- Ó terras de Portugal
- Ó terras onde eu nasci
- Por muito que goste delas
- Inda gosto mais de ti.
- Fernando Pessoa
06 maio, 2007
"À minha querida Mamã"
02 maio, 2007
Incerto
A mala preta, grande, que agora só guarda um cadeado, enche o cantinho do meu quarto de paredes cor-de-laranja. Vai esperando por uma data, sem pressas, praticamente presa ao chão a ganhar pó. Já quase não reparo nela, como se fizesse parte da mobília. Atiro para cima dela os casacos que o meu armário sem cabides não deixa pendurar.
Agora começa a fazer sentido pensar mais na grande mala preta. Com ela parti para onde hoje estou. Entre tantas coisas palpáveis e que julguei importantes (quão difícil se revela seleccionar o que precisamos de ter por perto...) vieram, dentro daquela mala, sobretudo incertezas. Muitas, pequeninas, embrulhadas em inseguranças que não consegui desfazer sem a ajuda do tempo. Boa parte delas desfez-se, sim; outra parte ainda permanece dentro da mala, porque colada ao corpo, às células. É incrível - mudar tanto e deixar a essência intacta.
Incertezas quando às pessoas, quer as que deixava, quer as que ia encontrar, que não conhecia e que hoje são pilares para mim nesta casa longínqua. Incertezas quanto ao espaço que me iria acolher, e tão inesperadas incertezas quanto à falta que a graciosa, ausente e insubstituível luz de Lisboa ia fazer. Incertezas quanto aos sorrisos que imaginaria em mim, e com que frequência, e com que intensidade. Incertezas quanto a mim mesma.
Vim, voei, corri, encontrei, estremeci, superei, traduzi (tanto, tanto, tanto!), gastei, festejei, aprendi, conheci. Principalmente, comuniquei. Comigo, com os outros e com o mundo. E então, natürlich, sorri. Por reconhecer que tinha conseguido - para decidir continuar.
Ao contrário do que esperava, porém, não foi um mero continuar. Foi um começar de novo. Novos desafios, novas estranhezas, novas dúvidas, novas incertezas. Em cada manhã desta nova fase apercebi-me que prolongar uma experiência como esta não significa apenas um esticar do que houve de bom, mas ainda uma nova oportunidade para levantar os braços a novos desafios. A cada fim de tarde regressa a sensação de que consegui dar outro passo.
Mas cada fim de tarde, agora, já dá sabor de Saudade. O Sol de Primavera neste norte chega pelas cinco da manhã e só pelas nove da noite se despede até ao dia seguinte. Dá ainda mais vontade de saborear cada pedaço de luz lá fora. E saborear esse percurso do tempo lembra que o percurso do meu tempo já está numa contagem subtilmente decrescente.
Pior. Agora que estar aqui é ainda melhor, por poder estar "lá fora" e viciar-me ainda mais na observação deste povo complexo quando o sol raia, os sorrisos se rasgam e as vozes se ouvem mais altas; agora que pessoas à minha volta consolidam os laços e passam da amizade necessária para a Amizade comprovada; agora que o vento bate na cara com sabor fresco e não gelado e dá vontade de passar no parque com a bicicleta antes de vir para casa; agora que se descobre que a Universidade pode trazer, simplesmente, motivação...
Agora, como dizia, é um pouco pior. Porque agora, como no início, há que pensar no depois, no danach, no que me espera. Agora sou obrigada a lembrar-me que este tempo se perde perante as preocupações que estão em modo stand by sobre mim. Sem jamais traduzi-lo por "tempo perdido", pois que este foi já sem dúvida o tempo mais ganho de sempre.
E assim re-arranca a insegurança. Há que ter muita força na recta final, ainda tão longa mas tão cruelmente veloz. Há que rematar no estudo obrigado, mas interessado, e preparar para um julgamento a substituir a mera avaliação. Mas entretanto há que escrever, brindar, correr de olhos fechados, acordar sem horas e sem perder tempo, há que sugar cada momento.
Para então, mais lá à frente,
sorrir,
pegar na grande mala preta,
repleta de novas coisas importantes,
respirar fundo e
partir para o irónico ponto de partida:
um novo Mundo do Incerto.
01 maio, 2007
03 abril, 2007
Ao acordar.
Então, ao acordar, recordou: "Somos animais de hábitos". Arrepiou-se. Sentiu-se como que sem lugar. Não estava na casa de sempre, nem na casa de antes, nem mesmo na casa de agora. Dava gargalhadas com uma amiga numa cama elevada, daquelas com que sempre sonhou, com a secretária por baixo. O sol batia na janela, ameaçando alguma força, mas naquele momento não queria saber de horas.
"És adulta", disseram-lhe, noutra língua. Mas ela não sabia bem como lidar com isso. Ainda ontem uma amiga lhe tinha dito que era original fazer compras de supermercado juntas, quando na verdade o hábito de "antes" não era de todo o de fazê-las sozinha, e sim com um carrinho de hipermercado que levava sempre com guloseimas em cima às escondidas da Mãe.
Ao acordar quis saber para onde devia ir, e apesar da excelente sensação de poder simplesmente ficar, dar uma volta ou aparecer, sentia-se presa a qualquer coisa. Estava com vontade de agradar, sem por isso deixar de fazer as pequenas loucuras que os últimos tempos lhe proporcionaram. E de repente, contra todas as expectativas, parecia que já não sabia gerir-"se".
Tem sido assim. Ultimamente, ao acordar, sente-se a mesma de... antes.
30 março, 2007
Cheiro a Setembro

Também deixou de confirmar sempre se tinha o Semesterticket na carteira, porque agora é mais a bicicleta que a leva onde quer. Ainda hoje comprou um cestinho novo para trazer as compras, agora que o sol já não obriga a que tudo esteja protegido da chuva e da neve.
As compras deixaram de ter o toque da novidade; já não traz o dicionário na mala porque habituou-se aos palavrões que tanto procurava decifrar. Wasser sempre ohne Kohlensäure, que água com gás não é água; ou as Mandarinen que não são tão doces como as Clementinen e cabem sempre na mala para matar a fome-de-bolas-de-berlim. O saco dentro da mala já não esquece, e já enfia tudo lá para dentro com uma eficácia muito mais alemã do que no início. Também já não precisa de procurar o visor que mostra o preço, porque os dois-e-trinta-euros-e-cinco-e-quarenta-centimos-bitte em vez de trinta-e-dois-euros-e-quarenta-e-cinco-centimos-bitte já começaram a entranhar. Se há dúvidas desta vez já sabe perguntar, em vez de arriscar comprar um produto que ajuda a engomar em vez do tira-nódoas que procurava.
Mas sobretudo o caminhar - ou o pedalar - pelas ruas de Leipzig deixou de ser tão explorador para dar lugar às rotinas. Se escolhe o Strassenbahn já aproveita o silêncio do povo alemão para ler um livro - que a língua portuguesa dá muita Saudade. E agora já vai tocar à campainha de alguém se não tem nada de urgente para fazer, porque os Termine às tantas horas no Sprechzeit da Frau-qualquer-coisa já não são tão importantes ou regularmente necessários.
Das palavras essenciais passa agora a ter interesse pela Umgangssprache e põe a Franziska a rir-se quando, para o "é indiferente", lhe sai a expressão "es ist mir Wurst" (que traduzida à letra significa "é-me salsicha").
Rotinas tão alteradas, tão entranhadas e novamente tão saboreadas por aquilo que têm de diferente - em relação a tudo o que em duas décadas de vida foi habituada a experienciar. Repara-o agora. Porque agora volta o Sol a brilhar, exactamente como no dia seguinte à noite tremida em que chegou, da qual parece que só tem flashes de memória, nesse dia em que andou de canoa no rio sem se aperceber que aquele sol era uma raridade e que as pessoas usavam excepcionalmente óculos escuros ao passear com a família no parque. Agora os cheiros voltam a ser mais perceptíveis, porque o calor ameaça. Aqueles rasgos de gás que a todos intrigam, entram agora por aquelas narinas que há 6 meses achavam tudo tão... fremd, tão estrangeiro.
Caminha pela Peterstrasse, já não procura uma esfregona (esse instrumento doméstico tão essencial que os alemães substituem por qualquer outra coisa) e sim um presente de aniversário - para os amigos de Portugal, para os amigos Erasmus, para a Franziska que vive com ela, para os seus Tandems, enfim. E no fim passa no supermercado mais próximo, apanha um Apfelsaft e vai bebendo no caminho - que agora já vai conseguindo conduzir a bicicleta só com uma mão. Quando chegar a casa logo pensa no que lhe apetece jantar hoje e espera que os "Freunde" se "meldem" para ver o que se faz hoje à noite.
E em breve, a areia chegará também a casa, regressará o medo do fim do verão e com ele o medo de um Setembro que novamente se adivinha uma incógnita.
23 março, 2007
Assustadoramente mais que dois meros “mitras”
Nem era fim-de-semana, mas à quinta-feira à noite há movimento nas ruas, apesar da paranóia “Arbeit”. Entrei no eléctrico 7 – uma linha ainda desconhecida mas que me passará a ser familiar – e sentei-me.
Percebi então que o cenário era mesmo de fim-de-semana. O silêncio e as caras carrancudas foram substituídos por rádios portáteis e garrafas de cerveja na mão. Dois rapazes de boné sentavam-se pouco à minha frente e falavam alto. Gritaram “Brost!” para um outro grupo que mais à frente se sentava também com cervejas. Ninguém respondeu e na paragem seguinte o grupo saiu.
Poucos instantes depois, um dos rapazes levantou-se e dirigiu-se ao fim da carruagem, passando por mim, para ir falar com um casal que estava sentado. Estando de costas, só consegui ouvir, não ver. Percebi que o rapaz falava sozinho e os dois, numa atitude universal de não responder a acusações em transportes públicos, ficaram calados. Logo de seguida o outro rapaz de boné levanta-se para ir buscar o amigo de volta para o banco, irritado: “Komm mal hier, Mensch!”…
O instinto foi o de pensar “não precisas ter medo, tu sabes bem que os alemães não se metem com as pessoas assim, e mesmo este bêbedo rapidamente deixou o casal em paz”. Desviei o olhar para a janela a fingir descontracção e tentei perceber o texto do heavy metal que eles ouviam. Em vão, só consegui perceber a palavra “Deutschland”. Mas de repente fez-se luz e tudo ficou assustadoramente claro. Um dos rapazes não fez mais do que gritar “Rechtsvolk!” (povo de direita) e esticar o braço direito para cima. Só então olhei com atenção e reparei que por debaixo dos bonés as cabeças dos dois estavam rapadas.
Estremeci, empalideci, o estômago veio-me à boca. Estava sozinha na carruagem com dois neonazis.
Felizmente não faltou muito até entrarem mais pessoas. Desta vez mais atenta, tentei ver as reacções aos dois rapazes que continuavam a falar alto, a beber e a arrotar e pareceu-me estranhamente que todos sabiam do que se tratava. Ou estão habituados e não há razão para ter medo, ou a famosa frieza deste povo esconde o medo de manifestar emoções.
Ainda assim o ritmo cardíaco continuava acelerado demais para eu relaxar como a senhora ao meu lado, que descascava uma tangerina. A minha paragem nunca mais chegava e o silêncio da noite tornava tudo ainda mais pesado. Imaginei como seria se aqueles dois monstros me abordassem. Em Portugal costumo pensar que se fingir que não falo português, desistem. Mas ali, certamente não seria boa ideia escolher outra língua que não o alemão – e mesmo assim eles perceberiam de imediato que eu era estrangeira. Enfim, melhor seria não imaginar. Eles continuavam a destabilizar, rebentando bombas de mau cheiro dentro da carruagem, atirando pequena pirotecnia pela janela assustando os poucos que pela rua passavam… e lançando gargalhadas a seguir. Tal como nos filmes.
Gerichtsweg. Ainda faltava uma paragem para minha casa mas decidi sair e fazer o resto do caminho a pé. Esperei que as portas estivessem quase a fechar para sair de repente, não fosse apetecer-lhes virem atrás de mim. E saí também pela porta que ficava atrás, não a que ficava à frente, bem perto deles.
Erro meu. Tive de passar, por fora, por essa porta. E antes que tivesse medo da proximidade, dei um salto repentino com outra coisa qualquer que eles tinham voltado a atirar para a rua e que explodiu um metro ao meu lado. Quis insultá-los, mas o pânico calou-me e nem levantei os olhos do chão.
Finalmente o eléctrico seguiu e eu corri para casa. Pela primeira vez tive medo de andar por aqui.
20 março, 2007
Irgendwie, hoje
O dia em que, com grande coragem, pediu uma Bratwurst num quiosque da Henriettenplatz e, ao responder “ja” a uma pergunta que não entendeu direito, ouviu presumíveis menções a sua parca inteligência, seguidas de risadinhas e risadonas dos outros clientes do estabelecimento.
O dia em que, não conhecendo (e não a tendo achado no dicionariozinho) a palavra para designar “sacola”, limitou-se a apontá-la para a caixa do supermercado, a qual ficou imensamente transtornada e começou a discursar… - das ist kein dah-dah-dah-dah! Das ist kein buh-buh-buh-buh! Das iste eine Tüte! Das ist eine Tüüüüte, ja?
Sim, tudo isso é muito natural, não será isso que o desencorajará, um dia ele finalmente aprenderá a diferença entre welches, welche e welchem, um dia saberá pôr um verbo aqui e outro a duas milhas de distância, para isso vem estudando com afinco.
No Brasil, muitas vezes me queixo de que as pessoas falam alto demais,, se olham, se pegam, esfregam, abraçam e beijam demais. Já aqui, sinto uma espécie de privação sensorial. Penso em Montaigne que, se não me engano, escreveu que o casamento é como uma gaiola: o passarinho que está dentro quer sair, o que está fora quer entrar. Acho que isso pode estender-se a tudo na vida, porque hoje, particularmente, eu gostaria de ter voltado para casa com a sensação de que alguém na rua me viu, e fiquei com saudades de casa.
João Ubaldo Ribeiro, Um Brasileiro em Berlim
06 março, 2007
Pendulando
Acorda no seu quarto novo, casa de sempre, os olhos semicerram-se com a demasiada luz que vem de fora. Mesmo com estores e cortinas. Um azul que ilumina a faz sorrir, para o qual poucos olham. É, sem dúvida que agora reflecte mais sobre essas coisas.
A pele está tão branquinha que nem lhe apetece usar óculos de sol. Os raios da Primavera que se anuncia batem devagarinho nas faces que ela tem esperança de ver ficar rosadinhas, como acontece com os loiros de dois metros lá do norte.
Sente-se longe desse “lá” mas em parte ainda lá está.
Eles, coitadinhos, têm pena de não saborear este “em casa” como nós. Estar em casa significa render, trabalhar, para nas férias apanhar o avião para um Portugal-destino-de-sonho. Dizem que sorrimos muito, não somos sérios e carrancudos como eles. Ela, no entanto, acha que muitos deles são mais interessantes do que muitos dos que vê por cá. Só depois de regressar reparou.
Num café, esperou 10 minutos até que uma senhora viesse em passos lentos perguntar-lhe “o que é que quer”. Nem sabe se ela chegou a dizer isso, porque antes disso desistiu e dirigiu-se a outro café. Esperou outros 10 minutos, tentando ser mais paciente, foi atendida mas claro que lhe perguntaram se arranjava os 2 cêntimos. Noutra proporção, é o lema deste país de “faça-me um jeitinho”. Não é como “lá”, não, em que a grupos de 50 pessoas fazem a conta separada para cada uma individualmente, com troco certo.
Lá, como chegou a comentar antes, o estudo leva-se a sério e as pausas para o café são curtas e rentáveis. Pois cá, mal se sentou num café, viu dois jovens sentados a conversar alegremente na companhia de livros de Literatura Contemporânea, ao lado de canetas às cores, do último Nokia, de um Marlboro e de óculos Vogue (a Vogue ainda está na moda?).
Exacto, ela já não se lembrava que era assim.
Também não se lembrava que não é possível ser peão em Lisboa. Encharcou-se nas poças do caminho, desviou-se dos carros estacionados em segunda e terceira fila, em cima do passeio, sem ordem nem hora de regresso.
As buzinas nem são o que mais a incomoda. O que realmente incomoda é o zumbido nos transportes públicos, diga-se, as vozes zangadas e críticas de todas as bocas em seu redor. Sentiu saudades dos alemães caladinhos nos transportes, cuja vida pessoal não precisa de conhecer através das conversas aos telemóveis. (Também recordou a importância extrema do telemóvel neste país cheio de dinheiro para os topos de gama de todas as gamas.) Talvez seja porque lá eles não têm do que se queixar. Um jovem que vive os seus primeiros 27 anos de vida a receber 150 € mensais do Estado simplesmente pelo facto de ser jovem, que paga 50 € semestrais de passe de transporte, que não se desdobra nas despesas de sobrevivência, um jovem que tem café, capuccino, chocolate quente e bolos totalmente de graça só para fazer o favor de se sentar a ler um livro numa livraria – um jovem assim não tem razões para se queixar.
Nem em todo o lado assim, é verdade, há pequenas crises em qualquer país, nós temos sol e eles não. Mas quando ela chega “a casa” e sente este arrastamento de quem só quer uns trocos ao fim do mês ou ambiciona ser despedido para receber um subsídio de desemprego ainda mais em conta; quando ela chega “a casa” e volta a ver a discrepância entre as mãos estendidas no Chiado e os óculos da moda mesmo ao lado; quando ela chega “a casa” em desespero para procurar a cunha que a deixe estagiar de graça num qualquer meio de comunicação podre…
…quando ela chega “a casa” tem vontade de voltar para aquela cidade fofinha e pequenina de onde veio, cinzenta mas com uma chuva menos chata, caladinha mas sem queixas, histérica apenas aos fins-de-semana mas com força de vontade de segunda a sexta…
…é assim mesmo que ela se sente, uma confusão na cabeça, uma perna em Lisboa e outra na Alemanha Oriental, fria, com frio, fachadas lisas, silêncio, ordem, reciclagem.
Está contente por saber que ainda volta, por saber que mais portas serão abertas lá do que cá, por saber que faz parte dos portugueses que querem trabalho e não emprego, que querem produzir e não cumprir horários. Está contente por ter percebido tudo isto em tão pouco tempo, o mesmo tempo em que tudo cá ficou na mesma, as mesmas OPAs, os mesmos sacos azuis, apitos dourados, os mesmos arguidos, as mesmas parasitas a preencher folhas de revistas 90% fotos 10% texto, as mesmas cunhas e os mesmos aumentos dos transportes públicos.
Está contente mas profundamente triste por não poder ficar cá. Cá, numa das cidades mais lindas que já viu, a cidade onde orgulhosamente vive desde que nasceu, a cidade da luz, da calçada portuguesa, das ruas estreitas, das colinas, dos eléctricos, dos estendais, a cidade do Tejo e do Fado.
Sei que vou torturar-me de saudades tuas. Mas desde já me desculpo, Lisboa, por saber que vou ter de viver muito tempo afastada de ti.
17 fevereiro, 2007
Weiß ich nicht...
07 fevereiro, 2007
27 janeiro, 2007
Um frio delicioso
De repente o espaço parece fechar-se e uma espécie de estúdio de som apodera-se das ruas. Nem o uivar do vento, forte, cortantemente forte, tem a força de antes. De ouvir o vento passo a vê-lo, no reboliço que provoca na neve do chão, feita remoinho a esvoaçar para o incerto. Os sons são abafados. Os carros são silenciosos e parece até que as pessoas ficam fisicamente mais próximas.
Vejo tudo com absorvência, sorrio, fotografo, tenho vontade de telefonar a alguém só para dizer que estou encantada ou que quero companhia para fazer um boneco de neve. Mas na realidade estou apenas a ver; a capacidade de descrever com exactidão parece ter de facto congelado. Não consigo abstrair-me porém da ideia de que não fugi à minha rotina, não procurei aquele cenário, ele é que se cruzou comigo num mero dia de aulas.
A cidade tornou-se outra. Para os nórdicos, tristes com a chegada efectiva do Inverno, o manto branco é um incómodo. Para mim – de “pele castanha”, como eles dizem – o Inverno ganhou outro encanto. Teria sido já suficientemente saboroso passar mais uma tarde naquela wunderschöne Bibliothek, onde não há lugar para todos os estudantes que se encontram para estudar e fazer pausas para um café – e não os que se “encontram no café e aproveitam para estudar um pouco”. Já é – desde há muito – suficientemente saboroso estar ali sentada e não ver ninguém à minha volta que fale a minha língua, nem tão-pouco os senhores que me deram os textos que vou para ali ler. Já é suficientemente gratificante, enquanto estudante, falar com orgulho deste livro, daquela pesquisa, daquele trabalho, sem sequer pensar na hipótese de nos sentarmos numa mesa onde um aviso indica que “aqui não é permitido estudar”.
Teria sido tudo tão suficientemente alucinante só por perceber que estou num espaço deliciosamente não-familiar. E ainda pude desfrutar da sensação, quente, de desviar o olhar para a janela e ver a neve cair com força. Só aí esqueci os deveres de estudante, voltei a ser criança, arrumei tudo e corri lá para fora, sorrindo sozinha por aqui estar.
Esse tal de Erasmus é tão mais do que um estatuto.
23 janeiro, 2007
Congela tudo, menos o tempo
Cachecol até aos olhos, mãos nos bolsos, saída do aeroporto, sozinha na carruagem de regresso, céu limpo e verde-relva lá fora, bem estendido. Mais uma despedida.
De regresso à rotina, à cantina, aos cadernos já cansados, amarrotados, cheios de conteúdos para decorar e traduzir.
Não sobra tempo para tudo, ou talvez não sobre tempo para nada do que Janeiro, im Allgemeinen, exige. O cheiro a despedida sente-se, cumprimentam-se as temperaturas negativas, anseia-se pela visita da neve.
Faz-se uma contagem decrescente, não para "o" dia, mas para vivências diárias. Aqui não escasseiam as oportunidades para saborear algo novo. Próprias de quem já sente saudades de muitas coisinhas. E entretanto planeiam-se novos passos, nova casa, novo semestre, novas férias, novas cidades.
Estimo a minha rotina. Afinal não interessa nada o vento cortante; cá dentro está sempre quentinho.
Lisboa, querida, está quase-quase.
Mas não tenho pressa nenhuma.
10 janeiro, 2007
Do pedido de prolongamento.
02 janeiro, 2007
Tentando balançar.
Estava tão quente que teve vontade de oferecer às pessoas que via passar do lado de lá do vidro, os queixos enfiados nas golas, o olhar preso ao chão, molhado pela chuva fria. Saboreava-o entre as mãos, deliciada, sem se lembrar de quando passou a preferir aquele café-chá em relação ao café-creme-e-curto.
Depressa percebeu que não é preciso encontrar razões para tudo. Sabia-se ali, uma pessoa apenas no meio de milhares delas, num café no centro de uma metrópole da Europa Central. Há muito tempo que não ouvia a sua língua
Pousou a chávena e voltou a pegar na caneta. Tem nela gravado o mesmo nome da Universidade que escreveu no dia das candidaturas. Nessa altura nunca se teria imaginado ali, no último dia desse mesmo ano, naquele ponto tão longínquo de tudo o que receou deixar.
Virou a página do caderno – por orgulho de ter ultrapassado essa fase ou por medo de relembrar essa época, não sabe ao certo. Mas também tinha aprendido a desligar-se das reflexões em rede, essas que vão dar aleatoriamente a apenas uma de várias conclusões possíveis. Precisava de férias do passado. Agora só lhe apetecia apanhar aviões para o futuro, esse futuro que já vivia ali sem saber, depois de, caneta pendulando entre os dedos, o ter imaginado nos cafés tradicionais daquele país que tanto criticava - e cuja luz hoje lhe trazia lágrimas de saudade frequentes. Então aproximou a caneta da folha, lembrou-se da mágica festa que teria lugar nessa noite
Lá fora os gorros e cachecóis, sob as iluminações de Natal nos postes e nas árvores nuas da cidade, transportavam-na mentalmente para a Big Apple, ou groβer Apfel – não sabia agora qual o nome indicado. Sentia-se uma gotícula no meio de uma série de ruas perpendiculares – e sorriu. Talvez a cidade que nunca dorme tivesse adoptado uma filha chamada Berlin.
Já não tinha a mesma perícia para preparar o futuro e criar expectativas. Aos poucos via-se a pensar apenas em cada dia, sem por isso esquecer tudo o que ficou para trás que a trouxe até ali. Àquele café.
Sabia que não tinham sido tempos fáceis. Ao listar mentalmente tudo o que a tinha preocupado nesse ano, sacudiu a cabeça e voltou a concentrar-se no sabor do café. Ainda não conseguia recordar tudo aquilo, esquecer, acreditar sequer. Tinha simplesmente continuado, com a certeza de que tudo tinha dependido dela. Estava cada vez mais convicta de que só se apercebeu de qualquer coisa – mas nunca tudo – quando aterrou naquela noite, naquele aeroporto loiro, alcatifado, mudo e totalmente baço.
Fechou o caderno. Desta vez não queria relembrar nem planear. Engoliu o último resto de café, levantou-se, vestiu o casaco, enrolou o cachecol ao pescoço, calçou as luvas e saiu para a rua. Depois de tentar identificar as ruas para saber que percurso tomaria para a chegada do novo ano, enfiou o chapéu na cabeça, aconchegou o queixo no cachecol e, olhos postos no chão, seguiu em frente.
29 dezembro, 2006
Berlin, den 28. Dezember 2006
embora atrasada,
Tem de ficar marcado o dia em que nevou pela primeira vez.
16 dezembro, 2006
11 dezembro, 2006
07 dezembro, 2006
«Erasmus» é símbolo do que a Europa faz de melhor
Numa conferência de imprensa em Bruxelas que assinalou o «pontapé de saída» das celebrações - que terão o seu momento alto durante a presidência portuguesa da União Europeia, no segundo semestre de 2007 -, José Manuel Durão Barroso afirmou que o «Erasmus não é um programa qualquer», mas sim «um sucesso europeu único».
Adoptado em Junho de 1987, o Erasmus contou nesse primeiro ano com a pa rticipação de 3.244 estudantes, número que em 2005 se elevou a 144.032 estudantes (3.845 dos quais portugueses), aproximadamente 1% da população estudantil europeia.
Desde 1987, o programa beneficiou com bolsas mais de 1,5 milhões de estudantes, esperando a Comissão Europeia que até 2012 o número atinja os 3 milhões de estudantes.
«Pode-se falar de uma »geração Erasmus«», comentou Barroso, que recordou a propósito o filme «L'Auberge Espagnol» (A Residência Espanhola, 2003), do realizador Cédric Klapisch, que retrata a experiência de um jovem estudante parisiense que vai estudar para Barcelona, e que tornou popular este programa de intercâmbio estudantil «nos quatro cantos do Mundo».
Na conferência de imprensa participou também o comissário europeu com a pasta da Educação, Jan Figel, que indicou que o 20º aniversário do Programa Erasmus - que se assinala em Junho de 2007 - será celebrado particularmente em Setembro e Outubro, durante a presidência portuguesa da UE, com uma série de eventos em Lisboa.
Tanto Barroso como Figel sublinharam a importância do papel do Programa Erasmus como motor de modernização dos sistemas europeus de ensino superior, na promoção da mobilidade dos estudantes e professores, e a nível do acesso ao mercado de trabalho.
Além de estudantes, o Programa Erasmus beneficia também professores universitários, tendo em 2005 participado no programa 20.877 docentes.
Entre os «top-20» das instituições de ensino na União Europeia que mais acolhem e de onde partem estudantes e docentes no âmbito do programa, surge a Universidade de Coimbra como a oitava que mais recebe professores de outros países, tendo em 2004/2005 acolhido 101 docentes estrangeiros.
05 dezembro, 2006
Bleiben?
E há outros, como o de hoje, em que
a velinha acesa em cada mesa dos cafés,
as torradas no quentinho de casa
e a sensação de que vivo uma evolução...
...fazem-me sorrir e querer ficar.
30 novembro, 2006
Donnerstag - uma particularidade na rotina
À quinta-feira entro em êxtase. Delicia-me fazer parte da Universität Leipzig. E particularmente nesta quinta-feira, quando o Sol de Inverno sob uns toques de nevoeiro se espalha lá fora, sinto que já devia ter descrito há um tempo como é exactamente a minha rotina académica por cá.
À segunda-feira começo por ter uma aula no Studienkolleg, o edifício onde se aprende alemão. A Aula é de Alemão para Ciências Sociais. A Professora é a Frau Tieg, uma mulher muito caricata, típica alemã, que tem umas contas a acertar com a moda e com tudo o que em geral é moderno. Só fala na DDR (República Democrática Alemã) e parece que ainda não vive no tempo do Euro. Mas é sem dúvida culta e esforça-se por nos pôr a debater (auf Deutsch, natürlich), temas de interesse geral para os alunos de várias nacionalidades que ali estudam História, Germanística, Estudos Europeus, Teologia ou Jornalismo (sou a única, como sempre). Fazemos normalmente uma espécie de fóruns porque em cada país a realidade é diferente.
Sigo a correr para o centro, onde me espera a única Vorlesung que visito (eles usam o verbo “visitar” para as aulas). Vorlesung, para os colegas FCSHianos, são as conhecidas aulas em que o auditório se senta a ouvir; aceitam-se atrasos e baldas (aprendi aqui um verbo importante: “schwänzen”, como quem diz fazer gazeta), mas igualmente para os FCSHianos importa referir que o Powerpoint, o microfone e o silêncio são regra. A aula é de Comunicação Política, onde Habermas é citado como cidadão cá da terra, o que não deixa de ser mais interessante. Em todo o caso aproveito o facto de ser a única cadeira em que só se marra para o exame final e por isso vou às aulas só recolher a assinatura e aproveito aquela hora e meia para despachar trabalho de outras cadeiras - no fim vou ver-me grega (ou alemã...), mas não vamos stressar já porque isso é só "para o ano". Naturalmente compreensível a inviabilidade de absorver Habermas, problema suficientemente grave, acrescida do factor “auf Deutsch”, que triplica a gravidade da coisa. Kein Problem!
À terça só tenho aula no Studienkolleg: Alemão em prática escrita. Não havia lugar na turma de nível intermédio, então armei-me em esperta e meti-me na turma de Alemão avançado e fico caladinha o tempo todo porque não percebo metade do que é dito. Mas não deixa de ser interessante: praticamos a escrita de comentários (por exemplo, de discursos melodramáticos de ministros americanos), protocolos, etc.
Quarta-feira é dia de seminário. Bases do Jornalismo Online – no edifício cuja fotografia foi publicada no fotolog mais famoso da blogosfera erásmica. Cerca de 20 alemães e a pobre Tuga sentam-se numa sala com vários computadores, onde assistem aos temidos Referats (as apresentações, para as quais não sou excepção: na próxima quarta é o meu dia, que ontem não houve tempo, sabem, eles entusiasmam-se tanto com as pesquisas que depois fazem Referats de meia-hora quando lhes pedem 20 minutos). Aprendemos as várias particularidades do Ciberjornalismo através dos Referats, cada um tem de escrever um artigo sobre um tema previamente distribuído (calhou-me “Erasmus na Europa de Leste”, vou entrevistar uma alemã que esteve na Polónia e já é jornalista), a ser publicado na Online-Magazin dos estudantes de KMW (Ciências da Comunicação). No fim do semestre ainda há um exame, por isso podem ver como eles gostam de trabalhar.
Tive a infelicidade de escolher um seminário que começa às 8 da manhã a uma sexta-feira. Sair à noite na 5ª, festas WILMA, noite de estudantes, é para esquecer (isto agora soou um pouco Pimpinha Jardim, mas juro que não me sinto a emburrecer por aqui). E apesar de acordar quando ainda é noite (bom, a maior parte do tempo aqui é noite, mas…!) vale a pena, porque Jornalismo Radiofónico é realmente interessante. Não basta ser seminário, ainda é designado de seminário-prático, o que significa que não dá propriamente para parar. Treinamos a pronúncia em estúdio (sim, nem os alemães sabem fazê-la, por isso imaginem a risota que não é verem a Tuga a tentar soar como uma locutora alemã: TOLL!), aprendemos como os textos jornalísticos para rádio devem ser redigidos, somos obcecados pelo chamado O-Ton (os cortes do que os entrevistados dizem para serem colados na peça), aprendemos a mexer no EasyCut, programa radiofónico por excelência e há referats, mas a Professora foi muito querida e livrou-me disso. Isto porque também temos de fazer individualmente 2 reportagens de quatro minutos. A minha primeira, sobre WILMA (sehr interessant) vou montar na próxima segunda-feira: mais um momento de riso se adivinha. Claro que tudo isto em alemão queima os meus neurónios, mas o senhor Rasmus, que ainda por cima trabalha para a rádio da Uni-Leipzig, dá-me uma mãozinha. [Aceitam-se pedidos de envio da reportagem que ele fez na abertura do Mercado de Natal em directo para a rádio, por telemóvel, ao meu lado no meio das barraquinhas. É muito giro viver o Jornalismo in loco, sobretudo quando a velocidade com que eles falam me faz confirmar que o alemão ainda me é muito inacessível!!]
E isto tudo para descrever a particularidade da semana que mais me delicia (em termos académicos, claro…): a Quinta-feira.
Um 9 Uhr arranca o seminário “Recepção de televisão pelas crianças”. Falamos da pedagogia inerente aos Media e apesar de ser uma cadeira mais teórica, a interactividade entre os 25 alunos (fora a Erasmusstudentin, que prefere ficar caladinha a tirar apontamentos) torna aquela hora e meia muito interessante. Com Referats, powerpoints e acetatos constantemente, a informação a absorver é mais que muita. Mas o que é mais interessante é que em cada Referat os alunos preparam uma selecção de programas televisivos (desde desenhos animados, telenovelas até blocos noticiários e Reality-Shows) a que assistimos e sobre os quais discutimos a partir da perspectiva das crianças. O Referat, no meu caso, será substituído por uma recensão (5 páginas, vá lá) sobre o tema em geral: "Warum die Kinder Fernsehen lieben?" Dá pano para mangas. E não acabou: no fim do semestre tenho de fazer um Hausarbeit sobre um tema específico. Hausarbeit, esse palavrão que inicialmente julgava ser um Hausaufgabe (o chamado TPC). Pois nada a ver: é mesmo um trabalho realizado em casa, em paralelo com a biblioteca e, no meu caso, com o meu dicionário. Tem de ter 15 páginas, o que em alemão, para mim, corresponde a uma tese de mestrado. A ver vamos.
Mas apesar de toda esta carga, a verdade é que saio daquele seminário com uma boa-disposição incrível. Hoje não apanhei o Strassenbahn (eléctrico) porque faço questão de andar todos os dias a pé pelo mercado de Natal um pouco. Mas uma regra mantém-se: passar pela Cafeteria, pedir o meu habitual Doppel-Espresso (que mesmo assim não dá a força de uma boa bica Delta portuguesa, mas é o que se arranja…), organizar a agenda, ler um pouco ou escrever o Diário Erasmus, sair meia-hora depois toda encasacada, apanhar o Strassenbahn, passar no supermercado aqui ao lado de casa, comprar um pãozinho, chegar a casa, fazer umas torradinhas e sentar-me na secretária a trabalhar.
[É verdade, passo muito tempo isolada; ossos do ofício de uma aluna Erasmus abandonada na área de Jornalismo. Mas digam lá que não gostavam de um isolamento assim?]

Agora, se me dão licença, tenho muito que fazer.
26 novembro, 2006
É um pouco como os outros contavam dos Erasmus deles,
O aquecimento central engana. Visto o casaco mais curto a pensar que lá fora está agradável como no Zimmer 537. Quando abro a porta para a rua e sinto aquele vento continental geladinho bater na cara, lembro-me que o 5.º andar já está longe. “Que se lixe”.
Alguém trancou a minha bicicleta. Mas não se deixam bilhetes nem 4 piscas nem se buzina. (Há quanto tempo não oiço buzinar?). Tentei simplesmente fazer a minha linda e ferrugenta Fahrrad sair do estacionamento e lá fui eu.
Aqui é tudo “immer gerade aus”. Sem curvas vou parar ao centro e a vantagem da bicicleta é que quanto está verde para os carros vou na faixa dos carros e quanto está verde para os peões vou na faixa dos peões.
Elas ainda não tinham chegado à Augustusplatz. Nem sabia bem com quem me ia encontrar. Uma estudante de Medicina, aus Barcelona, que conhecera no Montagskneipe e que achei muito querida por falar português do Brasil sem dificuldades, convidou-me pelo MSN a ir ver um concerto.
E assim estava eu na Thomaskirche, com três espanholas e uns duzentos alemães à minha volta, num fim de tarde (diga-se, dezasseis horas) de Domingo. Tocou o Coro da Universität Leipzig com Orquestra. Belíssimo. Arrepios, olhos fechados a saborear esta capacidade de dezenas de pessoas conseguirem criar uma musicalidade tão perfeita. E aos poucos começo a acreditar que os músicos sabem quando gostámos do espectáculo, mesmo sem aplaudirmos – porque aqui não se aplaude.
“Wollen wir ein Kaffee trinken?” – Natürlich. Levo a bicicleta pela mão e prendo o cadeado a um qualquer poste ao pé do Coffee Culture. Queríamos o Lukas Café, mas fechava às 18 horas. “Estamos en Alemania…”
“Ich hätte gern ein Espresso und einen Zitronekuchen, bitte”. Que não deu para saborear muito bem. A amiga da Bulgária (num mês fazem-se amigos, aqui) telefonou porque ficou sem Internet. “Vem lá a casa daqui a nada, usas a minha”...
E então, meninas, tive de ir mais cedo. "Scheiβe, já é noite e eu insisto em arriscar andar por aí sem luz na bicicleta. Não há Polizei ao Domingo, hoje não se trabalha na Alemanha", pensei. E de facto a multa sempre sai mais barata do que comprar uma luz nova.
E novamente me fiz ao caminho “immer gerade aus”, com o vento consideravelmente mais gelado, próprio do cair da noite. Estacionei a bicicleta na Tarostraβe, Nummer 12.
Ah, que quentinho que está em casa. “Dling-dlong”. “Maria, es ist für mich“, digo eu à minha Mitbewöhnerin, para se deixar ficar no quarto com os pais e o cão.
A minha amiga búlgara usa a Internet enquanto pinto as unhas e leio qualquer coisa.

“Danke, Débora.”
“Bitte! Janta cá hoje.”
19 novembro, 2006
Saudades da minha Menina
Desta não estava eu à espera.
O paradoxo de estar totalmente afeiçoada às ruas de Leipzig e de sentir uma falta terrível da Júlio Dinis, da praça do Campo Pequeno, do caminho a pé para o Saldanha, do Picoas, do verde triste da Avenida da Liberdade, do Rato, de Campo de Ourique, do Tejo.
16 novembro, 2006
Ao fim de dois meses,
não há tempo para descrever tudo o que acontece e se sente.
Acontece de tudo um pouco e sinto-me Bem.
10 novembro, 2006
26 outubro, 2006
,,Somos animais de hábitos."
[Passei a usar as aspas como os alemães usam.]
Passei a gostar de leite frio quando tenho sede à noite. Nem sempre tenho tempo de aquecê-lo.
Passei a achar normal pagar 2 € por um café.
Passei a separar o lixo a sério e não a brincar como em Portugal.
Também passei a trazer sempre um saco na mala para o caso de ir ao supermercado.
E passei a ser eu a fazer a lista das compras.
Passei a olhar para o Professor como o meu colega mais prestável.
Passei a ver a cidade como a da minha rotina e não como um ponto turístico.
Passei a lavar a loiça do pequeno-almoço.
Passou a incomodar-me que o eléctrico se atrase um minuto.
Passei a também não atravessar a estrada com o sinal vermelho.
Passei a olhar com naturalidade aqueles que às 10 da manhã comem pão com salsicha e molhos.
Passei a não dar pela falta de guardanapos à mesa.
Passei a ver o correio todos os dias. (Ansiosamente.)
Aqui ninguém olha para a marca dos telemóveis uns dos outros.
Aqui a correria faz-se a pedalar na bicicleta.
Aqui as luvas fazem parte do dia-a-dia dos latinos.
Deixei de desperar quando surge um afazer. São demasiados, para se pensar no receio que temos deles.
O cheiro da minha casa, que no início me incomodava, identifico agora como o cheiro de um doce lar onde anseio chegar todos os dias, no percurso (gelado) de regresso.
Então passei a preocupar-me com "o que vou fazer hoje para jantar".
Sem dúvida. Aos poucos adaptamo-nos.
22 outubro, 2006
Plötzlich...
19 outubro, 2006
schwierig adj. difícil, complicado

O estereótipo não se confirma, pela experiência de um mês que aqui tive.
Mas não posso refutar o que é lógico: este povo tem a sua língua, que me atrai de facto, mas que me está ainda (muito) distante.
Um aluno Erasmus, ao pé de todo este Volk, é pequeno na sua capacidade, grande na sua coragem... genau, confuso nas sensações que o invadem.
É o confirmar que estar aqui é schwierig, que não sobrevivo sem o meu dicionário e que tenho uma vontade enorme de compreender e ser compreendida. Mas que só a vontade não chega.
Digo eu por cá que Erasmus bedeutet kein Problem, mas mais do que isso significa acreditar que sem relaxar um pouco fica tudo noch schwierigER.
Cada dia é uma batalha. E ter vencido hoje uma em Portugal tem de me convencer a ver a batalha contra este Deutscher Volke como algo mais... einfach. Nicht so wichtig.
schaffen v. tr. conseguir (fazer); conseguir passar em.
18 outubro, 2006
Lissabon!...
No castelo, ponho um cotovelo
Em Alfama descanso o olhar
E assim desfaço o novelo
De azul e mar
À ribeira encosto a cabeça
À almofada da cama do Tejo
Com lençóis bordados à pressa
Na cambraia de um beijo
Lisboa menina e moça, menina
Da luz que os meus olhos vêem, tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura
Cidade a ponto cruz, bordada
Toalha à beira mar, estendida
Lisboa, menina e moça, amada
Cidade, mulher da minha vida.
Quando um pombo te olha, sorri
És mulher da rua
E no bairro mais alto do sonho
Ponho o fado que soube inventar
Aguardente de vida e medronho
Que me faz cantar.
Lisboa menina e moça, menina
Lisboa no meu amor, deitada
Cidade por minhas mãos, despida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida...
Ary dos Santos
11 outubro, 2006
Daqui

04 outubro, 2006
Nova casa.
É este o meu caminho para casa. Nestas duas primeiras semanas, sempre a pé, cerca de 5 Km todos os dias, com as andanças necessárias. Agora, com um Passe semestral de 60 Euros, ando onde eu quiser, quando quiser, com máquinas em cada estação, painéis com os horários também em cada estação, nenhum eléctrico se atrasou até hoje, não espero mais do que 5 minutos, e como o frio começa a apertar o caminho a pé começa a ser substituído. A bicicleta está também à porta de casa, mas ainda não me habituei a usá-la.
É bom sentir-me nesta nova casa. No meu quartinho, com a minha nova cama, mas os meus lençóis portugueses (os alemães não dormem com lençóis...), com o meu computador (agora) sempre pronto a contactar com o que deixei temporariamente aí - já que só aí me lêem. Gosto do desafio de acordar e olhar directamente para a janela, ou seja para o céu, porque os almães também não usam estores nem cortinas, e lembrar-me assim que o despertador toca (porque o despertador tem de tocar, porque eu tenho de ser pontual nos compromissos) que estou mesmo cá, tive mesmo coragem de, pelo menos vir. Por enquanto, é um dia de cada vez.
É a caminhar, por vezes sozinha, por esta calçada, que eu sinto o tempo a passar e tento avaliá-lo. Mas definitivamente a escala de tempo, nesta experiência de Erasmus (não gosto de chamá-la assim, soa cliché demais, mas parece sê-lo assim mesmo), não tem uma unidade de medida certa. Acima de tudo julgo que o tempo passa devagar, e ao mesmo tempo é mais do que insuficiente para fazer tudo o que preciso. E é sobretudo insuficiente para quem desejaria parar para falar com cada pessoa de cada vez e contar tudo de maneira especial. Nem há tempo nem há forma de exprimir tudo o que se sente em tão pouco tempo.
Fala-se muito alemão, mais do que seria de esperar para quem lida mais com estrangeiros. Os espanhóis falam demasiado espanhol e os anglo-americanos falam demasiado inglês. O dicionário vem sempre comigo e o diário desta viagem especial também está por perto, mas também o tempo não deixa que lhe dê a atenção merecida. Assim sendo trago a máquina fotográfica, Fotoapparat como lhe chamamos, e a cada instante pode registar-se um momento diferente, uma imagem engraçada, ou pelo menos fora de vulgar, como de resto tudo o que sinto que se vive por aqui.
Enquanto é fase da exploração, o sentimento é de agrado, pelo menos porque há mais coisas entusiasmantes do que medo do que aí vem. Mas o certo é que vem e só aí veremos...
aber... kein Problem!
Porque em Erasmus não chegam os textos...
www.fotolog.com/debbiemiranda
Por engano nao consegui por um nome mais apelativo, e por irritação nao consigo sempre pôr fotos no blog. ora entao, fica definido, que têm outro link para guardar nos favoritos e manterem-se deste modo a par das novidades por cá ;)
Grüsse!
23 setembro, 2006
Erste Augenblick (primeira impressao)
15 setembro, 2006
11 setembro, 2006
Aeroporto
Welcome - Bienvenue - Willkommen - Bem-Vindo
Eis um palco de sensações fortes. O espaço que tenho vindo a conhecer melhor, porque contactado melhor. Mais. Mais intensamente. Quase. Sentindo já tudo tão na pele.
Sobre o frio do mármore ou outras pedras que combinam com o ar condicionado e o grande volume de espaço em redor, passeiam-se carrinhos para bagagem, arrastam-se pés de quem por lá vive, os sapatos de salto alto das hospedeiras, os sapatos engraxados dos business men, os ténis dos turistas, os sapatos gastos de quem parte ou chega em busca de oportunidades, saltando continentes.
No meio de tantas diferenças, sobressai o que de tão intenso encharca aquele ar. Despedida. Suave ou intensa, seca ou chorada, breve ou indeterminada, próxima ou distante. No meio de burocráticos processos a lembrar um pescoço de um passageiro ou um piloto cortados com um X-Acto, por entre papéis e despachos e muito dinheiro, é naquele espaço de autênticas chegadas e partidas que pisam vidas, experiências, passeios, devaneios e carreiras.
Viagens.
Sinto-me como nos filmes. Correndo para o aeroporto, pouco antes do embarque, para dar o último abraço, o último beijo, o último aperto, o último olhar, o último aceno. Porque a última lágrima não está agendada.
Mas depois de ficar tantas vezes, agora quero ir. E está quase a minha vez.
01 setembro, 2006
Setembro
Eis o mês em que até os míopes vêem melhor. Cada dia que passa o Sol esconde-se um pouco mais cedo, parecendo chamar a atenção daqueles que gostam de aproveitar o tempo. Convencidos pelo espírito da rentrée a vários níveis enchemo-nos inevitavelmente de uma energia que dizem ser o verão a repor. E então, "este ano vai ser diferente".
17 agosto, 2006
Sobre os carris do Alentejo
Gosto das metáforas e da realidade simplificada aos meus olhos. Atravesso o olhar pelo comum dos mortais, ignoro o pensamento dele, quiçá também concentrado. Ambos relaxamos com a ajuda destes fios conectados aos ouvidos, cada um a transportar decerto uma energia diferente. Por detrás do seu perfil vejo uma paisagem alentejana, aquela que arriscaria dizer só o portugês nato e amadurecido saberá observar para além do verde e castanho secos.
Sinto como se os sobreiros falassem a toda esta carruagem, lembrando que o equilíbrio passa por olhar para eles com alguma frequência. Passa a senhora com petiscos para o lanche, quebrou a minha concentração, mas agora não me apetece comer, vou continuar a olhar.
04 agosto, 2006
Calor
23 julho, 2006
No vale do semblante.
Semelhante a um manual de instruções. Por fases, seguindo uma de cada vez, com cuidado, com se’s. Como num manual de instruções também há momentos em que não percebemos o que nos indicam, parece que algo não bate certo.
Folheio essas fases, embebida de inseguranças, de muita esperança, de sorrisos sinceros e transparência. Só disfarço as lágrimas, quando elas me atraiçoam. No fim de cada dia folheio mentalmente o que me trará o amanhã, a semana seguinte, o mês seguinte num fechar de olhos molhado, fraco e isolado.
Com o raiar de cada nova manhã correu nestas veias a tranquilidade, a vontade de subir àquele terceiro andar para lembrar a presença, o amor, o valor – e garantir que somos especiais, sem pretensões no entanto.
Nunca duas velas do meu aniversário tinham sido tão partilhadas, tão amigas, tão fiéis. Sopradas ao sabor do lar, com a fragrância de um ar que se construiu pelas suposições e contrariedades do início, pela consciencialização das prioridades entretanto e pela consolidação dos valores com o passar do tempo. Os princípios que o quotidiano de uma Família faz emergir e que comandam as emoções com esta facilidade. Falo pelo Caranguejo que sou.
Depois de aquela cigana me agoirar o mal só porque não quis ouvir o meu futuro pela voz de uma estranha acabei por confirmar o que pressentia para este arranque de terceira década de Vida. A mudança iria envolver-me, essa que vira como um desafio e que agora ganhou contornos de protecção. Ou, na perspectiva contrária, de abandono.
Agora as dúvidas quanto ao desafio ganham novos argumentos – que desejava ardentemente não ter precisado de conhecer para olhar os anteriores com desdém. Pois enquanto nos movimentarmos, respirarmos e contactarmos tudo ganha viabilidade.
Agora as ausências adivinham mais dor. A saudade antecipada rouba a força, a coragem que nunca foi muita e até a vontade de ir. Um desafio que julgava enriquecedor soa-me agora, todas as noites, disparatado e irreflectido. Mesmo sabendo não ter nada a provar, a vontade de me pôr à prova oferece o seu espaço à vontade de saborear cada presença e companhia. Cá.
Custa, esta necessidade de abdicar de qualquer coisa. Custa conjugar o desejo sincero de estar por perto com a certeza de que quem está por perto deseja ver-me amadurecer lá longe. Custa pensar no motivo que me levou a crer que deveria ir. Custa mais agora pensar que falta tão pouco para sentir tanto a falta de quem fará sempre falta. Por se ter unido quando a surpresa nos surgiu como só ela sabe surgir.
Não gosto de clichés, não gosto do carpe diem, não acredito que viva mais por me concentrar no momento. Acredito sim que sofro mais, tão mais, pelo medo constante que nasceu comigo, este medo do futuro em todos os seus sinónimos.
A dúvida consome-me, o pânico aproxima-se e eu recuo. Como ultimamente tenho dito, não posso mais planear. Não tenho força nem experiência para isso. A Vida tem-me dito, nos últimos dias, que a Família, a Saúde e os Amigos são tesouros a acarinhar. E para isso precisava de estar presente. Para não sentir falta, para adiar a saudade, para ter onde chorar depressa, para estar segura e retribuir a dedicação que até hoje me foi dada.
Está a corroer-me este sofrimento de não saber o que será melhor.
E no fim, tal como num manual de instruções, ficam as hipóteses. Ou se consegue sem saber como, ou se persiste com a ajuda do tempo, ou se desiste.
06 julho, 2006
O semblante
Depressa se escondem os traços outrora mais visíveis, aqueles que a todos familiarizam pelo tom inequivocamente superficial. Uma bola na rede certa, uma agenda cheia de cores ou um simples bonito dia de sol carregavam a força do sorriso que em todos queremos ver. Pois os traços lá se esconderam, frios sob os poros da pele, por onde agora só entram os olhares que nós queremos. Como se nos sentíssimos bem apertadinhos, naquele calor tão forte, o calor humano do núcleo do lar, preso num espaço também apertadinho. Um espaço para tudo o que é preciso. É dele que olho lá para fora, para os sorrisos que ainda espreitam acolá, lembrando-me novamente da perícia em que consiste o olhar para além da visão. E por isso é para este espaço que eu tenho a certeza que poucos estão a conseguir olhar. Aos que me e nos observam realmente, com aquela palavra certa ou mesmo aquele silêncio que diz tudo, a esses devolvo a garantia que é por eles que ainda olhamos lá para fora. Para aqueles que, de lá, se mostram capazes de estar atentos a todos os casulos espalhados pelas arestas das suas caixas de amigos.
Para os que mantêm um olhar inocentemente ignorante, cá dentro não somos capazes de declarar nada, pois a força do instinto amigo não se manifesta e creio que não compensa acenar para que nos vejam. Conformo-me, tranquila. Dói mais quando tantos daqueles pares de olhinhos que apareciam no parapeito do casulo, tantas vezes, fazendo parecer daquela fronteira um espaço tão mais amplo e harmonioso, não espreitam mais, por qualquer motivo que quase parece não ter agora importância alguma. As marcas dos cotovelos apoiados no parapeito ainda se vêem, mas a erosão vai tratando do assunto. Faz-nos acreditar que é possível já ter passado, que não há lugar para rancores num espaço tão pequeno, num tempo tão valioso.
Tudo porque o semblante oscila e nem sempre aquele mais escondido está ao alcance do olhar de quem gostaríamos, ou de quem seria suposto. Importa assim recarregar as forças do casulo, queimar os ácaros das arestas e, se Deus quiser, sair enfim de volta para o mundo dos semblantes, onde então o nosso lembrará a hierarquia dos valores.
01 julho, 2006
(Mesmo) Imbatíveis.
Porque arrisco dizer que só nós temos este espírito, este de quem se agarra a uma causa como se pouco ao nosso redor ainda fizesse sentido louvar sobre uma Pátria fora das memórias áureas. Portugal faz HOJE História, o nosso apesar de tudo tão querido País representa-se de uma forma que nos faz reconhecer como há alturas em que a força para ostentar o Vermelho, o Verde e o Amarelo é profunda demais. Nada como a força de vontade que nos caracteriza para pôr de parte os tão sempre emergentes pessimismo, falta de confiança e prontidão para a crítica. Porque, como o bom Português tão bem sabe fazer, à última da hora é que nos lembramos que podemos vencer. Aconteça o que acontecer, já vencemos, pois já pudemos, neste arranque crítico do novo milénio para os Lusos, voltar a gritar com aquela garra que faz as lágrimas quererem saltar para também fazerem a festa.
30 junho, 2006
Uma geração desorientada
Escrevi este texto em Fevereiro passado e não sei ao certo por que não o publiquei na altura. Talvez a clara transparência, passe o pleonasmo, me fizesse crer que o deveria mostrar a quem o soubesse ler como o escrevi. Mas sujeita a esta eterna espera de
feedback, e porque nada melhor do que esta fase de transição académica da minha vida, ei-loMas nós, os estudantes do ensino superior de hoje, de uma transição ainda não palpável, sentimo-nos descurados desse apoio. Aliás, são as falhas de que nos queixamos que alertam os governos para a necessidade de dar importância à educação dos jovens. Há pouco tempo, na Universidade Nova de Lisboa, onde estudo Ciências da Comunicação, uma Professora minha, ainda nova, mostrou-se muito surpreendida quando lhe contámos, seus alunos que rondam os 20 anos, ter sentido uma grande angústia no tempo em que nos era imposto seguir uma determinada área profissional. “Mas vocês chegam ao ponto de deixar que o medo da situação do mercado de trabalho influencie a decisão sobre o que querem fazer da vida?”, perguntou-nos, incrédula. Confessou, garantindo que a sua geração era unânime, não ter essa consciência.
É a mais pura verdade. Desde o tempo em que nos ensinam a importância da evolução tecnológica, fazendo da Revolução Industrial o grande passo da nossa História, parecem esquecer-se simultaneamente que é preciso darem-nos o espaço, a oportunidade e as condições para que façamos, um dia, História também. E no entanto sinto, juntamente com a maioria dos meus colegas, um desamparo desmedido que nos faz sentir que a única solução para vingarmos na vida passa por um dinamismo consciente da ausência de apoios. Resta-nos fazer e procurar, lutando contra os obstáculos que parecem só agora constituir uma “questão a estudar no plano legislativo”. Talvez para daqui a alguns anos.
Enquanto isso, porque não podemos perder tempo a esperar, resta-nos seguir esse caminho de pedras, buracos e poeira. Um caminho em que nos constituímos cidadãos como autodidactas, por não termos sobre nós o princípio, o exemplo. Se tanto lutam para que tenhamos uma infância feliz, longe das atrocidades que sabemos atacar crianças por todo o Mundo, violadas, exploradas e famintas, a verdade é que crescemos com uma maturidade fragilizada que não permite, a muitos, enfrentar as dificuldades da crua realidade prática da vida.
Quando julgamos sentir em nós a capacidade para “mudar o mundo”, depressa nos retiram esse alento, gritando-nos diariamente sobre as elevadas taxas de desemprego, acompanhadas da frase-desilusão “ainda tens muito que aprender nesta vida”.
Parece ser este o espírito perdedor de um povo de glórias passadas que viu o tempo correr e já não crê no retorno dos tempos áureos. E que culpa temos nós, jovens obrigados a estudar todas as datas que marcaram a magnificência portuguesa, que o caminho percorrido desde então por Portugal não tenha sido mais bonito, nós a quem pouparam a oportunidade de acreditar mais agora para viver melhor depois?
Desorientaram-nos porque se sentiram atraiçoados pela conjectura que os antecessores viveram. Fraquejaram com esta crise de identidade permanente, qual criança de um país de Terceiro Mundo que não pôde sentir a protecção à sua volta.
Hoje somos negativamente acusados de espírito revolucionário, de não nos esforçarmos, de deixarmos de estudar. Porquê? Porque sem um desenvolvimento motivador somos forçados a trazer esse dinheiro caro para casa, a trabalhar cedo para viver, e não a trabalhar para cultivar outros sonhos. Aos que tiveram um berço mais feliz mas apenas aos que sabem valorizá-lo, é possível pegar em alguns tostões e alargar horizontes, procurar oportunidades além-fronteiras, ir. São esses ou os que sonham com isso que, quando abordados na rua pelos repórteres sobre o que fariam com o prémio do Euromilhões, respondem, sem hesitação e com um sorriso ambiguamente melancólico e determinado, “ia embora daqui”. São esses que, com uma frustração cada vez mais unida, parecem só saber gritar “Portugal!” a todo pulmão quando o futebol os faz esquecer que, aqui, não têm espaço para muito.
Não nos culpem por nos revoltarmos e querermos ir embora de um País que não nos ajuda.
18 junho, 2006
Imbatíveis Portugueses - permanente actualização
É favor cantar com a melodia do Dartacão :)
[de volta às origens.]
Do Scolari campeão são os vencedores
Não mporta a arbitragem e os seus cartões Não importa o Zidane e o seu penalti
Porque somos e seremos sempre campeões
Quando eles vão a jogar
Já ninguém lhes tira a bola
É o Figo a passar e o Maniche a marcar
Uma finta aqui e ali e o bailinho a pairar
Holanda e Inglaterra p'ra trás a ficar
Vai o Cris Vai o Cris
E marca o golinho
Vai Ricardo Vai Ricardo
E defende os penalties
E passa a bolinha
Pró Pedro Pôlétaaa
Ricardo Carvalho
Defende com pinta
Vai o Deco vai o Deco
E faz uma granda finta
Nuno Gomes sai do banco
E marca o golão que salva a Selecção
13 junho, 2006
Falta um pouco.
Falta pouco para esse auto-teste, sem que dele precise de tirar provas para quem quer que seja. Mas aproxima-se impiedosamente a data marcada em que terei de pôr em prática tudo aquilo em que tenho pensado, sobre o que tenho escrito, que me tem atormentado e encorajado, nuns dias mais, noutros menos. Nessa altura não terei tempo para projecções, talvez nem sequer expectativas. Não as quero, por me faltar a bagagem que permita construí-las com razão. Estou forçada a este amadurecimento radical porque assim o quis, porque graças a Deus tive várias manhãs de sede de fazer, tendo hoje um pequeno caminho esbatido por onde decidi que me vou aventurar.
01 junho, 2006
Conversa de Criança
de correr com os pneus e esfolar os joelhos.
Não me lembro das barbies, nem dos Onda Choc, porque isso era para a menina da minha irmã.
Eu fui o Joãozinho muito tempo, aquele que a minha Mãe quis.
Quando me cortou o cabelo à tigela e ficou feliz daquela forma,
não acreditei como podia aplaudir o meu choro desesperado...
Mas hoje sorrio com isso,
como sorrio sobre tudo o que invadiu a minha infância.
Criancices,
como a de ir de pijama para a escola por engano,
como a de conspirar com a Tatiana para guardar as couves do almoço no bolso da bata,
como a de ver na 4.ª classe o cinto encarnado dessa bata já todo podre,
como a de comer todos os dias um bolo de côco ou de açúcar... a 30$.
Criancice aquela de viver quatro anos no Externato do Parque,
de ainda hoje cantar as Olimparquíedas.
Era tão bom ter o material escolar cor-de-rosa e aprender a ler, a escrever, a desenhar,
a cantar o "A B C" em inglês com a Julieta.
Gostava de ser chamada para encher a garrafa de água da Ester,
de ir ao caixote do lixo afiar o lápis.
Gostava de usar fato-de-banho, fitas no cabelo, roupa de todas as cores,
misturando bolas, riscos e quadrados.
Via na minha Mãe uma criança que fazia de nós os seus nenucos.
Delirava de pânico quando a minha irmã se fingia de morta,
Gostava dos mimos da Irene,
Adorava as festas de anos, de levar para casa o saquinho com balões e guloseimas.
Lembro-me do cesto do lanche,
Lembro-me de não me lembrar da correria dos meus Pais para terem a certeza
Ainda gosto de bater na minha irmã, de lhe puxar os cabelos,
(e ela a mim, claro).
Tenho saudades das bolachas Bonne Maman ao pequeno-almoço,
Tenho saudades do "fato-polícia" do meu Pai,
de quando se desculpava por chegar tarde, "filha, estava nos tostões".
Gostava dos meus hamsters, piriquitos, da Bolinha porquinha da índia,
Gostava de programar as minhas férias num papel colorido,
de desesperar por não conseguir aprender a ver as horas.
Gostava das Belinhas, as melhores bolachas de chocolate de sempre,
de jogar ao elástico e ao macaquinho-do-chinês.
Tenho saudades do Porto Covo dos meus quatro anos,
da Marina de Vilamoura dos meus seis.
Tenho saudades dos caracóis no meu cabelo,
do meu sorriso traquina,
de brincar na Gulbenkian,
da sesta na creche.
Sinto falta do muro à minha volta,
da minha ingenuidade,
de não precisar de saber.
Hoje não recebi a minha caixa de lápis de cor Caran D'Ache,
mas tenho-a aqui para sentir que o dia 1 de Junho ainda é para mim.
Um beijinho a todos os que foram crianças quando eu fui e que se identificam com estas palavras.
Um dia destes brindaremos com vinho e carro lá fora
a esta passagem cruel do tempo...
...Embora eu ainda seja uma bebé-bolacha!


