e uma alma tão requisitada nos últimos tempos mergulho num agradecimento e numa força interior que só neste sossego poderia conseguir.

Consciencializo-me de que só no isolamento se vencem algumas batalhas. Aliviante ideia, se pensar que me delicia o silêncio de uma carruagem que todos aqui obriga a conversarem apenas consigo mesmos. Não é no entanto à escala de uma carruagem ou de uma travessia do Alentejo que me apraz falar. Encontrei, ideologicamente, a proporção destes pensamentos num patamar que propõe muito mais. Alarga-se o tempo, o espaço, o contacto. E alarga-se o horizonte, certamente.

Descobri com orgulho ser isso que pretendo. Como se, no acumular de todas as viagens que fiz sob o silêncio do transporte à luz de Agosto, tivesse visto a necessidade de fazê-lo sob outra tipologia.

É irónico constatar que, na consideração de ter posto neste desafio uma fasquia demasiado alta, fui alertada para os clichés que julgava adaptáveis aos outros, nos seus projectos que eu idealizava perseguir tão mais tarde - eu, que penso sempre para tão mais tarde. Irónico porque só então assimilei os meus vinte e um anos, a empurrar-me para um novo início. Quem sabe conseguido com este primeiro passo de qualquer coisa que, pela primeira vez, conheço apenas até certo ponto da escalada.

Esta carruagem não esperou por mim, tal como a Vida não espera por nós. A ousadia de que o "próximo comboio" também surgiria na minha vida castigou-me na suposta fase madura da minha vida. Não censuro. A ousadia reconhece-se com um estalo, aos olhos dos outros, aqueles cuja imagem só nós no nosso isolamento podemos esquecer.

Soube fugir sem ser para dentro de qualquer esconderijo. E não saberia qual escolher, mesmo que o quisesse. Do lar fugiria para um coração em par, deste para uma amizade listada ou desta novamente para o lar, no arranque de um ciclo sem fim à vista.

Como se tivesse saboreado estas certezas a escapar-me das mãos, castigo-me agora, ao mesmo tempo que me sinto florescer. Numa planície como esta que se estende ao meu olhar.

Vou apanhar o comboio para ir ter comigo.

04 agosto, 2006

Calor

Humano, familiar, do lar, dos amigos, do amor, do Verão.
Quando é esta energia que o Calor traz, eu adoro-o. Consome-me por completo.
As boas notícias têm sabor a mar, a casa fica mais alegre, os amigos mais próximos, o sorriso mais presente, as viagens mais apetecíveis.
O comboio vai soar a partida e eu hei-de ficar no meu lugar, sentada, sossegada, observadora. Isolada no meu Eu, como só agora faz sentido precisar.
Hoje sinto-me capaz de enfrentar as temperaturas negativas do amanhã. Ou, mais precisamente, do mês e pouco que falta.

23 julho, 2006

No vale do semblante.

Semelhante a um manual de instruções. Por fases, seguindo uma de cada vez, com cuidado, com se’s. Como num manual de instruções também há momentos em que não percebemos o que nos indicam, parece que algo não bate certo.

Folheio essas fases, embebida de inseguranças, de muita esperança, de sorrisos sinceros e transparência. Só disfarço as lágrimas, quando elas me atraiçoam. No fim de cada dia folheio mentalmente o que me trará o amanhã, a semana seguinte, o mês seguinte num fechar de olhos molhado, fraco e isolado.

Com o raiar de cada nova manhã correu nestas veias a tranquilidade, a vontade de subir àquele terceiro andar para lembrar a presença, o amor, o valor – e garantir que somos especiais, sem pretensões no entanto.

Aos poucos fui tomando a consciência do que tenho em meu redor de certo e incerto, de corajoso e cobarde, de prestável e impotente, de insignificante e imperativo.

Nunca duas velas do meu aniversário tinham sido tão partilhadas, tão amigas, tão fiéis. Sopradas ao sabor do lar, com a fragrância de um ar que se construiu pelas suposições e contrariedades do início, pela consciencialização das prioridades entretanto e pela consolidação dos valores com o passar do tempo. Os princípios que o quotidiano de uma Família faz emergir e que comandam as emoções com esta facilidade. Falo pelo Caranguejo que sou.

Depois de aquela cigana me agoirar o mal só porque não quis ouvir o meu futuro pela voz de uma estranha acabei por confirmar o que pressentia para este arranque de terceira década de Vida. A mudança iria envolver-me, essa que vira como um desafio e que agora ganhou contornos de protecção. Ou, na perspectiva contrária, de abandono.

Agora as dúvidas quanto ao desafio ganham novos argumentos – que desejava ardentemente não ter precisado de conhecer para olhar os anteriores com desdém. Pois enquanto nos movimentarmos, respirarmos e contactarmos tudo ganha viabilidade.

Agora as ausências adivinham mais dor. A saudade antecipada rouba a força, a coragem que nunca foi muita e até a vontade de ir. Um desafio que julgava enriquecedor soa-me agora, todas as noites, disparatado e irreflectido. Mesmo sabendo não ter nada a provar, a vontade de me pôr à prova oferece o seu espaço à vontade de saborear cada presença e companhia. Cá.

Custa, esta necessidade de abdicar de qualquer coisa. Custa conjugar o desejo sincero de estar por perto com a certeza de que quem está por perto deseja ver-me amadurecer lá longe. Custa pensar no motivo que me levou a crer que deveria ir. Custa mais agora pensar que falta tão pouco para sentir tanto a falta de quem fará sempre falta. Por se ter unido quando a surpresa nos surgiu como só ela sabe surgir.

Não gosto de clichés, não gosto do carpe diem, não acredito que viva mais por me concentrar no momento. Acredito sim que sofro mais, tão mais, pelo medo constante que nasceu comigo, este medo do futuro em todos os seus sinónimos.

A dúvida consome-me, o pânico aproxima-se e eu recuo. Como ultimamente tenho dito, não posso mais planear. Não tenho força nem experiência para isso. A Vida tem-me dito, nos últimos dias, que a Família, a Saúde e os Amigos são tesouros a acarinhar. E para isso precisava de estar presente. Para não sentir falta, para adiar a saudade, para ter onde chorar depressa, para estar segura e retribuir a dedicação que até hoje me foi dada.

Está a corroer-me este sofrimento de não saber o que será melhor.

E no fim, tal como num manual de instruções, ficam as hipóteses. Ou se consegue sem saber como, ou se persiste com a ajuda do tempo, ou se desiste.

06 julho, 2006

O semblante

Depressa se escondem os traços outrora mais visíveis, aqueles que a todos familiarizam pelo tom inequivocamente superficial. Uma bola na rede certa, uma agenda cheia de cores ou um simples bonito dia de sol carregavam a força do sorriso que em todos queremos ver. Pois os traços lá se esconderam, frios sob os poros da pele, por onde agora só entram os olhares que nós queremos. Como se nos sentíssimos bem apertadinhos, naquele calor tão forte, o calor humano do núcleo do lar, preso num espaço também apertadinho. Um espaço para tudo o que é preciso. É dele que olho lá para fora, para os sorrisos que ainda espreitam acolá, lembrando-me novamente da perícia em que consiste o olhar para além da visão. E por isso é para este espaço que eu tenho a certeza que poucos estão a conseguir olhar. Aos que me e nos observam realmente, com aquela palavra certa ou mesmo aquele silêncio que diz tudo, a esses devolvo a garantia que é por eles que ainda olhamos lá para fora. Para aqueles que, de lá, se mostram capazes de estar atentos a todos os casulos espalhados pelas arestas das suas caixas de amigos.


Para os que mantêm um olhar inocentemente ignorante, cá dentro não somos capazes de declarar nada, pois a força do instinto amigo não se manifesta e creio que não compensa acenar para que nos vejam. Conformo-me, tranquila. Dói mais quando tantos daqueles pares de olhinhos que apareciam no parapeito do casulo, tantas vezes, fazendo parecer daquela fronteira um espaço tão mais amplo e harmonioso, não espreitam mais, por qualquer motivo que quase parece não ter agora importância alguma. As marcas dos cotovelos apoiados no parapeito ainda se vêem, mas a erosão vai tratando do assunto. Faz-nos acreditar que é possível já ter passado, que não há lugar para rancores num espaço tão pequeno, num tempo tão valioso.


Tudo porque o semblante oscila e nem sempre aquele mais escondido está ao alcance do olhar de quem gostaríamos, ou de quem seria suposto. Importa assim recarregar as forças do casulo, queimar os ácaros das arestas e, se Deus quiser, sair enfim de volta para o mundo dos semblantes, onde então o nosso lembrará a hierarquia dos valores.

Enquanto isso, não calculam a força que vai cá dentro.

01 julho, 2006

(Mesmo) Imbatíveis.

Porque arrisco dizer que só nós temos este espírito, este de quem se agarra a uma causa como se pouco ao nosso redor ainda fizesse sentido louvar sobre uma Pátria fora das memórias áureas. Portugal faz HOJE História, o nosso apesar de tudo tão querido País representa-se de uma forma que nos faz reconhecer como há alturas em que a força para ostentar o Vermelho, o Verde e o Amarelo é profunda demais. Nada como a força de vontade que nos caracteriza para pôr de parte os tão sempre emergentes pessimismo, falta de confiança e prontidão para a crítica. Porque, como o bom Português tão bem sabe fazer, à última da hora é que nos lembramos que podemos vencer. Aconteça o que acontecer, já vencemos, pois já pudemos, neste arranque crítico do novo milénio para os Lusos, voltar a gritar com aquela garra que faz as lágrimas quererem saltar para também fazerem a festa.

Obrigada, Nação Valente.

30 junho, 2006

Uma geração desorientada

Escrevi este texto em Fevereiro passado e não sei ao certo por que não o publiquei na altura. Talvez a clara transparência, passe o pleonasmo, me fizesse crer que o deveria mostrar a quem o soubesse ler como o escrevi. Mas sujeita a esta eterna espera de feedback, e porque nada melhor do que esta fase de transição académica da minha vida, ei-lo

Fala-se em aposta na educação, em reformas no ensino superior, em jovens que farão o futuro do país. Aos poucos vemos o esforço relutante de dar as mãos entre o ensino e a tecnologia, na esperança de nos aproximar das invejadas “médias europeias”. Quem sabe, as crianças de hoje não venham mesmo a lucrar com isso?

Mas nós, os estudantes do ensino superior de hoje, de uma transição ainda não palpável, sentimo-nos descurados desse apoio. Aliás, são as falhas de que nos queixamos que alertam os governos para a necessidade de dar importância à educação dos jovens. Há pouco tempo, na Universidade Nova de Lisboa, onde estudo Ciências da Comunicação, uma Professora minha, ainda nova, mostrou-se muito surpreendida quando lhe contámos, seus alunos que rondam os 20 anos, ter sentido uma grande angústia no tempo em que nos era imposto seguir uma determinada área profissional. “Mas vocês chegam ao ponto de deixar que o medo da situação do mercado de trabalho influencie a decisão sobre o que querem fazer da vida?”, perguntou-nos, incrédula. Confessou, garantindo que a sua geração era unânime, não ter essa consciência.

É a mais pura verdade. Desde o tempo em que nos ensinam a importância da evolução tecnológica, fazendo da Revolução Industrial o grande passo da nossa História, parecem esquecer-se simultaneamente que é preciso darem-nos o espaço, a oportunidade e as condições para que façamos, um dia, História também. E no entanto sinto, juntamente com a maioria dos meus colegas, um desamparo desmedido que nos faz sentir que a única solução para vingarmos na vida passa por um dinamismo consciente da ausência de apoios. Resta-nos fazer e procurar, lutando contra os obstáculos que parecem só agora constituir uma “questão a estudar no plano legislativo”. Talvez para daqui a alguns anos.

Enquanto isso, porque não podemos perder tempo a esperar, resta-nos seguir esse caminho de pedras, buracos e poeira. Um caminho em que nos constituímos cidadãos como autodidactas, por não termos sobre nós o princípio, o exemplo. Se tanto lutam para que tenhamos uma infância feliz, longe das atrocidades que sabemos atacar crianças por todo o Mundo, violadas, exploradas e famintas, a verdade é que crescemos com uma maturidade fragilizada que não permite, a muitos, enfrentar as dificuldades da crua realidade prática da vida.

Quando julgamos sentir em nós a capacidade para “mudar o mundo”, depressa nos retiram esse alento, gritando-nos diariamente sobre as elevadas taxas de desemprego, acompanhadas da frase-desilusão “ainda tens muito que aprender nesta vida”.

Parece ser este o espírito perdedor de um povo de glórias passadas que viu o tempo correr e já não crê no retorno dos tempos áureos. E que culpa temos nós, jovens obrigados a estudar todas as datas que marcaram a magnificência portuguesa, que o caminho percorrido desde então por Portugal não tenha sido mais bonito, nós a quem pouparam a oportunidade de acreditar mais agora para viver melhor depois?

Desorientaram-nos porque se sentiram atraiçoados pela conjectura que os antecessores viveram. Fraquejaram com esta crise de identidade permanente, qual criança de um país de Terceiro Mundo que não pôde sentir a protecção à sua volta.

Hoje somos negativamente acusados de espírito revolucionário, de não nos esforçarmos, de deixarmos de estudar. Porquê? Porque sem um desenvolvimento motivador somos forçados a trazer esse dinheiro caro para casa, a trabalhar cedo para viver, e não a trabalhar para cultivar outros sonhos. Aos que tiveram um berço mais feliz mas apenas aos que sabem valorizá-lo, é possível pegar em alguns tostões e alargar horizontes, procurar oportunidades além-fronteiras, ir. São esses ou os que sonham com isso que, quando abordados na rua pelos repórteres sobre o que fariam com o prémio do Euromilhões, respondem, sem hesitação e com um sorriso ambiguamente melancólico e determinado, “ia embora daqui”. São esses que, com uma frustração cada vez mais unida, parecem só saber gritar “Portugal!” a todo pulmão quando o futebol os faz esquecer que, aqui, não têm espaço para muito.

Não nos culpem por nos revoltarmos e querermos ir embora de um País que não nos ajuda.

18 junho, 2006

Imbatíveis Portugueses - permanente actualização

É favor cantar com a melodia do Dartacão :)

[de volta às origens.]

Era uma vez os onze imbatíveis portugueses
Do Scolari campeão são os vencedores
Não mporta a arbitragem e os seus cartões Não importa o Zidane e o seu penalti
Porque
somos e seremos sempre campeões

Quando eles vão a jogar
Já ninguém lhes tira a bola
É o Figo a passar e o Maniche a marcar
Uma finta aqui e ali e o bailinho a pairar
Holanda e Inglaterra p'ra trás a ficar

Vai o Cris Vai o Cris
E marca o golinho
Vai Ricardo Vai Ricardo
E defende os penalties
Vai o Figo vai o Figo
E passa a bolinha
Pró Pedro Pôlétaaa

Ricardo Carvalho
Defende com pinta
Vai o Deco vai o Deco
E faz uma granda finta
Nuno Gomes sai do banco
E marca o golão que salva a Selecção
Força Portugaliii !!

13 junho, 2006

Falta um pouco.

Sinto-o aproximar-se novamente. Esse vento mais forte que leva as cores mais carregadas da minha mente. Surge sem aviso, é inconveniente, fatigante e bloqueador. Faz-me ter saudades das manhãs em que salto da cama atrás dos meus projectos, para tantas horas depois concluir que foi um dia preenchido e isso preencher-me interiormente. Dar um contributo a qualquer nível faz-me sentir maior e melhor, ajuda-me a acreditar nas capacidades que se escondem na ramificação melindrosa de uma alma que dá tão pouco do que poderia dar. Ocupar o tempo, saboreá-lo com sorrisos, partilhas, lembranças, planos, conversas, presenças, eis a vontade que recalco com o passar dos anos, presa ao futuro que “só virá depois” e que, convenço-me, me dá tempo de aprender a vivê-lo. Armadilha essa a de me distanciar do amanhã, por saber hoje que assim já perdi muito do que pude ter. Feliz, polida, tranquila, responsável e atenta, características que já não coincidem certamente com o dinamismo, o risco, o avanço, a vontade e a sua força. Orgulhosa sim, de mim mesma, porque antes tarde do que nunca adquiri essa consciência, a de saber que “tenho de” mais do que “terei um dia de”. O futuro faz-se no presente, a nuvem que passou sei-a aproximar-se de novo, mais tarde ou mais cedo, e terei de estar preparada para ela, cada vez mais e melhor, até ao dia em que faça e diga tudo sem sentir a tempestade que me cai em cima.


Falta pouco para esse auto-teste, sem que dele precise de tirar provas para quem quer que seja. Mas aproxima-se impiedosamente a data marcada em que terei de pôr em prática tudo aquilo em que tenho pensado, sobre o que tenho escrito, que me tem atormentado e encorajado, nuns dias mais, noutros menos. Nessa altura não terei tempo para projecções, talvez nem sequer expectativas. Não as quero, por me faltar a bagagem que permita construí-las com razão. Estou forçada a este amadurecimento radical porque assim o quis, porque graças a Deus tive várias manhãs de sede de fazer, tendo hoje um pequeno caminho esbatido por onde decidi que me vou aventurar.

E, em todo o caso, a vontade não dita a preparação. Tortura essa de saber que lá mais à frente me vai doer, tanto e com tanta força, com tanto frio, solidão, vazio, questionamento. Falta tão pouco para me ver confrontada com tanto, falta-me tanto para não ter medo, mas quero crer que falta só um pouco para que finalmente eu comece a acreditar que consigo.

01 junho, 2006

Conversa de Criança

Sinto falta de ser pequenina para andar de baloiço,
de correr com os pneus e esfolar os joelhos.
Não me lembro das barbies, nem dos Onda Choc, porque isso era para a menina da minha irmã.
Eu fui o Joãozinho muito tempo, aquele que a minha Mãe quis.
Quando me cortou o cabelo à tigela e ficou feliz daquela forma,
não acreditei como podia aplaudir o meu choro desesperado...
Mas hoje sorrio com isso,
como sorrio sobre tudo o que invadiu a minha infância.
Criancices,
como a de ir de pijama para a escola por engano,
como a de conspirar com a Tatiana para guardar as couves do almoço no bolso da bata,
como a de ver na 4.ª classe o cinto encarnado dessa bata já todo podre,
como a de comer todos os dias um bolo de côco ou de açúcar... a 30$.
Criancice aquela de viver quatro anos no Externato do Parque,
de ainda hoje cantar as Olimparquíedas.
Era tão bom ter o material escolar cor-de-rosa e aprender a ler, a escrever, a desenhar,
a cantar o "A B C" em inglês com a Julieta.
Gostava de ser chamada para encher a garrafa de água da Ester,
de ir ao caixote do lixo afiar o lápis.
Gostava de usar fato-de-banho, fitas no cabelo, roupa de todas as cores,
misturando bolas, riscos e quadrados.
Via na minha Mãe uma criança que fazia de nós os seus nenucos.
Delirava de pânico quando a minha irmã se fingia de morta,
Estremecia à espera do Pai Natal,
Gostava dos mimos da Irene,
Adorava as festas de anos, de levar para casa o saquinho com balões e guloseimas.
Era triste fazer anos no Verão e nunca ter uma festinha parecida.
Uma vez obriguei a minha Mãe a preparar uma festa para o feriado 5 de Outubro,
telefonou e comprou e cozinhou tudo na véspera.
Lembro-me do cesto do lanche,
Lembro-me de não me lembrar da correria dos meus Pais para terem a certeza
de que as "filas" estavam sempre bem.
Ainda gosto de bater na minha irmã, de lhe puxar os cabelos,
(e ela a mim, claro).
Tenho saudades das bolachas Bonne Maman ao pequeno-almoço,
Tenho saudades do "fato-polícia" do meu Pai,
de quando se desculpava por chegar tarde, "filha, estava nos tostões".
Gostava dos meus hamsters, piriquitos, da Bolinha porquinha da índia,
Gostava de programar as minhas férias num papel colorido,
de desesperar por não conseguir aprender a ver as horas.
Gostava das Belinhas, as melhores bolachas de chocolate de sempre,
de jogar ao elástico e ao macaquinho-do-chinês.
Tenho saudades do Porto Covo dos meus quatro anos,
da Marina de Vilamoura dos meus seis.
Tenho saudades dos caracóis no meu cabelo,
do meu sorriso traquina,
de brincar na Gulbenkian,
da sesta na creche.
Sinto falta do muro à minha volta,
da minha ingenuidade,
de não precisar de saber.
Hoje não recebi a minha caixa de lápis de cor Caran D'Ache,
mas tenho-a aqui para sentir que o dia 1 de Junho ainda é para mim.

Um beijinho a todos os que foram crianças quando eu fui e que se identificam com estas palavras.
Um dia destes brindaremos com vinho e carro lá fora
a esta passagem cruel do tempo...
...Embora eu ainda seja uma bebé-bolacha!

24 maio, 2006

Flor-de-ir-embora


Flor de ir embora
é uma flor que se alimenta
do que a gente chora
Rompe a terra, decidida,
flor do meu desejo
de correr o mundo afora
Flor de sentimento
amadurecendo, aos poucos,
a minha partida
Quando a flor abrir inteira
muda a minha vida
Esperei o tempo certo
E lá vou eu, e lá vou eu
flor de ir embora, eu vou
E agora esse mundo é meu.

Maria Bethania

Obrigada M.J. :)

23 maio, 2006

Too love


Adoro o som da rega dos jardins.
Adoro a minha cama.
Adoro folhear os livros.
Adoro o cheiro do fósforo quando se apaga.
Adoro pensar que quero.
Adoro o silêncio.
Adoro andar a pé.
Adoro músicas melancólicas.
Adoro a praia vazia.
Adoro Lisboa.
Adoro a urbe impessoal.
Adoro sentar-me à secretária.
Adoro observar.
Adoro lembrar a minha infância.
Adoro chocolate.
Adoro o Dartacão.
Adoro dizer "eu vou".
Adoro comer petiscos.
Adoro os jogos de Portugal.
Adoro tirar as meias a meio da noite.
Adoro escrever à mão.
Adoro olhares que falam.
Adoro Nova Iorque.
Adoro a minha Casa, a minha Família.
Adoro o meu coelho, a minha caturra.
Adoro o banho matinal.
Adoro os sábados de manhã com sol.

19 maio, 2006

Zukunft


Terrível a sensação da incógnita,
Terrível o medo do imprevisto,
Terrível não poder prever,
Terrível não poder fugir disto.

Aliviante a força das relações,
Saudável a compreensão,
Propício o momento,
Ponderada a decisão.

Saber que é o melhor e não poder prová-lo já.
Eis o problema do futuro.

16 maio, 2006

Cinzento abafado

Um tic tac que baloiça para um lado e para o outro, hipnotizando quem por ele se deixa absorver. É o paradoxo da minha alma, neste tempo de flores, decisões, calor e tensão. Porque me apetece muito sair e sentir o bafo quente tocar-me a pele e porque não saio, digo eu que não posso, tenho coisas para fazer. Em vez de fazê-las fico a pensar em mim, não responsável mas egocêntrica, e tanto ao ponto de não ter visão para o que me rodeia. Penso em mim e decido que não vou planear-me dessa forma, que não me é saudável, que devo pôr o pé à frente em vez de andar como há 20 anos neste pé-ante-pé-recuado. Em todo o caso acabei de não sair por achar que não podia, para no fim concluir que o que mais quero é contrariar-me nesse terrível defeito que me prende. E a ele me prendo continuamente, e nele penso, para novamente amanhã querer decidir e fazer e levar avante uma ideia, ínfima que seja, e ter quase a certeza de que não o farei, por alguma razão que o tempo que digo não ter não me deixa apurar. Confundo-me comigo mesma, oiço o fado do campo pequeno e sorrio pelas coisas boas que posso saborear, para no instante seguinte as pálpebras fecharem e abrirem num movimento melancolicamente lento. Confundo-me na minha própria imagem, há minutos tão serena e feliz, agora tão apaticamente triste. O meu coelho rói-me as calças como quem me chama à terra que ele pisa ali em baixo, "taninha, reage". E eu não reajo, por saber que estes dias não têm solução. Então imagino-me sob o ar gélido da neve e das ausências que somente imagino, e cai por terra toda a força de vontade que tenho acreditado que está em mim, guardada para explodir quando for preciso. Não sou mais expectante, não sou mais pensante sequer, pelo medo de dias como este que hei-de ter. E o bafo lá fora sufoca-me por não saber que atitude devo tomar.

13 maio, 2006

Confirma-se

Dear Mr./Ms. Miguel Marcal Correia Deyrieux Centeno ,

I am pleased to inform you that you have been accepted to the Charles University in Prague, Faculty of Medicine in Pilsen as a full time student of the 1st year of General Medicine Course in the Academic year 2006/2007.

O meu fofinho vai ser Médico como tanto sonhou, depois de recalcar esse sonho em vão durante os últimos três anos.

Nada mais genuíno do que saber da notícia antes dele e sentir, sozinha em frente ao computador, o coração a pulsar com força e uma vontade enorme de saltar, rir e chorar. Nada mais delicioso do que correr atrás dele e dizer-lhe que ele conseguiu, que ele está em Medicina como tanto merece há tanto tempo. Nada mais gratificante do que ver aquele sorriso lindo dele a rasgar-se até às orelhas e vê-lo saltar e gritar como um parvinho no meio da rua.

Não importa pensar no que é que isso implica. Importa sentir esta felicidade pela felicidade alheia.

Chamaram-lhe amor incondicional.

Obrigada a todos os que sempre perguntaram e se preocuparam.

Agora é aproveitar.

04 maio, 2006

Um ano.


Sem palavras, com amor, sem remorso, com perdão, sem falácia, com cumplicidade, sem cinza, com força, sem presentes, com olhares, sem destino, com sorte, sem aliança, com passeios, sem novela, com enredo, sem desconfiança, com orgulho, sem vazio, com verdade, sem ausência, com história, sem transtorno, com amizade, sem favores, com compreensão, sem prisão, com lágrimas, sem lágrimas.

Sem certezas, com esperança, com memória, com saudade.


20 abril, 2006

À beira-rio de Lisboa


Como um filhote às ordens das sete colinas, a beira-rio da minha cidade delicia-me.
Delicia-me o cacilheiro cor-de-laranja que me leva ao caminho para as praias de São João e ao “Atira-te ao Rio” da Trafaria.
Delicia-me o Padrão dos Descobrimentos, a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerónimos a protegê-los com o olhar, impondo a quem passa a memória dos tempos áureos lusitanos.
Os pastéis de Belém são deliciosos.
A homenagem aos combatentes do Ultramar delicia o meu orgulho familiar.
São deliciosos todos os momentos de que podemos desfrutar desde o Parque das Nações até ao fim da grande marginal, passando pelos petiscos nas esplandas das Docas, pelos cafés a ver o Tejo, pelos passeios ali a pé, pelas corridas de patins em Algés e pelo luar na companhia da ponte 25 de Abril.
Porque não há como esta cidade que espelha no Tejo a rendição de quem a visita, venha de onde vier. Lisboa é luz e água.
Meditar sozinho, estudar com amigos, namorar, passear com a Família, brincar na relva… ou simplesmente olhar e respirar. É essa vontade que se sente à beira-rio de Lisboa.

19 abril, 2006

Num instante...


… perdeu-se uma vida. Jovem.
… perdeu-se um filho.
… um corpo desfez-se.
… começou um trauma.
… algo numa Família perdeu sentido.
… outros números foram ignorados.
… os media esbracejaram.
… não houve tempo para despedidas.
… houve muitos arrependimentos.
… houve pena.
… lembrei-me do Eduardo.
… parou-se para pensar.
… o tempo parou.
… o alheio aconteceu connosco.
… a coincidência assustou.
… a estabilidade fez-se estilhaço.
… a confiança traiu.
… um fenómeno nacional perdeu o seu sentido para, quiçá, ganhar outro.
… soltaram-se os clichés.
… a fama pareceu ensinar.
… o adulto não soube explicar.
… a Televisão (i) exagerou.
… explorou-se a dor.
… cresceu a apatia.
… cresceram as romarias.
… o amigo sofreu.
… dois irmãos angustiaram-se.
… questionou-se o habitual.


Num instante o choque alastrou e mais uma vez a dor viu-se efémera para uns e eterna para outros.

A revolta face à exploração mediática da morte de um jovem, apenas porque era (!) um ídolo para muitos adolescentes, faz apetecer o off da televisão, como se não interessasse. Começamos a deixar de ter espaço para fazer o nosso juízo de valor, como se não nos deixassem sentir mortes destas sem nos emocionarmos com as imagens do jovem ao som de músicas que apelam ao amor pela vida, sem passarmos SMS e outras mensagens de condolências, sem seguirmos as cerimónias fúnebres pelo pequeno ecrã.

Não sei nem cabe a mim saber o que é correcto dizer ou pensar acerca de um fenómeno destes.

Resta-me respeitar aqueles para quem, num instante, a vida não seguiu em frente.